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“Eu não me posiciono como vítima. A ditadura encheu bastante o meu saco, mas também enchi o saco deles. Nada foi de graça. É claro que pensando hoje eu posso considerar uma injustiça. Porque era uma situação injusta para todos nós, para os artistas, para o Brasil.”

A declaração é de Chico Buarque. Gravada em 2003, está na série de DVDs lançados pelo compositor, e clareou minhas idéias sobre a polêmica em torno das indenizações auferidas pela Justiça a jornalistas que se consideraram prejudicados pela ditadura militar.

Eles foram prejudicados? Certamente. Muitos foram, o Brasil foi. Usar de esperteza e de recursos para obter uma indenização individual dos cofres públicos não parece condizente com o movimento de luta contra a ditadura, que uniu essas pessoas no passado em favor de um ideal coletivo.

Especialmente no caso de pessoas bem sucedidas - como Ziraldo, Jaguar e Cony -, a reparação parecia ter vindo naturalmente, na forma de reconhecimento público às suas ações e seus talentos. Agora fica a dúvida: essas pessoas acharam que não valeu a pena?

Chico, pelo visto, acha que valeu. Quem quiser conferir (ótima desculpa para revê-lo), o depoimento está no início do DVD “Vai Passar”. Entre outras coisas, ele conta que foi preso, precisou se exilar na Itália, mas se arriscou a voltar porque não conseguia sustentar mulher e filha cantando “Mamãe eu quero” nas boates de Roma.