O CD (ou qualquer forma em que se paga para “ter” uma música) vai acabar? O livro vai acabar? O direito autoral vai acabar?
Tudo indica que, na forma massificada, essa é a tendência. Os futurologistas debruçam-se sobre o comportamento dos jovens e as peculiaridades da era digital, para encontrar as respostas mais precisas. É óbvio que ninguém vai deixar de ler ou ouvir música, muito pelo contrário.
Depois de me deliciar com uma palestra do escritor Moacyr Scliar, na qual ele comentou como a compulsão por ouvir e contar histórias é muito mais antiga do que os livros, fiquei pensando sobre a falta de análises históricas para esta transformação cultural que alarma tanta gente.
O fato é que, antes que fosse possível “armazenar” histórias e músicas em livros e CDs, essas duas artes já existiam. Eram produzidas de graça, sem direito autoral? Sim. Os autores encontravam motivação, e alguma remuneração, que viabilizasse a sua dedicação.
Talvez os mecenas do passado estejam sendo substituídos pelas empresas. Ah, mas elas vão querer interferir nas obras de arte, direcioná-las, torná-las comerciais. Verdade, mas não é diferente do que a Igreja fazia com os mestres da pintura de séculos atrás. Hoje, compreendemos o contexto e mesmo assim babamos com o retrato de uma obscura mulher, mera esposa do mecenas de uma época.
Trata-se de uma longa discussão, claro. O que seria a “arte pura”, não panfletária, imaculada de interesses econômicos, políticos, governamentais? O fato é que o artista sempre encontrou o caminho para a sua arte possível. E é isso que escritores e músicos provavelmente farão.
Estamos na era da experiência, já detectada com eficiência pelas empresas de consumo e suas marcas. As pessoas não pagam um centavo a mais por um produto que pareça comum a todos (commodity), mas despendem uma pequena fortuna por uma experimentação que considerem original e única.
Esse caminho já está sendo seguido pelos criadores/produtores de música. A garotada não aceita pagar para armazenar a música no seu Ipod, mas mete a mão na mesada para ver seus ídolos de perto, em um show que eles próprios registrarão, do seu jeito, no celular. O show é patrocinado por uma marca, que espalhará o nome da banda junto com o seu em produtos “exclusivos”, colecionáveis, ou seja lá qual for a tendência de consumo do momento.
Moacyr Scliar falou que não existem mais escritores escondidos por trás de pseudônimos. Com raras exceções (Rubem Fonseca e Dalton Trevisan), eles sequer podem se esconder: lançam livros em festivais, fazem palestras, participam de eventos e ganham dinheiro de patrocinadores por isso. Os livros tornaram-se objeto, agora são bonitos, funcionam como brinde e recordação da experiência de leitura (que estará disponível de graça na internet, como as músicas).
Voltando ao contexto histórico, talvez estejamos simplesmente retornando a um tempo em que a arte, patrocinada por mecenas lá com seus interesses, tinha seu ápice em um acontecimento social - como um concerto, um espetáculo teatral, um sarau. Aquele estágio em que pagávamos para “possuir” solitariamente coisas (ou ter a ilusão de possuí-las) ficou para trás. Hoje, emoção e conhecimento se guardam na mente, não na estante.
Essa reflexão tem sido importante para mim, porque tem tudo a ver com o trabalho do jornalista. A vida toda trabalhei em jornal diário, uma dessas mídias de futuro incerto (mais do que o livro). Muita gente, por exemplo, questiona o sentido de escrever textos em um blog e não ganhar um tostão de direito autoral por isso. Intuitivamente, acho que o caminho está sendo feito, enquanto é percorrido. Afinal, como os contadores de histórias de antigamente, eu queria muito escrever isso aqui. E você, que se interessou até o fim do texto, já deu sentido para esta jornada.