Em algum lugar do passado
Crises na maturidade costumam ser relacionadas a dificuldades pessoais ou sociais, mas raramente aos problemas que tivemos quando crianças. Atribuímos uma adolescência tumultuada a pais descuidados, por exemplo, mas esquecemos que todo marmanjo já foi uma criança frágil e desprotegida.
Ok, você não acredita em psicanálise, muito menos em crise da meia idade. Então assista a dois ótimos filmes em cartaz (um nos cinemas, outro nas locadoras), antes de achar tudo bobagem.
Em “A família Savage”, irmã e irmão quarentões, inteligentes e batalhadores, são obrigados a revisitar sua infância dolorosa quando o pai reaparece doente, depois de 20 anos. Já em “Inferno”, o passado soturno é representado por um trauma que marcou a infância de três irmãs.
Nos dois casos, o expectador é apresentado a personagens maduros mas incapazes de buscar sua felicidade ou assumir relacionamentos saudáveis. Pior, parecem atraídos pelo sofrimento, de tanto que boicotam suas possibilidades de realização amorosa.
A explicação está no passado. Quase sempre está.
Para início de conversa, toda criança é frágil e desprotegida – pelo menos em relação ao poder absoluto de seus pais. “A infância é uma época de terror”, constatou outro dia a filósofa Márcia Tiburi, no programa “Saia justa”. Minha xará Martha Medeiros lembrou, numa coluna recente, que “só o fato de termos sido criados em cativeiro numa família com suas próprias regras, valores e manias já faz de cada um de nós uma aposta arriscada na hora de ter que negociar com uma espécie nascida em um cativeiro diferente.”
Achei perfeita a imagem da criança como um ser criado em cativeiro. Muitas vezes, por trás de um quarentão complicado, pode estar apenas um “animalzinho” que aprendeu a sobreviver sem afeto, condicionado por regras cruéis que pareciam ser as únicas existentes.
Na agitação do mundo adulto, tudo parece ter ficado para trás. Fora do cativeiro, é preciso ganhar a vida, conquistar um espaço, uma identidade social. Mas eis que, no meio do caminho - lá pelos 40… - essas pessoas começam insistentemente a repetir seus erros, em vez de aprender com eles. Podem fazer dessa repetição a sua existência. Ou encarar o passado, e perceber que seu futuro está em suas mãos.
Em tempo: “A família Savage” é uma produção americana, dirigida por Tamara Jenkins, com os excelentes Laura Linney e Philip Seymour Hoffman no elenco. “Inferno” é um filme francês, dirigido por Danis Tanovic, com Emanuelle Béart, Karin Viard e Marie Gillian.