30 de Abril de 2008

Gerenciamento de crise na Nike

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 09:46

Bastou eu comentar sobre o risco de se apostar na imagem de uma celebridade (Marcas da vida real, logo abaixo), para o jogador Ronaldo ser flagrado com travestis em um motel de segunda. Lembrou aquele episódio do boquete do ator Hugh Grant. O sujeito pode levar a loiraça do momento para a sua mansão, mas é atraído pela transgressão do sexo pago. Pelo visto, ser bom moço (e bom garoto-propaganda) cansa…

Torcida contra

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 09:06

Existem dois tipos de pessoas: aquelas que dividem as pessoas em dois tipos e as outras. A tirada, se não me engano, é do Luiz Fernando Veríssimo, e me ocorreu hoje quando li uma defesa do Brasil feita por Caetano Veloso (por sinal, outro ótimo em tiradas).

Caetano está no time dos que defendem o Brasil. Sempre. Do outro lado estão aquelas pessoas ressentidas da chamada classe média, que adoram falar mal do país. Nos últimos tempos, isso fica até esquisito, já que o povão está feliz da vida com sua ascensão econômica. Parece dor de cotovelo.

Veja bem que não estou falando aqui de patriotismo ou política, mas de (re) sentimentos. É possível, por exemplo, ser crítico em relação ao governo, estar reticente em relação a suas políticas assistencialistas, mas não dá para ficar contra o fato de pobres estarem comendo mais e melhor.

Para Caetano, ser do contra é típico de quem não quer se sentir responsável: “Gostaria que, em vez de desvalorizar para se eximir, que é o que a maioria se acostumou a fazer, as pessoas se habituassem a valorizar o Brasil, porque isso dá mais responsabilidade.” (O Globo de hoje)

28 de Abril de 2008

Marcas do mundo real

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:12

Soube que o supertécnico Bernardinho e a jogadora Fernanda Venturini se separaram. Longe de mim querer, nessa altura do campeonato, entrar no time dos fofoqueiros de celebridades. Mas foi impossível não lembrar das ótimas cenas da família “jogando vôlei” com os produtos da Unilever. Comercial, imagino eu, que será arquivado precocemente - se a minha fonte estiver correta.

No fabuloso e perfeito mundo das marcas, não há lugar para divórcios, dissabores, contratempos. O problema é que a vida real às vezes atropela este mundo imaculado, insiste em nos lembrar que valores como harmonia familiar não são adquiridos com um pote de margarina. Aí, babau: fim daquela história de que as marcas vão substituir os valores na aspiração da garotada.

Sei que as empresas avaliam um bocado seus riscos quando escolhem um garoto-propaganda conhecido. Volta e meia uma marca se dá mal: o ator é pego com drogas, o cantor espanca um fotógrafo, o jogador cai em desgraça no início de um contrato. Mesmo assim, parece, a associação a celebridades vale a pena.

Melhor para a sanidade dos telespectadores/consumidores, que podem se identificar com seus ídolos e depois perceber que são … humanos! Para as marcas, imagino, os danos não são tão grandes. Sempre estaremos prontos a embarcar em novas fantasias - cientes de que são apenas fantasias.

25 de Abril de 2008

Fatos e versões

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:46

O papo era aquele básico, sobre violência. Uma das mulheres descrevia a última vez em que fora assaltada, quando a outra retrucou que com ela foi parecidíssimo. Todas falavam ao mesmo tempo (como sempre ocorre no universo feminino), até que uma delas conseguiu atrair todas as atenções. Já havia sido seqüestrada.

Era uma quadrilha, chefiada por uma aeromoça da Varig (?). Sabiam tudo sobre a sua vida. Empurraram-na para dentro de um carro e saíram rodando. Queriam que o noivo pagasse o resgate. Ela explicou que estava brigada com o noivo. E estava mesmo, não era mentira.

A história parecia um tanto fantástica. Resolvi participar.

- Não foi um seqüestro-relâmpago, como é comum no Rio?

- Ah, não. Foi seqüestro mesmo - ela garantiu.

- Você ficou quanto tempo como refém?

- Umas nove, dez horas.

A sorte foi que, quando chegaram em frente ao prédio do noivo, ela conseguiu sair do carro e correr para a portaria. Os bandidos foram atrás, ficaram espancando o vidro, enquanto o porteiro ligava para a polícia. A sua narrativa, porém, ia falhando, ficando menos convicta.

- Isso foi quanto tempo atrás? – perguntei.

- Há uns seis, sete anos – respondeu.

Ela não tinha idade para estar noiva sete anos atrás. Devia ter uns 50.

A polícia acabou prendendo todo mundo. Ela até que não ficou tão traumatizada. Hoje em dia a violência está tão comum… Todas concordaram, cenhos franzidos.

Depois fiquei imaginando quantas vezes ela já havia contado a sua aventura. Digamos que faça as unhas toda semana e pelo menos uma vez por mês lance mão do papo do seqüestro, para obter todos os olhares no salão. Teríamos 12 versões por ano, fora aquelas contadas na época em que o fato era novidade. Ou seja, mais de cem vezes a mesma (?) história.

Quando relatamos uma vivência repetidamente, a lembrança se esvai. Ficam as versões, moldadas pelas emoções provocadas em cada ouvinte. Quanto à verdade… ah, que importa a verdade?

24 de Abril de 2008

Psiu o quê?

Arquivado sob: Diversão e arte, Comportamento — Marta @ 12:32

Há algum tempo venho tentando mudar minha postura no cinema. Como percebi que os mal-educados se lixavam para os meus “psius”, enquanto euzinha acabava transtornada com a situação, resolvi ficar zen. Respiro fundo, dou uma olhada para checar se a dupla vai tagarelar a sessão inteira, e tento mudar de lugar. Antes a primeira fila, com pescoço doendo, do que ficar irritada e distraída durante o filme.

A estratégia, porém, foi para as cucuias no feriado. Nos primeiros minutos do filme (”Estômago”, excelente, apesar de tudo), eu mal podia acreditar no que estava acontecendo. Numa platéia formada basicamente por casais, simplemente TODOS comentavam cada cena do filme. Como se estivessem em suas salas de estar. Era impossível ouvir os diálogos sem acompanhar simultaneamente o ponto de vista de pelo menos três pessoas próximas - fora os cochichos mais distantes.

Não havia como soltar um “psiu” ali. Era capaz de me olharem com espanto, de tão à vontade que estavam. Saí do cinema, em um shopping na Barra da Tijuca, tentada a buscar uma explicação no balaio de preconceitos comumente reservado aos moradores do bairro. Ah, na zona sul não aconteceria, pensei alto. Será que não?

Talvez seja hora de se render. Jogar a toalha. Os tempos são outros, o ritual do cinema mudou. Aliás, nao é mais ritual. Comentando o fato com uma amiga recém chegada de Portugal, ela me garantiu que lá está pior, as pessoas falam no “telemóvel” sem pudor, no meio da sessão.

Com sempre resta uma esperança, vou ficar atenta às platéias que freqüentam cada sala de cinema no Rio. Quem sabe descubro algumas mais educadas que outras.

Entre o luto e a fama

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:43

O fato é que crianças pequenas são espancadas por mães, pais, padastros, madrastas. Acontece com mais freqüência do que imaginamos. Eventualmente, algumas morrem. A natureza, infelizmente, não criou um mecanismo para impedir que crianças fossem geradas por pessoas incapazes de exercer a maternidade ou a paternidade.

Quando uma dessas crianças é jogada do sexto andar de um prédio de classe média, o assunto nos comove profundamente. De repente, o espetáculo substitui o luto. Quando as entrevistas cessarem, o livro (haverá um) sair da lista dos mais vendidos e o julgamento tiver se tornado documentário, quem sentirá falta de Isabella? A mãe afinal poderá vivenciar seu luto ou se ressentirá de não ser mais reconhecida nas ruas?

(Parênteses: não, a culpa não é da “mídia”. Existem programas sensacionalistas assim como há telespectadores sensacionalistas, e as pessoas reduzem a velocidade para ver o cadáver dentro do carro estraçalhado.)

Para mim, fica a certeza de que a doce Isabella simplesmente não deveria ter sido gerada. É verdade que, com sorte, ela poderia ter sobrevivido à imbecilidade do pai e à inexperiência da mãe, ter superado seus traumas e se tornado uma adulta feliz. Mas a tarefa não é fácil para uma menininha, não é mesmo?

22 de Abril de 2008

Onde não está Júlia?

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 14:37

Não sei se já existem estudos sobre o “efeito manada” na escolha dos nomes dos bebês. Se não, alguém deveria fazê-lo. Se você encontrar uma garotinha na zona sul do Rio, eu chutaria que a chance de ela se chamar Júlia, Isabela, Sofia ou Maria Eduarda é de uns 90%.

O “fenômeno Júlia” mereceria um capítulo inteiro do estudo. Na colônia de férias que minha filha freqüentou, no início do ano, havia oito Júlias. Ok, há variações. Entre elas sempre é possível encontrar alguma Giulia (imagino que assim, italianadas, elas sejam mais freqüentes em São Paulo).

O mais curioso é que os pais, na hora de batizar os pimpolhos, acreditam sinceramente que suas escolhas seguem um gosto estritamente pessoal…

17 de Abril de 2008

Já caiu a ficha?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:26

Você se lembra de quando a AOL comprou a Time Warner? Para ajudar, o que você andava fazendo no comecinho do ano 2000?

Como é sabido, aquele negócio não deu em nada. Mas, na ocasião, a bomba me pareceu um divisor de águas. Eu estava meio “no ar”, de licença maternidade, li os jornais e pensei: terei que mudar de área quando voltar a trabalhar. Eu cobria varejo, para a Gazeta Mercantil, e juro que pensei que o comércio iria acabar - só restaria o e-commerce, tamanho o impacto que a internet teria na vida das pessoas.

A história não foi bem essa, mas o fato é que hoje o Google é uma empresa muito mais importante do que a Wal-Mart. E ninguém precisa lembrar aqui a revolução que a internet está fazendo no mundo.

Lembrei disso hoje, quando estava lendo os jornais e a ficha caiu: os Estados Unidos já eram. Sou uma exagerada, claro. Erro todas as minhas previsões. Mas, reparem só: enquanto o dólar cai para R$ 1,66, o noticiário econômico cobre detalhadamente a evolução do PIB e da inflação na China.

Convém ficar esperto a respeito, não?

16 de Abril de 2008

Sobre Isabella

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 16:52

Eu não queria falar de Isabella, não antes de tudo terminar. Como o resto do país, anseio por um desfecho para a sua história, já escrita como tragédia. Como o resto do mundo, espero também um ponto final para o drama da inglesinha Madeleine.

Aguardamos pela Verdade, com letra maiúscula, como se na vida real fóssemos sempre brindados com uma explicação para tudo. Precisamos saber quem são os maus e os bons, para não enlouquecer.

Aparentemente, tudo já foi debatido à exaustão – a comoção que o caso despertou na população, as implicações psicológicas, os excessos da polícia e da imprensa, a perplexidade diante da crueldade humana.

Como no caso do menino João Hélio, tento não ficar tão exposta ao noticiário, lembrar que sem ele teríamos – pelo menos estatisticamente – uma distância maior de tragédias assim. Dizem que alguns acompanham as notícias como se tratasse de ficção, uma minissérie na TV – uma outra forma de se proteger, não enlouquecer, imagino eu.

Mas a realidade tende a se impor. Não teremos resposta para tudo, e precisamos nos conformar com isso. Na vida, é assim. Não havia uma câmera escondida enquanto Isabella era agredida e lançada pela janela. Mesmo se houvesse, nunca entenderíamos o porquê. Teremos que dormir com isso.

15 de Abril de 2008

Audiência

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 16:59

Ando intrigada. O número de visitantes diários do Espuminha mais que triplicou no último mês. Será que meus 32 amigos andaram divulgando o blog por aí? Valeu, pessoal.

14 de Abril de 2008

A reinvenção dos 40

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 19:46

O que você vai ser quando crescer? É a pergunta que fazemos insistentemente a crianças e adolescentes. A escolha tem ares de única e definitiva. Estuda-se, escolhe-se uma carreira e aposenta-se nela, certo? Errado.

Ninguém fala da necessidade da virada, aos 40 e poucos anos. É uma época difícil, porque estamos preocupados em viabilizar a tal aposentadoria, financeiramente falando. Mas o fato é que, exceto em algumas poucas profissões ou empregos, não dá para fazer, depois dos 50, exatamente o que se fazia aos 20 ou 30. Você não tem mais saco, a empresa não tem interesse, a fila está andando…

Além da questão financeira, outro complicador surge nesta fase: só conseguimos olhar para trás - para o mundo conhecido, já vivido, que nos dá uma falsa sensação de estabilidade. Ignoramos o exemplo de pessoas mais velhas que continuam trabalhando e se realizando, sequer conseguimos enxergar o quanto alguns são bem sucedidos - nem sempre sob holofotes -, porque ainda temos os parâmetros do “sucesso” que só existe no “mundo antigo”.

Como acontece com o adolescente na hora do vestibular, para encarar esta segunda etapa profissional é importante não estar assombrado pelo fantasma da sobrevivência financeira. É preciso esquecer o “se eu ganhasse na loteria”, para admitir que trabalhar é bom, que queremos continuar trabalhando até ficarmos bem velhinhos, de preferência com mais prazer e liberdade do que antes.

Para o trabalho na maturidade há os cargos de chefia, as especializações, o empreendedorismo. Em qualquer um dos casos, é preciso batalhar para chegar lá. Há possibilidades de mudanças mais radicais, novas carreiras, mercados de trabalho menos óbvios. Pode-se também ensinar o que já se sabe - dando aulas, consultorias, assessorias.

Mas raramente essas oportunidades nos cutucam, na forma de uma proposta irrecusável de trabalho. É preciso apostar, começar novamente, ganhar menos para depois ganhar mais, voltar a estudar, correr atrás, avisar aos outros que queremos mudar, informar quais são nossas áreas de interesse, arriscar, mudar novamente se não der certo…

Na vida pessoal, os 40 também podem ser tempos de ousadias. Novamente, o segredo é não ficar focado no passado, na juventude “perdida”, numa comparação descabida e que sempre vai parecer desvantajosa. Em vez de olhar os atributos físicos dos mais jovens, por que não invejar a segurança e a competência de pessoas mais velhas?

Pessoalmente, comecei a catar esses exemplos, para me inspirar. É muito bom admirar alguém mais velho, em vez de ficar invejando o “sucesso” dos mais novos. Adoro ler um texto de um veterano e pensar: como o sujeito é bom. Gostaria de ter escrito isso, quero um dia escrever assim. Ver uma cinquentona cheia de estilo, e pensar: viu como dá para envelhecer com charme, em vez de ficar patética e “embotocada”?

Olhando para todas as possibilidades, sem preconceitos, dá para se sentir livre como um adolescente. O que quero ser agora, que já cresci?

11 de Abril de 2008

Qual crise?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:23

Era um bate-papo com uma amiga de colégio, que eu não via há tempos. Põe tempos nisso. Marcado e remarcado, nosso chopinho finalmente acontecia.

Mil assuntos em comum, lembranças da adolescência, uma delícia perceber que a intimidade não se perdera. Quando a conversa começou a se alargar, e o contexto já era a atualidade, ela soltou algo como “…porque essa crise de agora…” e continuou com uma frase que não fazia sentido.

- Peraí - interrompi - Qual crise?

Ela me olhou com espanto.

- A crise ambiental!

Eu raciocinava como se fosse a crise financeira dos Estados Unidos. Ou seja, apesar de termos tanto em comum, nossa vida cotidiana é pautada por uma crise - “a crise” - completamente diferente.

Minha amiga é bióloga. Seu marido também. Eu, por mais que tanta coisa me interesse (mas nada tanto assim, como diria Paula Toller), acabo imersa em assuntos econômicos, no trabalho e em casa. Resultado: ambas passamos o dia (pre) ocupadas com crises distintas.

Quem estará perdendo tempo, e ganhando rugas desnecessárias na testa? Provavelmente, as duas…

9 de Abril de 2008

Por que você deve parar de ver novela

Arquivado sob: Diversão e arte, Comportamento — Marta @ 18:45

Lembro-me bem do último dia em que vi novela. A adolescente Mel, interpretada pela atriz Débora Falabella (até hoje com carinha de anjo), gritava ensandecida, debatia-se, enquanto era obrigada a entrar em uma ambulância.

Foi então que raparei na expressão de terror da minha filha, prestes a completar 3 anos. Grudada em mim depois que eu chegava do trabalho, ela punha-se sempre a brincar por perto. Não ligava para a TV, exceto quando a angelical Mel aparecia na telinha.

“Mamãe, o que está acontecendo?”

Percebi que, dali para frente, não poderia apenas dizer que era tudo de mentirinha. Teria que explicar, por exemplo, uma crise de abstinência de drogas, para uma criança de 3 anos. E sabe-se lá o que apareceria adiante, no vale-tudo por audiência. Decidi não ver novela no dia seguinte. E nunca mais vi.

Passaram-se seis anos e o efeito da “desintoxicação” das novelas, para mim, foi revelador. Às vezes tento ver um pedaço de capítulo, saber ao menos que atores estão no horário nobre, mas não consigo. Nossa, como aquilo é ruim. Diálogos, personagens, enredo, tudo. A sensação é semelhante à que eu sentia quando, do alto da minha posição de expectadora do “padrão Globo de qualidade”, deparava-me com uma novela mexicana no SBT. Ah, como a empregada conseguia ver “aquilo”? Acho que este tipo de repulsa tende a se repetir em relação à TV aberta, depois que nos acostumamos aos canais por assinatura.

Mas antes que me julguem pedante, preciso fazer um parênteses: entendo perfeitamente o sentimento de quem se acostumou a ver sua novelinha das oito. No fim de um dia cheio, chegamos em casa cansados, ligamos a televisão e imediatamente somos invadidos pelo conforto de uma trama já conhecida, despretensiosa, que eventualmente nos oferece momentos divertidos. No pacote, nem reparamos nas apelações, nas péssimas atuações, nos anúncios de supermercado, nas chamadas do Big Brother.

Temos até justificativas intelectuais para o ritual da novela. Trata-se do grande produto cultural de massas brasileiro, que une um país de dimensões continentais. Nossas novelas são exportadas, consideradas as melhores do mundo, e têm a participação de grandes atores nacionais, até da Fernanda Montenegro. E por aí vai.

Mas creia: não é nada disso. Apenas somos habituados, culturalmente, a um entretenimento de baixíssimo nível. Em alguns países, crianças e adultos são naturalmente estimulados a ler livros, e podemos vê-los nos parques, nos transportes públicos. Aqui, desde sempre fomos compelidos a ver novelas. E novelas são muito ruins, simplesmente não valem o tempo gasto com elas.

Veja bem, você não precisa ler Shakespeare no original ao invés de ver novelas. Simplesmente mude de canal, ou tente desligar a TV. Jantar batendo papo, ouvir música, quem sabe ler um bom blog no computador… No início, “perder a novelinha” poderá parecer um sacrifício. Mas você precisa apenas se distanciar um pouco, se libertar do vício, para perceber o ganho de qualidade na sua vida.

Precisamos ter a consciência de que os hábitos culturais do nosso país nos nivelam por baixo. Eu e você somos, sim, uma elite, temos acesso e formação para consumir produtos culturais de melhor qualidade, mais interessantes e estimulantes. Não é fácil mudar, porque precisamos sair do automático - mas temos a segmentação cultural, fruto das novas tecnologias, a nosso favor.

Aqui, na verdade, já não me refiro apenas a novelas. Uma pesquisa encomendada pela Fecomércio-RJ ao instituto Ipsos (no clipping, “Choque cultural”) revelou que 55% dos brasileiros não tinham participado de sequer uma atividade cultural no ano passado, como ler um livro, ver uma exposição, um show de música, um espetáculo teatral ou mesmo ir ao cinema. Apenas 31% dos brasileiros leram um livro. Se você acha que o problema é o preço, está muito enganado. A falta de hábito foi o principal motivo apresentado tanto pelas classes A e B (58%) quanto pelas D e E (59%). Nestas classes mais baixas, apenas 5% alegaram não poder pagar por um livro.

Outro dia, neste blog, demonstrei minha indignação diante de uma pesquisa que indicava um baixíssimo índice de leitura entre os universitários. Agora, imagino que o desinteresse desses jovens apenas reflete a falta de hábitos culturais de suas famílias – que têm poder aquisitivo, bom nível de escolaridade e televisores ligados noite e dia.

A elite brasileira é tão peculiar que só vai a exposições e museus quando viaja para o exterior. O mote já foi inclusive alvo de uma propaganda do Museu Casa do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes, bairro afastado do Rio. Era qualquer coisa como: “Você só vai a museus quando viaja? Então viaje até o Recreio!”

Ok, reconheço que ainda não visitei esse museu. Mas pelo menos parei de ver novela, faustão, fantástico e tudo mais que venha embalado junto com dança do créu, big brother e outras pobrezas que acreditamos ser a nossa cultura popular.

O fato de tudo isso ter começado com o intuito de proteger a minha filha, ainda bebê, agora parece simbólico. Afinal, ela fará parte da elite brasileira de amanhã. Uma elite, espero, com hábitos culturais melhores que os nossos.

7 de Abril de 2008

Chovendo no molhado

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 19:45

Entendo que, para quem cobre ou acompanha de perto a política nacional, supostos dossiês e vazamentos de informações tenham lá a sua importância. Quem é PT ou PSDB de carteirinha (?) deve mesmo vibrar com o palpitante noticiário.

Mas é curioso que a imprensa destine tanto espaço para esse tipo de escândalo político – sobre as próprias práticas políticas –, enquanto a opinião pública se distancia cada vez mais do noticiário (vide os índices de popularidade do presidente).

Uma coisa é revelar que um político está gastando dinheiro público para benefício pessoal. É algo que gera – ou deveria gerar – indignação. Outra é dar destaque ao intrincado jogo de vazamentos de informações que envolvem interesses do governo, dos congressistas e da própria imprensa (hummmmm…).

Para o povão, escândalo sobre a forma como os políticos fazem política deve parecer, no mínimo, redundância.

A tia da Sukita

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 12:55

- Se você trabalhou no Globo, deve conhecer o meu sogro – disse a minha colega do inglês.

Fiquei esperando que citasse algum de meus chefes, quem sabe um redator da antiga, mas falou o nome de um repórter que regulava com a minha idade.

- Não pode ser a mesma pessoa. O que eu conheço não tem idade para ser sogro de ninguém – afirmei, categórica.

Mas era. Teve filho cedo, e o rapaz agora namorava a menina da minha sala na Cultura Inglesa – um curso para adultos, diga-se de passagem. Pelo menos não eram casados. Ainda.

Demorei para me conformar. Continuava buscando uma forma de descobrir que se tratava de outra pessoa. Percebi que a menina não entendia o meu espanto. No seu ponto de vista, devo ter o dobro da sua idade, então eu poderia ser até uma… sogra! Mas a minha filha tem só 8 anos, tive vontade de gritar.

Olha que não sou dessas loucas que quer parecer mais nova, e costumo ter orgulho dos meus 42 anos. Mesmo assim, demorou para cair a ficha. Senti-me como aquele “tio”, do comercial da Sukita.

Aliás, ainda existe Sukita? Melhor não perguntar para a colega do inglês…

Próxima Página »
Espuminha de leite | Dicas, atualidades e assuntos para o café