30 de Junho de 2008

Vá ver Wall-E

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 13:09

Não sou muito de desenho animado, mas costumo encarar alguns por conta da agenda infantil. Foi assim, meio por acaso, que assisti a um filme surpreendente e cativante neste fim de semana: Wall-E, uma animação da Pixar que estreou mundialmente na sexta-feira.

Ao contrário de outros infantis, o filme não substima a inteligência das crianças, nem apela para um ritmo frenético com o objetivo de entretê-las a qualquer custo. Sim, crianças gostam de sutilezas. Conseguem entender e se emocionar com suas próprias descobertas.

A mensagem ecológica e o tom político (que fantástico a fábula política voltar ao universo infantil) não são forçados ou gratuitos. Aparecem naturalmente na história, uma ficção científica, que tem o ponto de vista de um robozinho solitário e sensível, esquecido em um devastado planeta Terra.

Ainda é cedo para ter certeza, mas talvez a ousadia faça de Wall-E um novo clássico. O certo é que se trata de uma animação infantil diferente, que abre mão dos recursos de sempre, das piadinhas particulares para adultos misturadas com algum pastelão para crianças. Lembra ET, ao conseguir unir esses dois mundos com uma fórmula original e envolvente.

27 de Junho de 2008

Mulher melancia, um Fenômeno

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:23

Ele devia estar doido para contar, talvez há semanas. Finalmente arrumou um pretexto.

- Dei o maior vexame no domingo.

Boa introdução. Paramos para ouvir sua história.

- É que no domingo… Eu já contei para vocês que sou o pai da mulher melancia?

Então era isso. Olhei para o seu semblante orgulhoso e por alguns segundos me perguntei como não percebera antes. Os traços do rosto redondo eram idênticos.

Nessas alturas, você deve estar se indagando como alguém repara no rosto da mulher melancia - ainda mais quem pouco vê televisão. Mas eu assisto o CQC, programa hilário da Bandeirantes, comandado por Marcelo Tas. E a mulher melancia havia feito o “CQ Teste”, um teste de inteligência com, digamos, celebridades.

Antes que o Zé disparasse alguma piada, tentei me antecipar. Nosso conhecido fizera uma pausa distraída e esperava por algum comentário. O que será que as pessoas diziam nessa hora? Parabéns, sua filha tem uma bela…?

- Que legal – optei - Sua filha deve estar ficando rica!

Ele explicou que não era bem assim, a Playboy nem pagava tanto, e ficou dando detalhes sobre como as cláusulas contratuais a impediam de revelar a quantia, que ainda nem recebera. Como aquela conversa devia fazer sucesso, pensei.

Depois ele contou sobre o tal vexame. Havia empacado na porta do avião, no domingo, com síndrome do pânico. Em São Paulo, era aguardado pela produção do programa do Gugu, que pagou tudo e o levaria em segredo para o estúdio onde a filha estava no ar. Ela se surpreenderia com a presença dele, o abraçaria, choraria, enfim, aquelas coisas “espontâneas” dos programas do gênero.

Diante da nossa falta de familiaridade – e curiosidade – com o programa do Gugu, o assunto foi se esgotando. Lembrei de dar um conselho.

- Fale para sua filha não gastar esse dinheiro. Para ela economizar, pensar no futuro.

Foi então que percebi que ter uma bela bunda é hoje a versão feminina de ser craque de futebol. Estudar e virar doutor (ou doutora) deve parecer um caminho tortuoso e incerto demais. Já as histórias de fama rápida, nos clubes de futebol ou nos bailes de funk, estão por aí, nas páginas, muito mais factíveis. Os meninos querem (ou queriam) ser Ronaldo; as meninas, mulher melancia.

26 de Junho de 2008

De olho nas tags

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:43

Yes, as liqüidações de inverno começaram. Hora de checar a conta no banco e calibrar o bom senso.

A mocinha da loja me informa sobre as regras:

- Todas as roupas com tag têm descontos entre 30% e 50%.

Por que diabos “tag” e não etiqueta? Melhor não esquentar. Os anglicismos hoje são tantos que os puristas da língua portuguesa começam a tirar o seu time de campo. Não sou eu que vou implicar, ainda mais se tag, nesse caso, significa desconto. Além disso, comecei esse post (!) com um “yes”. Você tinha reparado?

25 de Junho de 2008

De volta à sala de aula

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 14:46

Descobri recentemente um universo que cismava em ignorar: o das oficinas e grupos de estudos formados por gente madura com novos interesses, vontade de aprender e de compartilhar essa aventura. Confesso que, no auge da minha vida-profissional-sem-tempo-para-nada, tinha um certo preconceito com o que, imaginava, seria algo como pintura em porcelana para senhoras abonadas passarem o tempo livre.

Não é bem assim. Muita gente economiza o dinheirinho curto para aprender ou finalmente se dedicar a alguma paixão, bem longe das instituições acadêmicas, mais voltadas para a garotada. Trata-se, aliás, de um mercado interessante para investir, que o diga a Casa do Saber e os muitos similares pipocando por aí.

Foi pela Casa do Saber que entrei no circuito. Depois de uma rápida oficina com o jovem escritor João Paulo Cuenca, soube de um workshop com o veterano Moacir Scliar na Estação das Letras, onde também conheci um maestro, Ricardo Prado, que dá aulas sobre música clássica. Convidada pelo maestro, assisti a uma de suas palestras. Contabilizando todo o percurso, em poucos dias havia travado contato com um heterogêneo grupo de pessoas encantadas por literatura e música clássica.

Muito bacana. Tem de tudo, claro. Alunos com diferentes tipos de formação e níveis de interesse. Mas o que mais me chamou a atenção foram duas senhorinhas, que anotavam tudo em um caderninho, na primeira fila da sala onde o maestro contava, empolgado, como Brahms compôs sua primeira sinfonia com a ajuda de Clara, esposa do mestre Schumann e sua paixão platônica. Será que as duas estudam em casa? Uma sabatina a outra? Eu, pela primeira vez, entendi uma sinfonia, apesar da minha dificuldade com artes que não contam uma história.

Estou entrando em uma fase mais pesada de trabalho, mas fiquei com gostinho de quero mais. Quem sabe até pintura em porcelana pode ser divertido no futuro. Se você está com um tempinho (ou dinheirinho) livre, aventure-se também. Melhor do que ver novela (tema que vem rendendo, depois que expliquei aqui Por que você deve parar de ver novela). Bem melhor, garanto.

23 de Junho de 2008

A nova inteligência virtual

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 17:30

Aos trancos e barrancos, entre e-mails falsos e cartões clonados, estamos desenvolvendo um novo tipo de inteligência pra lá de necessária nos tempos modernos: a de discernir entre o falso e o verdadeiro no mundo virtual. Assim como um caipira aprende a não dar trela para estranhos na cidade grande, e não cair no conto do vigário, passamos a desconfiar da autenticidade de quase tudo que se apresenta embalado apenas em tecnologia.

A praga dos spams já fez muita gente prever até que voltaríamos atrás na era digital. Isso não aconteceu – nem acontecerá – porque se trata de um caminho sem volta. A solução? Acho que cada um encontrará a sua. Os mais velhos podem, assustados, dar meia volta, e abrir mão de facilidades como e-mail ou compras na internet. Os mais novos, porém, já estão crescendo como “cobras criadas”, conhecendo todas as malícias e armadilhas do mundo digital.

Fiquei pensando nisso quando recebi, no sábado, um e-mail de confirmação de compra de uma passagem aérea da Gol. Já tenho como regra nunca clicar em links suspeitos (graças a deus aprendi sem ter infectado o computador), mas como tive o cartão de crédito clonado recentemente, cheguei a considerar a hipótese de o e-mail ser verdadeiro, talvez por ter lido a mensagem na tela pequena do blackberry.

Corri para um computador e logo percebi os “furos” no texto do e-mail, sem os detalhes normalmente enviados nas compras de passagem pela internet. Cheguei a ficar com raiva de mim mesma pelo sobressalto. Afinal, julgava-me “cobra criada”, pelo menos nesse departamento. Como a maioria das pessoas, já recebi e-mails falsos da “Receita Federal”, de supostos amigos enviando fotos ou flores online etc. Alguns dias antes tinha acompanhado a aporrinhação pela qual passou o pessoal do Comunique-se, maior portal de jornalistas, depois de ter sido vítima da prática chamada phishing.

Como aprendi no alerta enviado pelo portal, avisando que não era responsável pela falsa promoção disparada a todos os seus assinantes, a tal prática consiste na tentativa de adquirir informações como senhas e números de cartão ao se fazer passar por pessoa ou empresa confiável. Ando de butuca tão ligada que tinha identificado na mesma hora a fraude, porque o remetente era “@comuniquese”, tudo junto, e não “@comunique-se”, como o portal. No mesmo dia tinha recebido também um e-mail de uma amiga com um spam, enviado a todos os que estavam na sua lista. Dei uma olhadela, percebi que a pobre foi vítima de um vírus, e deixei pra lá.

Imagino que seja assim que a garotada esteja se virando. Desconfiando, eventualmente “caindo”, e, principalmente, deixando pra lá. O mundo real e verdadeiro acaba se impondo – e eles, os jovens, já têm essa inteligência. Nós, da era analógica, ainda ficamos sobressaltados, nos sentimos inseguros e invadidos. Temos ânsia de sair por aí “resolvendo”, processando ou coisa parecida.

Quando me avisaram que meu cartão de crédito havia sido clonado, eu queria porque queria participar das investigações. Que tipo de estabelecimento poderia ter feito a clonagem? Teria sido no posto de gasolina, como já me alertaram? Que lugares eu deveria evitar? O pessoal da Mastercard não me deu a menor bola. O problema era deles, que têm seu próprio departamento de investigação, e o custo dessas fraudes certamente está embutido na taxa de administração do cartão.

Ou seja, apesar de sermos caipiras cada vez mais espertos, nunca seremos o suficiente. Isso, porém, não deve ser motivo para maiores angústias, nem para querer voltar para a roça. Afinal, cidade grande é bão demais.

18 de Junho de 2008

O fim do “pagar para ter”

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 16:44

O CD (ou qualquer forma em que se paga para “ter” uma música) vai acabar? O livro vai acabar? O direito autoral vai acabar?

Tudo indica que, na forma massificada, essa é a tendência. Os futurologistas debruçam-se sobre o comportamento dos jovens e as peculiaridades da era digital, para encontrar as respostas mais precisas. É óbvio que ninguém vai deixar de ler ou ouvir música, muito pelo contrário.

Depois de me deliciar com uma palestra do escritor Moacyr Scliar, na qual ele comentou como a compulsão por ouvir e contar histórias é muito mais antiga do que os livros, fiquei pensando sobre a falta de análises históricas para esta transformação cultural que alarma tanta gente.

O fato é que, antes que fosse possível “armazenar” histórias e músicas em livros e CDs, essas duas artes já existiam. Eram produzidas de graça, sem direito autoral? Sim. Os autores encontravam motivação, e alguma remuneração, que viabilizasse a sua dedicação.

Talvez os mecenas do passado estejam sendo substituídos pelas empresas. Ah, mas elas vão querer interferir nas obras de arte, direcioná-las, torná-las comerciais. Verdade, mas não é diferente do que a Igreja fazia com os mestres da pintura de séculos atrás. Hoje, compreendemos o contexto e mesmo assim babamos com o retrato de uma obscura mulher, mera esposa do mecenas de uma época.

Trata-se de uma longa discussão, claro. O que seria a “arte pura”, não panfletária, imaculada de interesses econômicos, políticos, governamentais? O fato é que o artista sempre encontrou o caminho para a sua arte possível. E é isso que escritores e músicos provavelmente farão.

Estamos na era da experiência, já detectada com eficiência pelas empresas de consumo e suas marcas. As pessoas não pagam um centavo a mais por um produto que pareça comum a todos (commodity), mas despendem uma pequena fortuna por uma experimentação que considerem original e única.

Esse caminho já está sendo seguido pelos criadores/produtores de música. A garotada não aceita pagar para armazenar a música no seu Ipod, mas mete a mão na mesada para ver seus ídolos de perto, em um show que eles próprios registrarão, do seu jeito, no celular. O show é patrocinado por uma marca, que espalhará o nome da banda junto com o seu em produtos “exclusivos”, colecionáveis, ou seja lá qual for a tendência de consumo do momento.

Moacyr Scliar falou que não existem mais escritores escondidos por trás de pseudônimos. Com raras exceções (Rubem Fonseca e Dalton Trevisan), eles sequer podem se esconder: lançam livros em festivais, fazem palestras, participam de eventos e ganham dinheiro de patrocinadores por isso. Os livros tornaram-se objeto, agora são bonitos, funcionam como brinde e recordação da experiência de leitura (que estará disponível de graça na internet, como as músicas).

Voltando ao contexto histórico, talvez estejamos simplesmente retornando a um tempo em que a arte, patrocinada por mecenas lá com seus interesses, tinha seu ápice em um acontecimento social - como um concerto, um espetáculo teatral, um sarau. Aquele estágio em que pagávamos para “possuir” solitariamente coisas (ou ter a ilusão de possuí-las) ficou para trás. Hoje, emoção e conhecimento se guardam na mente, não na estante.

Essa reflexão tem sido importante para mim, porque tem tudo a ver com o trabalho do jornalista. A vida toda trabalhei em jornal diário, uma dessas mídias de futuro incerto (mais do que o livro). Muita gente, por exemplo, questiona o sentido de escrever textos em um blog e não ganhar um tostão de direito autoral por isso. Intuitivamente, acho que o caminho está sendo feito, enquanto é percorrido. Afinal, como os contadores de histórias de antigamente, eu queria muito escrever isso aqui. E você, que se interessou até o fim do texto, já deu sentido para esta jornada.

17 de Junho de 2008

Ponto sem nó

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:22

Estamos em ano eleitoral, portanto, desconfie. Desconfie de tudo, por mais bem intencionado que pareça à primeira vista: o belo projeto social iniciado na comunidade ao lado, a boa causa que virou abaixo-assinado na internet, o protesto em relação a um assunto que deixa todos indignados. Se aderir ou participar, você poderá estar sendo ingenuamente usado.

Não estou defendendo aqui a paralisia dos movimentos sociais até outubro. A oportunidade pode até ser interessante para você se identificar com um candidato, que esteja promovendo algum debate. O importante é tentar se informar sobre quem está por trás da causa, quais são seus reais interesses (eleitorais, por que não), e aí, sim, optar por apoiar ambos (o candidato e a causa).

Eu já coloquei o meu “detector de campanhas eleitorais” para funcionar. Na internet, elas estão pipocando na forma de e-mails, correntes etc. Lá estava uma, também, por trás de um projeto no morro da Providência… De que adianta nós, que somos informados até pela internet, criticarmos os pobres coitados semi-alfabetizados, usados como massa de manobra, e cairmos também, como patos? Quanto aos candidatos, um conselho: transparência, neste caso, é o melhor cartão de visitas.

15 de Junho de 2008

Eu sei o que você fez ontem à noite

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 20:10

- Senhora Marta? Aqui é da empresa do seu cartão de crédito e gostaríamos de confirmar uma compra no valor de R$ 2.800 esta manhã, no Ponto Frio.

- Não!

Assim começou o insólito diálogo no qual seria informada de que meu cartão fora clonado.

- E quanto a uma compra no valor de R$ 42, na Drogasmil, realizada ontem às 20h25?

- Não. Quer dizer, sim. Acho que sim. É que eu comprei um xampu muito, muito caro. Mas é um xampu a seco, que não estraga o cabelo, então é como se economizasse na hidratação, no secador…

Apesar de mulher, a atendente não estava interessada nas justificativas para a despesa que latejava em minha consciência. Por acaso saberia que a mulher brasileira gasta mais com os cabelos do que as européias? Não, ela não ia precisar deste tipo de informação. Estava interessada em outra compra, de R$ 26,50, em uma loja que não consegui identificar pelo nome.

- Ok, posso ter comprado alguma coisa ontem, porque almocei no shopping. Vamos combinar assim: se o valor for baixinho, devo ter sido eu. Mas R$ 2.800, não, pelo amor de deus.

Fiquei de checar meu extrato quando chegasse ao escritório. Deveria ficar tranqüila, porque o valor indevido seria estornado e a empresa enviaria novo cartão. Pus-me a pensar no quanto o tal sistema, utilizado para detectar gastos atípicos e clonagens, era íntimo de meus hábitos. Percebeu rapidamente que eu jamais gastaria uma dinheirama com eletrônicos. Mas não estranhou o absurdo que deixei no cabeleireiro semana passada.

Também, pudera: corte, luzes, hidratação. Esse sistema eletrônico devia ter uma alma feminina. Sabe que ando cismada com os cabelos, e que freqüento o mesmo salão há três anos. Não ia começar a piscar só porque uma mulher resolveu fazer terapia no salão de beleza em plena TPM, e acabou gastando o dobro do normal. Se bobear, inteligente que é, ele até mapeia o ciclo menstrual das clientes.

Exagero, pode ser. Mas li na semana passada que a Microsoft está trazendo para o Brasil uma tecnologia que permitirá às empresas endereçar um anúncio específico a um consumidor, por exemplo, que andou pesquisando em sites sobre TVs de plasma. A empresa poderá detectar a oportunidade e colocar na tela do potencial cliente uma oferta especial de TV, em 20 suaves prestações.

Teoricamente, este é um marketing inteligente, o contrário daquela mocinha que nos telefona às 9h de sábado para oferecer a assinatura da revista que detestamos. Mesmo assim, é um tanto desconfortável pensar que um sistema estará atento às nossas pesquisas na internet – da mesma forma como a empresa de cartão de crédito conhece o nosso restaurante preferido.

Onde isso pode parar? A julgar pela sensibilidade dos anunciantes no atual telemarketing, já imagino alguém que pesquisou sobre câncer recebendo anúncio de serviço funerário.

11 de Junho de 2008

O violino, a wikipédia e o dia dos namorados

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 17:18

Teatro Municipal, sábado, 11h da matina. Na saída do concerto a preços populares, o assunto era um incidente curioso: em plena da sexta sinfonia de Beethoven, uma corda do primeiro violino se rompera. Rapidamente, a violinista trocou seu instrumento com o músico de trás, que fez o mesmo com o, suponhamos, terceiro violinista, que por sua vez se livrou do pepino, digo, do violino, com o último músico na recém revelada hierarquia da orquestra.

O senhor com corpanzil de barítono que sentara à nossa frente, e não mexera um músculo durante a apresentação – sinal claro de sua familiaridade com o ritual -, logo pôs-se a dar explicações à sua companheira de platéia. Boa praça e à vontade, parecia mesmo saber tudo de música clássica.

Como o caminho da saída era longo, e o teatro estava lotado, fomos acompanhando o simpático casal e suas observações. Não lembro exatamente como, mas do violino eles pularam para a batuta do maestro. “Sabe como a batuta foi inventada?” Ele continuava a desfiar seus conhecimentos, com naturalidade e sem esnobismo, e cheguei a desejar que estivessem conosco no almoço.

Em alguns minutos aprendemos que um compositor francês chamado Jean-Baptiste Lully decidiu se livrar do bastão, que naquele tempo era socado no assoalho para marcar os tempos, depois de atingir acidentalmente o próprio pé. Era o século XVII, o bastão foi trocado por uma vareta curta, mas mesmo assim Lully morreu pouco depois com gangrena no pé.

Claro que eu não teria condições de contar essa história, devidamente checada e corretamente grafada, sem a internet. Confesso que por mim teria colocado no rol das cascatas curiosas e dos personagens pitorescos, e nem lembraria do nome do suposto compositor. Mas o Zé tratou de apurar tudo logo que chegou em casa. Desconfio que ficou com uma ponta de inveja da cultura musical do sujeito, afinal confirmada. Bem, nada que uma wikipedia não resolva.

Da minha parte, ficaram duas constatações. Primeira: o acesso ao conhecimento sempre fará a internet valer a pena (apesar de meus recentes vacilos a respeito). Segunda: uma mulher não precisa encarar um barítono para ter um homem culto ao seu lado. Basta que ele saiba pesquisar na internet e seja curioso (além de carinhoso, inteligente e convidá-la para concertos no Municipal).

Depois dessa, fica combinado que este é também o meu post de dia dos namorados, antecipado. Bom chamego amanhã!

9 de Junho de 2008

Diversão requentada

Arquivado sob: Femininas, Diversão e arte — Marta @ 16:18

Não imaginava que a série Sex and the City fosse tão levada a sério. Claro que já me diverti com alguns episódios, que provavelmente vi pela primeira vez na enésima reprise, mas não percebia ali a pretensão de resumir Nova York, muito menos a mulher contemporânea.

Já que fãs ou marketeiros convenceram a imprensa do fenômeno, vamos lá: NY não é a “cidade do amor e das grifes”!!! Não sou exatamente a maior conhecedora do lugar (para chegar perto disso, existe o blog Só em Nova York, de Tania Menai), mas se tivesse que listar características marcantes de lá começaria com diversidade, modernidade, cultura… Incluiria, sim, o luxo e o consumo, mas colocaria o amor lá no finzinho.

Quanto à mulher moderna, céus!!! Quem suportaria conviver com aquelas peruas mais do que a meia hora diária da televisão? Está bem, o filme passa de duas horas e deve ser pura diversão. Mas presta-se a teses sociológicas tanto quanto um Indiana Jones ou qualquer outro blockbuster americano. Além do mais, esse oba-oba tem ar de assunto requentado, porque as personagens deixaram de ser novidade há alguns bons anos.

6 de Junho de 2008

Um bom fim de semana

Arquivado sob: Rio — Marta @ 14:45

Que tolos, os turistas que entulham o Rio no verão. Hoje, contagiada por esse azul absurdo do céu, posso assegurar: a melhor estação para curtir a cidade é o outono. Verdade que não há musa do outono, carnaval, nem modismos na praia. Que bom. Vai embora, com o verão, aquele clima de urgência, de aproveite-agora-antes-que-acabe, e só então o carioca se dá conta de ter todo o tempo do mundo para se deliciar com um Rio menos frenético e mais lindo do que nunca.

Ok, os traficantes foram trocados por milícias que torturam, os políticos locais parecem ter vindo da pré-civilização de tão broncos e corruptos, e a pobreza da cidade continua mal disfarçada para olhos menos acostumados.

Mas não dá para ficar ranzinza diante de um contraste de cores como o de hoje. Azuis, verdes e daqui a pouco chegarão os tons róseos para quem for brindado com um horizonte ao entardecer. E a temperatura? Ah, a temperatura… Agora está tépido, uso até um vestido, mas à noite deve refrescar. Ou não. O tempo pode nos surpreender com um veranico, nos próximos dias. Mesmo assim estaremos alertas diante de qualquer oportunidade, para tomar um vinho ou usar um cachecol.

Quer mais? Temos Caetano com um show experimental às quartas-feiras, um grande festival de Beethoven com ingressos a R$ 5 e meia dúzia de livrarias com o charme da estação. Então pare de reclamar, lembre-se que é sexta-feira, agradeça aos céus límpidos e seja feliz, casado ou solteiro, no Rio de Janeiro!

3 de Junho de 2008

Para crianças e adultos

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 10:12

Programa imperdível é conhecer o novo teatro Casa Grande e assistir à espetacular encenação de “A noviça rebelde”. A produção, caprichadíssima, deixa crianças e adultos de boca aberta. Na minha frente, uma fila de senhorinhas não podia estar mais feliz.

Claro, a peça é igualzinha ao filme - e com ótimas versões das músicas em português. Adultos ficam com olhos marejados. Com cenários deslumbrantes, atores-cantores de primeira e teatro tinindo de moderno e confortável, o preço salgado do ingresso se justifica.

E olha que nem sou muito de musicais…

Gente estranha

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 08:20

Não é à toa que a maioria dos blogs e blogueiros vem da área de tecnologia. Primeiro foram os spams. Agora esse pessoal de orkut. Para resolver o problema de spam, que entupia a minha caixa postal, tive que instalar um anti-spam – algo meio óbvio, mas que não era automático no meu blog. Para lidar com esse pessoal de orkut…

Sei lá como se lida com essas pessoas. A norma por lá é ter perfil falso, e-mail falso, tudo falso. Pelo que aprendi agora, podem também usar o perfil, real, de uma pessoa. Não adianta tentar encontrar a lógica disso. De vez em quando colunistas famosos, como Arnaldo Jabor e Martha Medeiros, desabafam sobre a impossibilidade de evitar que seus nomes sejam usados na internet.

O que leva uma pessoa a ter o trabalho de escrever um texto – às vezes nem tão ruim – e divulgá-lo na rede com o nome do Jabor ou do Veríssimo? Vá entender. A fama deve ter algum sabor mesmo no anonimato. Fama no anonimato? Caramba, esse pessoal de orkut está me enlouquecendo…

2 de Junho de 2008

Internet do mal

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:43

Fui alertada de que alguém tenta se passar por mim em uma comunidade do orkut. Sempre que essa internet do mal vem à tona, meu entusiasmo pela rede fica abalado. Tomara que os mocinhos vençam, como pensamos acontecer no mundo real…

1 de Junho de 2008

Mocinha de Ipanema

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 21:56

Lembro-me da primeira vez em que observei uma dessas mocinhas. Provavelmente por conta da maleta arrastada por rodinhas, esquecida por atrás do corpo apressado, como se não lhe pertencesse, ela parecia com as aeromoças que costumava ver perto do aeroporto de Congonhas, quando eu morava em São Paulo.

Aquelas, as mocinhas paulistanas, eram muito pintadas, tinham o ar sisudo bem treinado e a óbvia identificação do uniforme. Desciam de um ônibus urbano e atravessavam a turbulenta avenida Rubem Berta para embarcar em jatos comerciais como se tivessem saído, fresquinhas, de um comercial de companhia aérea.

Talvez por isso tenha ficado encasquetada com a mocinha de Ipanema. Jovem, também, e igualmente decidida, manobrava com a mesma agilidade a maleta de rodinhas. Não usava uniforme - embora hoje eu perceba um padrão entre ela e suas congêneres. E exibia a mesma leve expressão cansada e entediada, disfarçada pelo viço que faz brilhar rostos de vinte e poucos anos.

No agito das grandes cidades, mulheres de vinte e poucos anos aprendem a fingir determinação, porque intuem as batalhas por vir. Mesmo assim, estão repletas de sonhos. De ganhar dinheiro, uma promoção e, por que não, encontrar o príncipe encantado. A vida de cada uma delas daria uma novela, como confidenciam entre si. Uma teve a infância difícil, a outra, um aborto. Mas estão ali, seguindo em linha reta, ignorando rodinhas que sobem e descem calçadas esburacadas.

O que haveria nas maletas? Na das aeromoças, podia imaginar meia dúzia de peças de roupas exatas, uma nécessaire e nem um alfinete desnecessário - daí serem tão compactas. Mas e a das mocinhas de Ipanema?

Demorei a perceber que escondiam remédios. Amostras grátis de laboratórios. Só me convenci quando vi uma delas, mais gordinha, saindo de um consultório pediátrico no prédio em que trabalho. Então era isso. Fim do mistério das mocinhas de Ipanema. Ah, o nome de sua profissão é propagandista, nada tão glamouroso como aeromoça…

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