Lembro-me bem do último dia em que vi novela. A adolescente Mel, interpretada pela atriz Débora Falabella (até hoje com carinha de anjo), gritava ensandecida, debatia-se, enquanto era obrigada a entrar em uma ambulância.
Foi então que raparei na expressão de terror da minha filha, prestes a completar 3 anos. Grudada em mim depois que eu chegava do trabalho, ela punha-se sempre a brincar por perto. Não ligava para a TV, exceto quando a angelical Mel aparecia na telinha.
“Mamãe, o que está acontecendo?”
Percebi que, dali para frente, não poderia apenas dizer que era tudo de mentirinha. Teria que explicar, por exemplo, uma crise de abstinência de drogas, para uma criança de 3 anos. E sabe-se lá o que apareceria adiante, no vale-tudo por audiência. Decidi não ver novela no dia seguinte. E nunca mais vi.
Passaram-se seis anos e o efeito da “desintoxicação” das novelas, para mim, foi revelador. Às vezes tento ver um pedaço de capítulo, saber ao menos que atores estão no horário nobre, mas não consigo. Nossa, como aquilo é ruim. Diálogos, personagens, enredo, tudo. A sensação é semelhante à que eu sentia quando, do alto da minha posição de expectadora do “padrão Globo de qualidade”, deparava-me com uma novela mexicana no SBT. Ah, como a empregada conseguia ver “aquilo”? Acho que este tipo de repulsa tende a se repetir em relação à TV aberta, depois que nos acostumamos aos canais por assinatura.
Mas antes que me julguem pedante, preciso fazer um parênteses: entendo perfeitamente o sentimento de quem se acostumou a ver sua novelinha das oito. No fim de um dia cheio, chegamos em casa cansados, ligamos a televisão e imediatamente somos invadidos pelo conforto de uma trama já conhecida, despretensiosa, que eventualmente nos oferece momentos divertidos. No pacote, nem reparamos nas apelações, nas péssimas atuações, nos anúncios de supermercado, nas chamadas do Big Brother.
Temos até justificativas intelectuais para o ritual da novela. Trata-se do grande produto cultural de massas brasileiro, que une um país de dimensões continentais. Nossas novelas são exportadas, consideradas as melhores do mundo, e têm a participação de grandes atores nacionais, até da Fernanda Montenegro. E por aí vai.
Mas creia: não é nada disso. Apenas somos habituados, culturalmente, a um entretenimento de baixíssimo nível. Em alguns países, crianças e adultos são naturalmente estimulados a ler livros, e podemos vê-los nos parques, nos transportes públicos. Aqui, desde sempre fomos compelidos a ver novelas. E novelas são muito ruins, simplesmente não valem o tempo gasto com elas.
Veja bem, você não precisa ler Shakespeare no original ao invés de ver novelas. Simplesmente mude de canal, ou tente desligar a TV. Jantar batendo papo, ouvir música, quem sabe ler um bom blog no computador… No início, “perder a novelinha” poderá parecer um sacrifício. Mas você precisa apenas se distanciar um pouco, se libertar do vício, para perceber o ganho de qualidade na sua vida.
Precisamos ter a consciência de que os hábitos culturais do nosso país nos nivelam por baixo. Eu e você somos, sim, uma elite, temos acesso e formação para consumir produtos culturais de melhor qualidade, mais interessantes e estimulantes. Não é fácil mudar, porque precisamos sair do automático - mas temos a segmentação cultural, fruto das novas tecnologias, a nosso favor.
Aqui, na verdade, já não me refiro apenas a novelas. Uma pesquisa encomendada pela Fecomércio-RJ ao instituto Ipsos (no clipping, “Choque cultural”) revelou que 55% dos brasileiros não tinham participado de sequer uma atividade cultural no ano passado, como ler um livro, ver uma exposição, um show de música, um espetáculo teatral ou mesmo ir ao cinema. Apenas 31% dos brasileiros leram um livro. Se você acha que o problema é o preço, está muito enganado. A falta de hábito foi o principal motivo apresentado tanto pelas classes A e B (58%) quanto pelas D e E (59%). Nestas classes mais baixas, apenas 5% alegaram não poder pagar por um livro.
Outro dia, neste blog, demonstrei minha indignação diante de uma pesquisa que indicava um baixíssimo índice de leitura entre os universitários. Agora, imagino que o desinteresse desses jovens apenas reflete a falta de hábitos culturais de suas famílias – que têm poder aquisitivo, bom nível de escolaridade e televisores ligados noite e dia.
A elite brasileira é tão peculiar que só vai a exposições e museus quando viaja para o exterior. O mote já foi inclusive alvo de uma propaganda do Museu Casa do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes, bairro afastado do Rio. Era qualquer coisa como: “Você só vai a museus quando viaja? Então viaje até o Recreio!”
Ok, reconheço que ainda não visitei esse museu. Mas pelo menos parei de ver novela, faustão, fantástico e tudo mais que venha embalado junto com dança do créu, big brother e outras pobrezas que acreditamos ser a nossa cultura popular.
O fato de tudo isso ter começado com o intuito de proteger a minha filha, ainda bebê, agora parece simbólico. Afinal, ela fará parte da elite brasileira de amanhã. Uma elite, espero, com hábitos culturais melhores que os nossos.