Fevereiro 2008

Arquivo Mensal

Não à renderização

Publicado por Marta em 29 Fev 2008 | sob: Comportamento

“A renderização de Multi GPU SLI foi mudada para renderização de GPU única porque uma das placas foi retirada.” É até engraçado a frase aparecer dentro de um amigável balãozinho, no canto do computador, como um aviso singelo, que informasse sobre a mudança de horário do verão ou a importância de preservar o meio ambiente.

Mas não. Era sobre a renderização.

A regra nessas horas, aprendi, é simplesmente ignorar. Prosseguir, enquanto for possível. Não se deixar intimidar, engolir aquele sentimento de sou-mesmo-ignorante-em-tecnologia, e jamais travar antes que o computador o faça.

Mas como o meu dia anterior já tinha sido dedicado parcialmente à extenuante tarefa de vencer sozinha uma nova barreira tecnológica - consegui instalar um anti-spam no blog -, vi-me no direito de questionar.

Sim, vejam que ousadia. Mesmo correndo o risco de parecer jurássica diante da nova geração, igual àqueles jornalistas saudosos da máquina de escrever, parei para pensar na tal “renderização”, que sequer tinha travado o computador.

Que idiota teria tido a idéia de colocar um aviso automático daqueles em um simples (por que não) computador? O absurdo passou despercebido pelo chefe do setor? Afinal, alguém das áreas de tecnologia tem alguma ínfima noção das regras mais básicas da boa comunicação?

Obviamente não. Eles não precisam ter. A tecnologia é algo fantástico e implacável que desde sempre tivemos que engoli-la áspera, sofrida - pelo menos nos primeiros goles. Humilhados diante da arrogância dos que dominam as siglas e os anglicismos tecnológicos (e nada além disso), apostamos na inevitabilidade de nossa compreensão, que evoluirá na medida em que as novidades se imponham e revolucionem nossas vidas.

Alguém vai dizer que esse incômodo é coisa da nossa geração, que os bebês de hoje já nascem configurando seus computadores. Não acredito nisso. A aridez dos assuntos tecnológicos, estupidamente embalada em balõezinhos que invadem nosso dia-a-dia, não deve ser agradável nem para os iniciados.

Os mais novos podem até ser conformados, e aceitarem melhor as regras deste jogo. Mas há gente conformada com tudo, não é mesmo? Pois eu, com o perdão do trocadilho, não me rendo à “renderização”.

Desde já proponho que as empresas de tecnologia contratem gente especializada em comunicação para a área de desenvolvimento de produtos e serviços. E juro que meu interesse é apenas como consumidora e cliente.

Afinal, o recente surgimento da comunicação corporativa não revolucionou o mundo das empresas? Por que a “inteligência” da comunicação não invade também o universo dos nerds e dá uns conselhos para esse pessoal? Pode ser uma oportunidade de negócio para ambos os lados.

Sugestão de longo prazo à parte, aconselho aos que amam mas sofrem com a tecnologia, como eu, que não desistam. As peripércias para manter aceso este blog me mostram que vale a pena.

O menino que caía no buraco

Publicado por Marta em 27 Fev 2008 | sob: Comportamento

Tudo começou quando o menino cismou de participar do concurso de modelo da Valéria Valenssa. Só 6 anos, e já tinha vontade de desfilar na passarela, imagine você. Qual não foi a surpresa da família quando ele ficou em segundo lugar, com 20 crianças competindo.

Sentada ao meu lado, a mãe fez algum suspense na hora de contar a história do concurso. Ela já estava indo embora do evento, porque começaram a anunciar os vencedores de trás para frente. E nada. Quando chamaram o terceiro lugar, a família queria sair, voltar para casa. Mas não é que o menino ficou em segundo? E seus olhos brilharam, denunciando alguma lágrima.

Depois disso o garoto se interessou mesmo foi pela carreira de ator. Sabe que ele já participou de várias peças infantis? E também de adulto. Fez um menino que caía num buraco. Era sua única cena. Chegava ao teatro toda noite só para cair no buraco. O elenco o chamava de “o menino que caía no buraco”. Mas ele não se importava de ficar uma hora no ônibus, ida e volta, só para cair no buraco.

Agora, está há dois anos fazendo esse curso de teatro (o motivo de eu estar ali, esperando a aula experimental da minha filha). O único problema dele é dançar. Às vezes parece que tem dois pés esquerdos. Mas a mãe arrumou umas aulas particulares de sapateado, em Realengo. É longe, é caro, a família não tem muito recurso, já que são todos jornaleiros. Mas fazer o quê. O menino quer ser artista, então faz aula de sapateado toda semana, religiosamente.

O pai, no início, disse que era tudo coisa de boiola. Agora, não. Todo mundo percebeu seu talento, sua determinação. Com 8 anos, já tem várias peças no currículo. Ah, ela já contou? Pois é. Ele foi um dos meninos perdidos do Peter Pan, em um clube quente como o inferno, em pleno mês de dezembro. Suava, suava, mas não reclamava de ficar dentro daquela fantasia. Como mãe, ela tem que apoiar, não é mesmo?

Claro que sim. As crianças de 6 anos são muito precoces e determinadas hoje em dia. É idéia delas, e somente delas, ir à Disney, dar megafestas de aniversário, participar de concurso de modelo, fazer aula particular de sapateado. Quem sou eu para discordar?

Sobre a festa do Oscar

Publicado por Marta em 25 Fev 2008 | sob: Cotidiano

Não é para me gabar, mas acertei todas as minhas apostas para o Oscar, com exceção de melhor filme. Aliás, comparar os cinco filmes que concorreram é até covardia. A escolha final sempre passa por um gosto pessoal.

Por exemplo: quem não gosta de tragédia, na sua definição clássica, não vai eleger “Desejo e reparação” como favorito. Quem sofre com cenas de violência, como eu, vai reconhecer que “Onde os fracos não têm vez” é genial, mas o filme não vai virar o de cabeceira.

Já em relação ao desempenho dos atores, acho que o julgamento é mais objetivo. Adorei ter acertado nos quatro casos! Quem sabe eu deveria ter me tornado crítica de cinema, em vez de jornalista de economia…

Ainda sobre a festa do Oscar, no quesito “tapete vermelho”, me chamou a atenção o penteado das atrizes, com aquele ar de prendi-rapidinho-antes-de-sair-de-casa. Aposto com vocês que, para as madeixas ficarem daquele jeito, caindo displicentemente em cima do rosto, foram horas e horas de salão.

Toda vez que o mulherio se anima com um cabelo da moda, molinho de fazer em casa, é sempre armadilha. Aquele ondulado saí-do-banho-e-nem-escovei, por exemplo, exige uma sessão de chapinha e outra de baby liss. Se você fizer umas mechas antes, é um dia inteiro no salão. E uma conta…

Recentemente descobri que fazer uma escova antes de uma ocasião especial, que eu considerava o meu “momento perua”, é algo bem basiquinho hoje em dia. E não estou falando de Hollywood não. Num baile de formatura que fui recentemente em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, eu era a única sem cachos, apliques, megahair ou enfeites brilhantes no cabelo. “Só” escova.

Quer dizer, o tempo passa, a moda muda, e as mulheres sempre dão um jeito de complicar ainda mais seus rituais para ficarem lindas - de preferência mais lindas do que as outras. Como elas arrumam tempo?

Meu Oscar vai…

Publicado por Marta em 23 Fev 2008 | sob: Diversão e arte

Ok, podem me chamar de brega, mas adoro ver todos os filmes candidatos ao Oscar e depois acompanhar a cerimônia pela TV, com uma cervejinha ao lado.

É o tipo do programa que só tem graça se o pacote for completo: é preciso estar por dentro dos indicados e favoritos, reparar na roupa dos artistas no tapete vermelho, comer pipoca, criticar a tradução e, principalmente, ter preferidos para torcer e vibrar durante aqueles segundos em que aparecem as carinhas dos indicados na platéia.

Eu fiz o dever de casa: assisti quase tudo que está em cartaz. Vi tanto filme bom que nem por onde começar.

Antes, duas ressalvas: alguns dos melhores filmes do Oscar - como “Onde os fracos não tem vez”, “Sangue negro”, “Senhores do crime” - são violentíssimos (tapei os olhos várias vezes, que nem criança) e não têm exatamente um final, daqueles que a gente se acostumou a ver no cinema. Devem ser as novas tendências da temporada…

Para melhor filme, estou torcendo por “Desejo e reparação”. Por conta da ousadia dos outros concorrentes, ele vai passar por “o careta” entre os candidatos. Mas é um filmaço, uma tragédia repleta de emoção, que enche os olhos e já estou doida para rever.

Claro que seria o máximo “Juno” ganhar. Ele tem aquele lado simpático de filme independente, simples, inteligente. É mesmo ótimo, mas confesso que vi com um certo distanciamento, com dificuldade de acreditar que uma gravidez possa ser encarada daquela forma por uma família razoavelmente normal.

Para ator, claro, Daniel Day Lewis. E não é porque está todo mundo falando. Sou tiete dele desde “A insustentável leveza do ser”, meu filme de cabeceira. Não dá nem para adjetivar essa última atuação do cara. Tem que ver.

Para atriz, não vi todos os filmes. Cate Blanchett está fantástica em “Elizabeth”. Mas quando descobri que a atriz que faz “Piaf”, perfeita, era a mesma de um outro simpático filme que tinha visto há pouco tempo (”Um bom ano”), tive certeza de que ela é a mais próxima de um “Daniel Day Lewis de saias”. É minha favorita.

Para atriz coadjuvante também vou torcer pra valer. Antes mesmo que se falasse em Oscar, saí do filme “Conduta de risco” (aliás, outro que adoro e também podia levar uma estatueta) querendo saber o nome daquela atriz com uma atuação espetacular. O nome dela é Tilda Swinton.

Para ator coadjuvante, Javier Barden - pelo conjunto da obra (Sombras de Goya, Amor nos tempos do cólera), pelo penteado e sei lá mais o quê. Ele é o ator que faltava para os irmãos Coen, que também deveriam ganhar por melhor direção. Os irmãos Coen, por sinal, são um post à parte. São como Woody Allen, começamos admirando e acabamos nos viciando na genialidade deles.

E isso aí. Bom Oscar, ou bom guia para os filmes do Oscar!

O tempo não pára

Publicado por Marta em 22 Fev 2008 | sob: Cotidiano

“Fidel Castro renunciou após meio século no poder. Um negro se tornou um forte candidato à Presidência dos EUA. Um novo Estado europeu, o Kosovo, surgiu. E tudo em apenas uma semana.

Ditadores comunistas não renunciam. Negros não têm forte apelo eleitoral nos EUA. Fronteiras européias não mudam sem banhos de sangue. A História está mudando.”

Interessante. Continua em matéria do New York Times, de Roger Cohen, traduzida hoje pelo Globo.

Falha porque tarda

Publicado por Marta em 21 Fev 2008 | sob: Cotidiano

A inspiração, para variar, é norte-americana. Estamos nos acostumando à idéia de que a democracia é feita de muitos processos judiciais. Logo, quem recorre à Justiça está apenas lutando, de forma lícita e transparente, para fazer valer seus direitos, certo?

Errado. Os jornalistas, agora que passaram a ser atacados por processos judiciais aos borbotões, estão sentindo na pele aquilo que muito pobre já sabia. Briga na Justiça é pra cachorro grande.

Para os poderosos, que investem pesado em um bom time de advogados, ganhar no mérito uma ação é o de menos. O importante é incomodar, postergar ao máximo qualquer decisão, intimidar quem tem menos (ou nenhum) respaldo jurídico.

Conhecidos “empresários do mal” se fizeram assim, investindo rios em intermináveis brigas judiciais (de preferência contra o governo) e dando calotes em quem provavelmente não tem advogado de plantão. Melhor nem colocar o nome deles aqui, porque eu sou uma que não tem advogado…

Perceberam como funciona? Está na hora de pararmos de associar “processar” com “fazer valer direitos”. Se funciona nos Estados Unidos, eu não sei. Mas por aqui, definitivamente, não.

Enquanto isso, na rádio-corredor…

Publicado por Marta em 19 Fev 2008 | sob: Cotidiano

Os assuntos bombaram tanto na semana passada, que continuam na ordem do dia. Entre os jornalistas, o bochicho ainda é a briga entre o colunista Luiz Nassif e a revista Veja. Nas academias, a polêmica foi a morte de uma aluna da Pró-Forma, em plena aula de ginástica.

Como o primeiro tema é bem mais espinhento, fiquemos apenas com o segundo.

Com 35 anos, a aluna malhava diariamente numa das academias mais badaladas do Rio e tinha excelente saúde. Caiu estatelada de repente, durante uma aula de ginástica, depois de fazer spinning (bicicleta, para quem chegou agora). Detalhe: na semana anterior, a Veja (olha ela aí de novo) tinha feito uma matéria de capa sobre os excessos cometidos pelos marombeiros.

Na minha academia (yes, eu continuo firme!), o professor apressou-se em defender a tese do aneurisma, sem qualquer relação com a malhação. Mas logo surgiu uma senhora, amiga da amiga da que morreu, garantindo que a moça tomava bomba (anabolizante).

Que seja. O importante ali, para todas, era encontrar algum sentido para aquilo, algo bem improvável de acontecer conosco. Porque nós, até prova em contrário, somos imortais, não é mesmo?

Precisamos falar sobre sentimentos assim

Publicado por Marta em 18 Fev 2008 | sob: Diversão e arte

Não é uma leitura fácil. As primeiras 70 páginas são um pouco arrastadas, as 400 seguintes, perturbadoras. Há muito tempo um livro não me impressionava tanto. Além disso, é muito, muito bem escrito.

“Precisamos falar sobre o Kevin” (de Lionel Shriver) é a história de uma mulher por trás de um acontecimento estúpido: seu filho torna-se um desses adolescentes que matam uma pequena multidão numa escola americana.

Mas o livro vai muito além. Disseca, na primeira pessoa (ela conta sua versão dos fatos em cartas para o marido), os sentimentos de uma mulher em relação a seu filho impenetrável, a suas escolhas e suas renúncias. É um tratado sincero - mais do que costumamos suportar - sobre (falta de) amor e culpa.

Os valores tortos da sociedade americana e seus personagens pitorescos são uma espécie de pano de fundo que torna a história ainda mais interessante. Mas é na questão da maternidade/paternidade que o bicho pega. Impossível quem tem, ou pretende ter, filhos sair incólume da leitura.

Pensando bem, não sei se recomendo minhas amigas que estão pensando em engravidar (por acaso, agora, são algumas) a ler este livro. Quem sabe um pouco depois, quando a relação com o bebê já estiver mais bem estabelecida.

Não imagino muitos Kevins por aí, mas a idéia de tê-lo como filho é aterradora.

No vaivém da rede

Publicado por Marta em 15 Fev 2008 | sob: Cotidiano

Da série “A internet enlouquece qualquer um”:

Recebi um email com o título “Recomendação da Cruz Vermelha” afirmando que as equipes médicas recomendam adicionar, na agenda do celular, um número para se ligar em caso de acidentes. A sugestão é que se use a expressão “A Em caso de emergência”, para o telefone figurar no início da agenda.

Parece razoável, não fosse o fato de eu ter retirado até a expressão “Mãe” da minha agenda, depois de ler uma recomendação semelhante, também repassada por email, só que da polícia, para evitar tentativas de extorsão quando o celular é roubado.

Agora só resta esperar pelo terceiro email, alertando que bandidos estão fazendo campanha de marketing viral em nome da Cruz Vermelha…

Mistérios de uma viagem

Publicado por Marta em 14 Fev 2008 | sob: Viagens

Questões que sempre intrigam os viajantes atentos:

Por que em TODOS os hotéis as camareiras cismam em tranformar as camas em vigorosos sacos de dormir - eliminando qualquer possibilidade de soltar as cobertas de cima sem desprender também os lençóis de baixo?

Por que as outras pessoas demoram séculos no check-in das companhias aéreas, formando filas enormes, se na nossa vez o atendimento leva apenas dois minutos?

Por que em cada lugar as tomadas elétricas são tão diferentes, em formatos e voltagens?

O verdadeiro tango portenho

Publicado por Marta em 13 Fev 2008 | sob: Viagens

Viagem de fim de semana para Buenos Aires. Tudo de bom e de barato, ainda mais com passagem de milhagem (a mesmíssima quantidade de milhas de uma ponte-aérea, por sinal).

Foi ali, no início da noite de domingo, que tive uma de minhas experiências de viagem mais, digamos, autênticas, graças a uma preciosa dica da amiga Janes - que, depois de um ano e meio morando por lá, está parecendo uma argentina, no bom sentido. Bonita e serena.

Escondido por um corredor comprido, o Salón Canning já estava bem cheio quando chegamos. Parecia que tínhamos entrado em “O baile”, de Ettore Scola. Éramos os únicos turistas. Mas como fomos, sim, com a pretensão de dançar tango, nossa roupa e nossos modos não chegavam a destoar.

O Zé ficou chateado porque, pela primeira vez na vida, eu não queria dançar. Nossos passos de bolero gritavam, de tão espaçosos. O tango dançado por todos era comedido, elegante, em passos curtos - bem diferentes daquele das apresentações. Imagino que o mais importante era não esbarrar nos outros casais, no salão lotado.

Eu poderia ficar ali por horas, só olhando as sandálias de salto bem alto, impecáveis. Um dois três quatro, e então os pezinhos se juntavam, cruzados, ou unidos pelos calcanhares. Mas a parte do ritual mais fascinante era quando a música começava. Sabe aqueles olhares e gestos dos leilões, quase imperceptíveis, mas que na verdade são lances decisivos? Era assim que os cavalheiros convidavam suas damas, sentadas do outro lado do salão.

Não queria dançar porque não me julgava no direito. Como intrusa, cabia-me no máximo observar. Além disso, qualquer tentativa de participar quebraria o encanto, ou estragaria a obra de arte - como se eu quisesse dar uma pincelada em um quadro impressionista alheio, só para ver como o autor se sentia a respeito.

Mas mesmo como expectadora, foi inesquecível. E custou módicos 12 pesos, o equivalente a 7 reais…

Fazendo drama

Publicado por Marta em 07 Fev 2008 | sob: Cotidiano

No táxi para Bangu, ia tentando me preparar psicologicamente. Já tive alguns (poucos) momentos de jornalismo barra-pesada, mas foram há muuuuito tempo. Nos últimos anos, ando assídua mesmo é de gabinetes e escritórios refrigerados.

Para ter certeza de que tiraria de letra, tentei pinçar da lembrança situações semelhantes em que me virei relativamente bem, tipo incursões em favelas ou delegacias. Vieram à tona imagens pouco nítidas de um grupo de teatro no presídio da Frei Caneca (uma matéria antiiiiiga, que pautei só para encontrar o ator Eduardo Tornaghi, ídolo da adolescência e diretor do grupo) e uma visita mais recente à Cidade de Deus, para entrevistar a insuportável funkeira Tati Quebra-Barraco.

Mas filmes e livros cismavam em invadir meus pensamentos, denunciando que minhas experiências mais frescas e próximas de uma visita a uma penitenciária tinham acontecido em confortáveis poltronas – emoções devidamente calibradas, com direito a algumas lágrimas, e hora certa para terminar.

É, eu tinha virado uma dondoca, acomodada, estava enferrujada, nada disposta a encarar a miséria humana ao vivo e a cores. Aliás, outro dia me flagrei com um friozinho na barriga numa mini-roda-gigante, logo eu, que adorava parques de diversões. As pessoas mudam. Envelhecem, encaretecem…

Enfim, o táxi chegou. Entrei no Talavera Bruce com a segurança que sempre surge no lugar dos devaneios, quando a realidade se impõe. Não confiscaram o meu batom, como cheguei a fantasiar, - só o celular - e sequer fui revistada. O segurança não podia me acompanhar, estava sozinho, então me indicou o prédio e a sala do diretor. Lá fui eu, preparada para enfrentar todo tipo de cena deprimente que assisti nos filmes pesadíssimos da lista aí ao lado (”Eu vi”). Quem manda passar o carnaval no cinema.

Ao subir a escada em caracol, tive certeza de que estava pronta para tudo. Celas lúgubres, detentas gritando, quem sabe uma rebelião em andamento. Estava preparada para tudo, menos para a Patrícia Pillar.

A revolta foi imediata. Eu ali, me torturando por misturar ficção com a dura realidade carcerária brasileira, por travar contato com a crueldade e o desespero exclusivamente por meio de romances, e agora uma atriz global zombava do meu drama particular.

A primeira cena fora do script, na verdade, foi a de um alegre almoço, em uma mesa comprida, na sala anexa à do diretor. Umas dez mulheres falando ao mesmo tempo, quase em algazarra, e um homem na cabeceira. Azevedo? O diretor fez que sim, simpático, e pediu para eu esperar o fim da refeição.

Junto com ele, saiu a Patrícia, uma das mulheres alegres do almoço. Cumprimentou-me e seguiu para outra sala, como se fosse de casa. Tive que reconectar os neurônios, programados para observar tristes flores de plásticos em jarras improvisadas na ante-sala do inferno - quem sabe um lead criativo. Foi o tempo de pensar: que coincidência, vi o Ciro Gomes no Leblon ainda ontem, quando as coisas estavam, cada uma, no seu lugar.

Foi fácil descobrir que a atriz estava ali fazendo um “laboratório”, para uma personagem de novela. A matéria, claro, foi tranqüilíssima. Flores de plástico, sim, pequenos dramas humanos, também, mas nada que pudesse tirar o meu sono à noite. Nem o da Patrícia.

Pílulas carnavalescas

Publicado por Marta em 06 Fev 2008 | sob: Rio, Cotidiano

Agora sim, na quarta-feira de cinzas, o tempo chuvoso combinou com a data. Muito estranho sair no carnaval de casaquinho, em pleno Rio de Janeiro…

Se não estou enganada, essa história de todo o comércio fechar na segunda-feira de carnaval é novidade por aqui. O feriado não era só na terça? Pelo visto, estamos trilhando o caminho baiano. Quem quiser trabalhar na segunda que vá para São Paulo!

Nada como o carnaval para nos lembrar que o silicone já é uma realidade e está entre nós. Onde menos esperamos, nos deparamos com uma prótese, digo, um belo decote turbinado. Nada contra…

Não sei se foi a chuva, mas os cinemas estiveram bem cheinhos no feriadão. Vale a pena conferir os números das bilheterias. Se bobear, foi recorde.

Longe de mim azarar a diversão de quem curte carnaval de rua, mas que a chuva teve lá sua utilidade, lá isso teve. Lavou as calçadas e deu uma boa melhorada no fedor de xixi. Imagina aquilo secando, debaixo do maior calorão!

Carnaval? Que carnaval que nada. Já é Páscoa! Os ovos de chocolate acabam de chegar às prateleiras das Lojas Americanas!

Carnaval sem estrada

Publicado por Marta em 01 Fev 2008 | sob: Rio

Para os que adoram falar que tudo no Rio piorou, aí vai uma constatação: o carnaval melhorou. Os saudosistas vão lembrar de tempos mais “autênticos” das escolas de samba, dos concursos de fantasias ou dos bailes de salão.

Mas tudo isso era fechado, pago! Na prática, o carnaval do carioca era transmitido pela televisão. Carnaval de rua era coisa de um passado distante, dos nossos avós, ou de meia dúzia de bebuns que ainda perambulavam pelo centro.

Na prática, todo mundo se mandava do Rio, pegava a estrada. Os blocos se resumiam a Suvaco e Simpatia, com saídas providencialmente marcadas para antes do carnaval. “Para onde você vai viajar?”, era a pergunta de praxe, quando ia chegando o feriado. Até na TV, o carnaval era caidaço - todas as piadas sobre a fantasia do Clóvis Bornay ou a desanimação do baile do Hawai já haviam sido feitas.

Agora, não. A garotada pega o roteiro dos blocos, inventa uma “quase fantasia” bem fresquinha, e passa o dia cantando marchinha com lata de cerveja na mão. OK, tem o cheiro do xixi, o engarrafamento, a superlotação. Mas você queria o quê? Carnaval com ar condicionado?

Pensando bem, não chega a ser má idéia. Depois de gastar minha cota de animação no pré-carnaval, estou programando algumas boas horas no escurinho – e fresquinho – do cinema, colocando os filmes em dia para o Oscar…