Como comprar biquíni no interior
Quando cheguei ao hotel, na fronteira entre Minas Gerais e Goiás, a recepcionista informou-me que as piscinas, naturalmente quentes e salgadas, ficavam abertas até meia noite. Confessei-me surpresa. Não havia me ocorrido trazer biquíni em uma viagem curta, a trabalho, para uma cidade de 8 mil habitantes.
Que não fosse por isso. Por coincidência, veja só, sua amiga que morava ali pertinho vendia biquínis. Poderia estar no meu quarto em dez minutos. E não se passou mais do que isso até que Lucilene batesse à porta, sorridente. Depois da viagem cansativa - avião, aeroporto, avião, estrada -, eu queria resolver logo a questão, estava programada para ser produtiva.
Mas Lucilene queria conversa. Pareceu um pouco decepcionada quando escolhi rapidamente um pretinho básico, desprezando os modelos coloridos e brilhantes. Eu tratava de arrumar a bagunça sobre a cama, quando ela disse.
- Custa R$ 35, mas vou lhe dar um desconto de 10%, faço por R$ 30.
Fiz que sim. Estava tão distraída com outros pensamentos que nem notei a conta errada, a meu favor. Apenas captei o preço final, razoável, como eu já previa. Mas Lucinele repetiu:
- Vou lhe dar um desconto de 10%.
Foi então que percebi a minha desfeita. Eu não estava no Rio ou em São Paulo. Estava no interior, e nem olhava nos olhos da moça à minha frente.
- Só 10%? - provoquei.
Ela sorriu feliz.
Ah, Lucilene disse, um biquíni daqueles era muito mais caro na capital. E o dela não era porcaria não. Não desbotava, podia lavar sem preocupação, durava a vida inteira. Ouvi com atenção e elogiei sua performance como vendedora. Ela não foi modesta, explicou que falava bem daquele jeito porque tinha sido secretária do prefeito. Deu-me seu cartão de visitas, no qual soube que sua especialidade eram as bijuterias, e protificou-se a me ajudar em qual-quer coisa que precisasse nos próximos dias. Tive a impressão de que aceitaria uma encomenda de bolo, ou um emprego de doméstica no Rio.
Só no dia seguinte, depois de relaxar com o banho quente e salgado, compreendi a qualidade de “falar bem”, alardeada por Lucilene. Era como se ela quisesse dizer: “falo o seu idioma”. A comunicação com as pessoas da região era difícil, elas não pareciam me compreender de bate-pronto, por mais que eu tentasse palavras simples e construções diretas. Ao mesmo tempo, estavam ansiosas por um dedo de prosa, curiosas com os modos daquela estrangeira.
Afinal, quantos Brasis existem dentro do Brasil?