Sempre morri de vergonha de dar (ou não dar) gorjeta. Vale lembrar que não há terceira opção, por mais que você se finja de distraído…
Pensava que era uma dessas maluquices particulares, até ler que Caetano Veloso tem o mesmo problema. Como eu, ele acha a situação um tanto embaraçosa, segundo comentou an passant numa entrevista. Valeu, Caetano.
Para pessoas como eu e Caetano (menos, Marta, menos), é um alívio quando a quantia é estipulada oficialmente, ou proibida.
Do contrário, vejo-me alçada repentinamente a uma condição totalmente artificial, de poder julgar e premiar um ser humano que mal conheço, sem ter qualquer condição para isso. Sinto-me como jurada de um programa de calouros: generosa ou não, meu papel ali é o de humilhar quem está sendo avaliado.
Sim, porque, apesar de nunca ter recebido gorjeta, acho que uma dose de humilhação é inevitável nessa hora.
Ok, vão achar que estou exagerando. Uma gorjeta pode ser só uma gorjeta, um gesto distraído para quem está acostumado (a dar ou receber). Mas continua implicando uma relação de hierarquia absurda, por mais automática que seja.
Não sei você, mas já passei pela experiência de dar gorjeta alta demais, achando que assim me livraria do constrangimento, e o tiro saiu pela culatra. Estava em um salão de beleza chiquérrimo, recém inaugurado numa casa de Ipanema, e o tal momento de pagar, e me despedir da funcionária, chegara.
Dei-me conta de que só tinha algumas moedas, ou uma nota de R$ 20. Ela não fazia absolutamente o tipo humilde: ao contrário, era uma mulata exuberante, com maquiagem e penteado moderninhos. Quando entreguei-lhe a nota, de forma mais casual possível, ela não quis receber: “Não precisa”, disse, simpática. Mas dei assim mesmo. E demorei para voltar por lá…
Para as mulheres, o salão é o lugar das gorjetas, então vamos nos acostumando. Procuro observar como as outras fazem, o valor atribuído a cada serviço (quanto uma colorista deve ganhar a mais que uma manicure?).
Quanto mais incomum a situação, mais aperto na hora de arbitrar o valor. Quando chego a um hotel e percebo que ninguém vai carregar minha mala, fico até contente (se a mala for de rodinhas, claro). Uma saia justa a menos.
Já presenciei pessoas felizes em dar gorjetas, exibindo o gesto de generosidade com segurança e amplitude. Gostaria de ter a mesma segurança, para me sentir simplesmente justa, diante de uma oportunidade de fazer o bem.
De qualquer forma, continuo achando que o bem é algo que fazemos sem contar a ninguém. Ou seja, sem amplitude na hora da gorjeta…
(Reprodução do post “Trocando em miúdos”, covardemente atacado por spams, com a ajuda de inescrupulosos robozinhos espiões)