Uma vez cismei de fazer uma matéria desmascarando o McDia Feliz. Para mim estava claro que aquilo era uma caridade interesseira, em causa própria.

Quer dizer, crianças doentes de fato eram ajudadas com o dinheiro do evento, mas o McDonald’s parecia ser quem mais lucrava: além da mídia espontânea e dos ganhos de imagem, aumentava seu faturamento com refrigerantes e outros lanches, na medida em que apenas o dinheiro dos Big Macs ia para projetos sociais.

Pauta na cabeça, fui provar a minha tese. Logo na primeira fonte - um executivo com perfil crítico e independente, que falava em off - percebi que teria dificuldades com a matéria. Ele já tinha um discurso pronto sobre o quanto a iniciativa da rede de fast food era louvável, e se surpreendeu quando comecei a especular sobre números e lucros.

Com a assessoria da empresa, não foi diferente. Eles pareciam não acreditar quando perguntei sobre o percentual de aumento na venda de refrigerantes. Não, esse não era o número que interessava aos jornalistas! Os dados disponíveis eram os de Big Macs vendidos, dinheiro arrecadado, crianças beneficiadas!

Não consegui qualquer número e nem mesmo uma fonte que se dispusesse a derrubar a minha pauta, me explicar o meu equívoco em relação ao assunto. Fiquei confusa. O meu raciocínio era bem claro: ninguém come um Big Mac a seco e as lanchonetes ficavam lotadas naquele dia, então recordes de refrigerantes também deviam ser batidos. Por que tanto estranhamento?

Simples: eu estava entrando no terreno do politicamente correto. Era como se eu fosse contra as criancinhas com câncer.

Desisti da matéria e me lembrei dessa história outro dia, quando ousei, em uma roda, pisar em outro terreno igualmente dogmático nos tempos atuais, o do ecologicamente correto.

Faça o teste: tente argumentar publicamente que há exageros e interesses por trás das defesas do ecologicamente correto, e prontamente olhares o acusarão de querer degradar o meio ambiente e acabar com a camada de ozônio.

Não sei como estão se virando os repórteres na área ambiental, ou o quanto conseguem se manter críticos e lúcidos. Mas o fato é que os indícios de que tem alguma coisa muito errada estão por todos os lados.

Leio numa revista sobre o esforço de Xuxa para tomar banhos mais curtos. Sim, a apresentadora abraçou a causa ecológica e está empenhadíssima em preservar a água do planeta.

Na sala de espera do aeroporto, encontro em outra revista dicas de como as pessoas podem minimizar o impacto ambiental dos aviões, que seria imenso. Entre os conselhos, estão desde “evite viajar” até a sugestão de não dar descarga no banheiro do avião, já que cada uma delas gasta um litro de combustível!

Quer dizer, Xuxa virou exemplo, alguém acha razoável não dar descarga em banheiro de avião e eu é que sou a politicamente incorreta??? Sei não, mas acho que está todo mundo ficando maluco…