Fazendo drama
No táxi para Bangu, ia tentando me preparar psicologicamente. Já tive alguns (poucos) momentos de jornalismo barra-pesada, mas foram há muito tempo. Nos últimos anos, ando assídua mesmo é de gabinetes e escritórios refrigerados.
Para ter certeza de que tiraria de letra, tentei pinçar da lembrança situações semelhantes em que me virei relativamente bem, tipo incursões em favelas ou delegacias. Vieram à tona imagens pouco nítidas de um grupo de teatro no presídio da Frei Caneca (uma matéria antiiiiiga, que pautei só para encontrar o ator Eduardo Tornaghi, ídolo da adolescência e diretor do grupo) e uma visita mais recente à Cidade de Deus, para entrevistar a insuportável funkeira Tati Quebra-Barraco.
Mas filmes e livros cismavam em invadir meus pensamentos, denunciando que minhas experiências mais frescas e próximas de uma visita a uma penitenciária tinham acontecido em confortáveis poltronas – emoções devidamente calibradas, com direito a algumas lágrimas, e hora certa para terminar.
É, eu tinha virado uma dondoca, acomodada, estava enferrujada, nada disposta a encarar a miséria humana ao vivo e a cores. Aliás, outro dia me flagrei com um friozinho na barriga numa mini-roda-gigante, logo eu, que adorava parques de diversões. As pessoas mudam. Envelhecem, encaretecem…
Enfim, o táxi chegou. Entrei no Talavera Bruce com a segurança que sempre surge no lugar dos devaneios, quando a realidade se impõe. Não confiscaram o meu batom, como cheguei a fantasiar, - só o celular - e sequer fui revistada. O segurança não podia me acompanhar, estava sozinho, então me indicou o prédio e a sala do diretor. Lá fui eu, preparada para enfrentar todo tipo de cena deprimente que assisti nos filmes pesadíssimos da lista aí ao lado (”Eu vi”). Quem manda passar o carnaval no cinema.
Ao subir a escada em caracol, tive certeza de que estava pronta para tudo. Celas lúgubres, detentas gritando, quem sabe uma rebelião em andamento. Estava preparada para tudo, menos para a Patrícia Pillar.
A revolta foi imediata. Eu ali, me torturando por misturar ficção com a dura realidade carcerária brasileira, por travar contato com a crueldade e o desespero exclusivamente por meio de romances, e agora uma atriz global zombava do meu drama particular.
A primeira cena fora do script, na verdade, foi a de um alegre almoço, em uma mesa comprida, na sala anexa à do diretor. Umas dez mulheres falando ao mesmo tempo, quase em algazarra, e um homem na cabeceira. Azevedo? O diretor fez que sim, simpático, e pediu para eu esperar o fim da refeição.
Junto com ele, saiu a Patrícia, uma das mulheres alegres do almoço. Cumprimentou-me e seguiu para outra sala, como se fosse de casa. Tive que reconectar os neurônios, programados para observar tristes flores de plásticos em jarras improvisadas na ante-sala do inferno - quem sabe um lead criativo. Foi o tempo de pensar: que coincidência, vi o Ciro Gomes no Leblon ainda ontem, quando as coisas estavam, cada uma, no seu lugar.
Foi fácil descobrir que a atriz estava ali fazendo um “laboratório”, para uma personagem de novela. A matéria, claro, foi tranqüilíssima. Flores de plástico, sim, pequenos dramas humanos, também, mas nada que pudesse tirar o meu sono à noite. Nem o da Patrícia.
Mas o que vc foi fazer no presídio, afinal, matéria para a Folha???? Avise quando sair!!!!!!!!!! Teve foto ???? A matéria era com a Patrícia ou sobre o presídio?????// Várias dúvidas …
Comentário de monica rodrigues — 12 de Fevereiro de 2008 @ 12:57
Mônica, a matéria é para o caderno de fim de semana do Valor, mas não dá para falar muito da pauta. Aviso quando sair! Ê mania de jornalista, querer tudo explicadinho, com lead careta!
Comentário de Marta — 12 de Fevereiro de 2008 @ 18:30
Fiquei ainda mais curiosa. Que matéria vc foi fazer por lá, ainda mais p/ o Valor? Economia no presídio? Uma entrevista papo cabeça com o diretor?
ou o perfil de uma detenta que aplica em bolsa?
ou será que tem uma presa famosa?
Comentário de Bonança — 14 de Fevereiro de 2008 @ 16:47
[…] Fazendo drama […]
Pingback de Espuminha de leite » Blog Archive » Melhores do Espuminha — 28 de Maio de 2008 @ 15:50