“Vinte e cinco anos sem férias. Ninguém agüenta. Pelo visto, não vai dar para esperar ganhar na Mega-Sena. Qualquer dia desses o estresse desse táxi me mata. Ou então, mato alguém. Agora há pouco me deu vontade de virar para trás e dar uns sopapos na madame. Ela disse “Rainha Elizabeth, na esquina da praia.” Eu toquei para Copacabana. Trânsito de merda, quase meu retrovisor vai embora de novo. Quando cheguei lá, a madame diz que falou Ipanema, “esquina da Vieira Souto”. Disse nada. Pior é que argumentei que a Rainha Elizabeth mudava de nome naquele pedaço, e acabei ficando com cara de tacho. Depois ficou esperando troco para R$ 10, a vagabunda, como se eu tivesse que descontar uma voltinha à toa.
As mulheres adoram fazer essa cara de “não disse?”. Que nem a outra, quando teve a pachorra de aparecer na minha casa com o namorado suíço. O sujeito não entendia nada de português, então ela apontou para mim e falou “mai dédi”. Disse que eu era o pai dela, tentando me humilhar. Mas estou me lixando. Já estava de saco cheio mesmo, não via a hora de ela chispar da minha casa. Não aturava aquela implicância com a minha cerveja, a minha barriga, as minhas cuecas.
Sempre choveu na minha horta, escolho a mulher que quiser. Fui deixando ela ficar, nem sei porquê. Era jeitosinha, chamava a atenção quando ria alto, jogava o cabelo pra trás. Os meus amigos me davam tapinha nas costas, quando viam a menina novinha que eu tinha arrumado. Sem pai nem mãe, ela percebia que tinha tirado a sorte grande, de estar com um sujeito assim, boa pinta, com casa própria e tudo. Era carinhosa, fazia o jantar, eu até ajudei a pagar o curso de esteticista.
Nem acreditei quando bateu na porta, tanto tempo depois, para exibir o gringo. Só porque na última briga eu disse que ela devia casar com um suíço e morar no estrangeiro. Mostrou o passaporte, a passagem, disse que veio se despedir. O branquelo sorria, com aquela cara de quem vai ser depenado na primeira esquina de Copacabana.
Nem liguei. Consigo meia dúzia de meninas bem feitinhas como ela, na hora que quiser. Só que não tenho mais paciência. Aliás, não tenho mais paciência com nada: com as lesmas do trânsito, com o português muquirana que parou de vender fiado, com os políticos de merda do nosso país, com a burrice dos passageiros que não sabem onde querem ir.
Tô é muito estressado. Quando formar meu filho, juro que tiro férias. O garoto já está na faculdade. Diz que quer ser artista, então não sei por que estou virando a noite na praça para pagar faculdade. Mas o garoto é inteligente, então vai acabar encontrando o seu caminho, e pelo menos vai ter diploma na mão. Aí vou tirar férias, mesmo se não ganhar na Mega-Sena.”