31 de Julho de 2008

Poesia, numa hora dessas

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 17:10

Quando eu tinha uns 13, 14 anos, meu pai me encheu de livros que gravitavam em torno da ditadura militar. Estávamos no fim dos anos 80, ainda sem eleições livres, e por algum motivo ele achou que era hora de eu saber das coisas da vida.

Lembro-me de ter ficado bastante impressionada com a questão da tortura. A partir dessa época, por uma estranha lógica que desenvolvi internamente, comecei a decorar versos. A idéia era que, se algum dia eu ficasse em uma situação de isolamento e dificuldade, teria textos na cabeça para me fazer companhia.

Como não era exatamente devoradora de poesia, passei a contentar-me em colecionar mentalmente letras de músicas. Era o tempo das rodinhas de violão, o que facilitava bastante as coisas. Quando a hipótese de um cativeiro, motivado pela militância política que eu nem tinha, parecia remota, arranjei outro motivo para justificar a decoreba: a iminência de uma hecatombe nuclear, outra paranóia da época. Caso eu ficasse presa em um abrigo, cercada de radioatividade…

Isso tudo me veio à mente outro dia quando vi o filme “O escafandro e a borboleta”. O personagem principal encontra-se numa situação absurda de encarceramento - dentro do próprio corpo, conseguindo expressar-se apenas por piscadelas do olho direito - quando é visitado por um amigo que sobreviveu a um longo seqüestro.

Havia motivos para ressentimentos por parte do sequestrado, que sequer recebera um telefonema do amigo quando retornara de seu suplício. Mas a cumplicidade fez-se mais forte. Ele arrisca, então, um conselho, baseado na sua terrível experiência: para sobreviver, agarre-se ao que resta de humanidade dentro de você.

Hoje nem penso em tragédias desse tipo, mas fiquei feliz por ter mantido o hábito de guardar versos. Ainda hoje, flagrei-me cantarolando na carro, tentando decorar as letras do novo CD da Adriana Calcanhoto, que é maravilhoso.

29 de Julho de 2008

Novo visual

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 21:36

Gostaram? Quis mudar, entre outros motivos, para me animar. Mais de ano, blogando, já viu. É que nem relação, tem seus altos e baixos. Sobre isso (a experiência de blogar), aliás, pretendo escrever numa página separada. Que agora vai aparecer lá em cima, junto com “Início”, “Eu vi” etc. Aguardem.

Que livros?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:32

De uma conhecida, quando eu comentei que já tinha feito curso na Casa do Saber:

- Ah, ouvi falar desse lugar. Como foi o curso?

Mas ela tem a estranha mania de perguntar e não deixar os outros responderem. Então emendou:

- Parece que lá é bom para paquerar. E também para quem não tem tempo de ler livros. Mas eu leio livros.

Perto dos 50 anos, com aparência de 40, está solteira e faz o tipo pragmática. Ficou na dúvida se fazia um cursinho numa casa do saber, para arrumar namorado, ou se tentaria um mestrado - dessa vez até o fim - para melhorar o currículo.

Saber, saber, ela jura que já sabe, porque lê livros.

26 de Julho de 2008

Filosofadas de viajante

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 09:48

Conheço pessoas que não gostam de viajar. Trata-se de gente quieta, que não alardeia por aí sua preferência pelo abrigo familiar, e talvez nem admita para si própria o desconforto em dormir fora de casa. Mas eles são muitos, e em geral justificam as poucas viagens do currículo com motivos verossímeis - falta de tempo, de dinheiro.

Ok, mas sabemos que quem gosta mesmo de viajar dá um jeito. O viajante apaixonado, mesmo duro, põe mochila nas costas, economiza, deixa de comprar ou trocar de carro. Se tem filhos, abre mão da casa de praia, uma espécie de âncora no pé do viajante, e acostuma os pimpolhos desde cedo com a canseira da estrada ou dos aeroportos lotados, nas férias escolares.

Viajar é a aventura que nos resta. Adoro. Sofro também, e gosto de voltar para casa. Mas logo estou programando a próxima. Não consigo imaginar um futuro sem viagens a lugares novos, desconhecidos. A sensação de ser estrangeira é inquietante, quase angustiante, e ao mesmo tempo libertadora. Vicia.

A idéia de ser intruso e voyer de outras culturas, sob a fachada consentida de turista, é excitante. Às vezes, caminhando sozinha numa rua estrangeira, tenho a fantasia de que serei descoberta: “Ei, você aí. Deleitando-se com a diversidade da natureza humana, hein? Aproveitando para esquecer da sua vida, enquanto investiga a nossa… Peguei você, minha cara.”

Essa quase culpa pelo prazer de viajar talvez revele uma outra faceta minha: não sou a turista mais desencanada do mundo, como gostaria. Preocupo-me um pouco; canso, muito. Sempre planejo que relaxarei, e dormirei, mais na próxima viagem. Mas, em geral, volto exausta, com sono atrasado. Desfaço as malas e preciso ficar um, dois dias me refazendo.

Mas a vida é mesmo assim - aprendemos na escola e na nossa cultura cristã. Vivências emocionantes e realizações verdadeiras parecem cobrar sempre uma taxa em sofrimento, em concessões. Viajar, assim como criar um filho, exige dedicação. E também está no rol das coisas que dão sentido à vida, sabe-se lá por quê.

24 de Julho de 2008

Melhor foto da viagem

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 18:15

NY Central Park - NY Central Park

Como faz tempo que não dou de mãe coruja por aqui, aí vai: a melhor foto da viagem a Nova York foi tirada pela minha filhota, de 8 anos. A menina tem futuro, não?

O clique foi no Central Park, depois do almoço no Boathouse - que vale a fila.

22 de Julho de 2008

Turismo na Europa ou nos EUA?

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 08:57

De um americano, comparando fazer turismo nos Estados Unidos e na Europa: no velho continente, paga-se para ir ao banheiro; aqui, não. Lá, todas as gorjetas são obrigatórias e vêm expressas na conta. Aqui, só nos restaurantes. No caso de outros serviços, a “tip” só deve ser paga se o cliente ficou realmente satisfeito. Ainda segundo ele, nos hotéis americanos sempre há máquinas de gelo, e o hóspede pode se servir à vontade, enquanto na Europa é preciso pedi-lo no quarto, o que gera burocracia e gorjeta.

Tive que concordar com a história dos banheiros. De fato, ir distraída e apertada ao toilette e se deparar com uma roleta na porta é bem desagradável. Sem contar que, invariavelmente, estamos sem moedas nessa hora. Quanto ao resto, sei não. As gorjetas obrigatórias dos restaurantes americanos compensam qualquer outra situaçào em que são espontâneas: variam de 15% a 20%, mesmo que o serviço tenha sido grosseiro (ou falsamente simpático, o que é mais comum por aqui).

Quanto ao gelo… Por que mesmo os americanos acham-no tão essencial? Vou tentar descobrir na próxima viagem. Agora, estou voltando.

19 de Julho de 2008

Pedalcab no Central Park

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 19:00

Tinha prometido para minha filha que faríamos um passeio de charrete no Central Park. Todo mundo que vem a NY tem algumas cenas de filmes na cabeça, passeios e lugares que gostaria de visitar para se sentir como na tela do cinema. Com ela nao é diferente: seu “filme NYC” é “Encantada”, uma fantasia bem bacana da Disney que estava em cartaz até pouco tempo atrás.

Pois chegamos no parque e não achamos as charretes. Descobrimos que, quando a temperatura atinge os 90 graus Fahrenheit (32 Celsius), a prefeitura proíbe o passeio, para não judiar dos cavalos.

Mas não há tantas leis protetoras do trabalho de gente por aqui. Se o calor é demasiado para os cavalos, não faltam imigrantes de pernas fortes para substitui-los. Assim, os “pedalcabs” ralam sem parar no verão infernal da cidade. São táxis puxados por ciclistas, que têm serviço garantido o ano inteiro graças ao congestionado trânsito nova-iorquino. Nesta época do ano, ganham um extra no lugar dos animais.

Creio que minha filha imaginava algo mais romântico, como tinha visto no seu filme preferido. Mas fomos de pedalcab mesmo. Com as pernas doendo de tantas caminhadas (por enquanto, mais compras do que museus…), apelamos para o estranho transporte. Com algum constrangimento, é verdade.

17 de Julho de 2008

Suando em NY

Arquivado sob: Viagens — Marta @ 10:46

Verãozão em Nova York. Vim com as meninas (uma de 8, outra de 26), que não conheciam a cidade, e em poucas horas elas já se deixaram envolver pela urgência das compras. Todos aqui parecem querer a mesma coisa: consumir, consumir, consumir.

Faz parte do programa, claro. Ainda mais com o dólar tão baratinho. Mas eu canso. Vamos ver se hoje, segundo dia, consigo dar um tom mais cultural para esta viagem.

Quanto ao calor, serviu para confirmar como a moda anda globalizada. Impressionante como isso mudou. Nas minhas primeiras viagens, roupas da estação no Brasil chamavam a atenção no exterior (não sei em NY, onde nada parece chamar a atenção). Quem quisesse se misturar na multidão tinha que colocar na mala as roupinhas mais básicas ou clássicas do armário.

Agora, todas as mulheres usam os mesmos vestidos soltinhos, chinelos de dedo, sandálias rasteiras - novidades das últimas coleções. Bem prático, mas um pouco sem emoção.

11 de Julho de 2008

Consumo consciente ou inconseqüente?

Arquivado sob: Opinião — Marta @ 15:09

A caçula da nossa turma, de vinte e pouquinhos anos, saiu ontem apressada, e sua amiga nos explicou:

- Acho que ela vai à Baronetti.

Como assim, alguém ainda vai para a Baronetti???

Para quem é de fora: a danceteria, boate, casa noturna ou sei lá como se chama um lugar assim ultimamente, está sempre nas páginas policiais. Fica em Ipanema, é freqüentada pela garotada rica da zona sul, e parece inabalável diante do noticiário que sempre a relaciona a pancadarias, pitboys e seguranças brutamontes.

Há dez dias, um rapaz de 18 anos morreu baleado na porta da boate. Não faltou divulgação para o caso, porque o criminoso foi ninguém menos que um policial que trabalhava como segurança do filho de uma promotora. Mesmo assim, a Baronetti segue lotada.

Eu poderia apontar para a juventude desmiolada, mas esse não é um caso isolado. Jurava que estabelecimentos como os restaurantes Capricciosa e Satirycon, ou a butique Daslu, respectivamente envolvidos em tráfico de drogas e sonegação de impostos, sucumbiriam a um boicote natural. Que nada.

Enquanto isso, especialistas tentam nos convencer da tendência do “consumo consciente”. Segundo eles, as pessoas deixariam até de comprar produtos que indiretamente agridem o meio ambiente, por serem transportados por caminhões em longas distâncias, por exemplo.

Dá para acreditar nisso, se fazem fila na calçada onde acaba de morrer um rapaz? Em nome do prazer ou do conforto, as pessoas conseguem fazer vista grossa para crimes notórios! Só posso imaginar que o tal “consumo consciente” seja um modismo, ou um novo gancho para uma matéria no jornal.

9 de Julho de 2008

O saudável medo da cadeia

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:49

Lembra quando o Brasil era o país da impunidade?

Continua sendo, claro. Mas no momento em que as manchetes mostram motoristas bêbados passando a noite no xilindró, ou a prisão de picaretas notórios, como Dantas, Nahas e Pitta, acho que podemos nos dar ao luxo de achar que o país está melhorando.

Como acontece em qualquer processo de mudança, sempre surgem críticas, reações, análises pertinentes sobre excessos policiais e exageros da lei. Mas o que interessa, que é a mudança de mentalidade, não deve ser desprezado.

É o medo do bafômetro, ou da Polícia Federal, que fará com que muita gente pense duas vezes antes de sair aprontando por aí.

6 de Julho de 2008

Como comprar biquíni no interior

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 06:58

Quando cheguei ao hotel, na fronteira entre Minas Gerais e Goiás, a recepcionista informou-me que as piscinas, naturalmente quentes e salgadas, ficavam abertas até meia noite. Confessei-me surpresa. Não havia me ocorrido trazer biquíni em uma viagem curta, a trabalho, para uma cidade de 8 mil habitantes.

Que não fosse por isso. Por coincidência, veja só, sua amiga que morava ali pertinho vendia biquínis. Poderia estar no meu quarto em dez minutos. E não se passou mais do que isso até que Lucilene batesse à porta, sorridente. Depois da viagem cansativa - avião, aeroporto, avião, estrada -, eu queria resolver logo a questão, estava programada para ser produtiva.

Mas Lucilene queria conversa. Pareceu um pouco decepcionada quando escolhi rapidamente um pretinho básico, desprezando os modelos coloridos e brilhantes. Eu tratava de arrumar a bagunça sobre a cama, quando ela disse.

- Custa R$ 35, mas vou lhe dar um desconto de 10%, faço por R$ 30.

Fiz que sim. Estava tão distraída com outros pensamentos que nem notei a conta errada, a meu favor. Apenas captei o preço final, razoável, como eu já previa. Mas Lucinele repetiu:

- Vou lhe dar um desconto de 10%.

Foi então que percebi a minha desfeita. Eu não estava no Rio ou em São Paulo. Estava no interior, e nem olhava nos olhos da moça à minha frente.

- Só 10%? - provoquei.

Ela sorriu feliz.

Ah, Lucilene disse, um biquíni daqueles era muito mais caro na capital. E o dela não era porcaria não. Não desbotava, podia lavar sem preocupação, durava a vida inteira. Ouvi com atenção e elogiei sua performance como vendedora. Ela não foi modesta, explicou que falava bem daquele jeito porque tinha sido secretária do prefeito. Deu-me seu cartão de visitas, no qual soube que sua especialidade eram as bijuterias, e protificou-se a me ajudar em qual-quer coisa que precisasse nos próximos dias. Tive a impressão de que aceitaria uma encomenda de bolo, ou um emprego de doméstica no Rio.

Só no dia seguinte, depois de relaxar com o banho quente e salgado, compreendi a qualidade de “falar bem”, alardeada por Lucilene. Era como se ela quisesse dizer: “falo o seu idioma”. A comunicação com as pessoas da região era difícil, elas não pareciam me compreender de bate-pronto, por mais que eu tentasse palavras simples e construções diretas. Ao mesmo tempo, estavam ansiosas por um dedo de prosa, curiosas com os modos daquela estrangeira.

Afinal, quantos Brasis existem dentro do Brasil?

2 de Julho de 2008

Fumantes X Não fumantes

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 15:07

Com a proibição do cigarro em ambientes fechados, o clima entre fumantes e não fumantes está cada vez mais tenso. Às vezes tenho a impressão de que os dois grupos estão prestes a se estapear.

Pois tenho uma má notícia para os fumantes: a patrulha só vai piorar. Explico. Quem tolerava o cigarro do amigo no barzinho vai perder o hábito, quem associava uma noitada dançante à fumaça vai desacostumar, quem ignorava o cigarro aceso na mesa ao lado vai passar a detectá-lo do outro lado do restaurante.

Conviver com o cigarro alheio é puro hábito. E hábito é fogo (sorry). Depois que mudamos…

Falo por mim. Uns dez anos atrás, eu era uma não fumante que até seguia o cheirinho do cigarro, presente em toda a parte. Onde houvesse uma rodinha de fumantes, haveria bom papo, gente querendo relaxar, dar uma paradinha no trabalho. E lá estava eu, acostumadíssima, talvez compartilhando um café.

Hoje, fico até enjoada. Não me irrito, tenho alguma piedade de quem tenta parar e não consegue, mas a tolerância física simplesmente diminuiu. Outro dia estava rodeada de fumantes, numa providencial varanda, e, apesar do ótimo papo, não pude evitar algum mal estar.

Se somarmos o novo hábito de convivência separada, com as campanhas anti-tabagistas e a intolerância (psicológica) de ambas às partes, imagino que a mistura será explosiva. Sei não, acho que ainda presencio um tapão qualquer dia desses.

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