28 de Dezembro de 2007

Toda unanimidade…

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 15:30

Uma vez cismei de fazer uma matéria desmascarando o McDia Feliz. Para mim estava claro que aquilo era uma caridade interesseira, em causa própria.

Quer dizer, crianças doentes de fato eram ajudadas com o dinheiro do evento, mas o McDonald’s parecia ser quem mais lucrava: além da mídia espontânea e dos ganhos de imagem, aumentava seu faturamento com refrigerantes e outros lanches, na medida em que apenas o dinheiro dos Big Macs ia para projetos sociais.

Pauta na cabeça, fui provar a minha tese. Logo na primeira fonte - um executivo com perfil crítico e independente, que falava em off - percebi que teria dificuldades com a matéria. Ele já tinha um discurso pronto sobre o quanto a iniciativa da rede de fast food era louvável, e se surpreendeu quando comecei a especular sobre números e lucros.

Com a assessoria da empresa, não foi diferente. Eles pareciam não acreditar quando perguntei sobre o percentual de aumento na venda de refrigerantes. Não, esse não era o número que interessava aos jornalistas! Os dados disponíveis eram os de Big Macs vendidos, dinheiro arrecadado, crianças beneficiadas!

Não consegui qualquer número e nem mesmo uma fonte que se dispusesse a derrubar a minha pauta, me explicar o meu equívoco em relação ao assunto. Fiquei confusa. O meu raciocínio era bem claro: ninguém come um Big Mac a seco e as lanchonetes ficavam lotadas naquele dia, então recordes de refrigerantes também deviam ser batidos. Por que tanto estranhamento?

Simples: eu estava entrando no terreno do politicamente correto. Era como se eu fosse contra as criancinhas com câncer.

Desisti da matéria e me lembrei dessa história outro dia, quando ousei, em uma roda, pisar em outro terreno igualmente dogmático nos tempos atuais, o do ecologicamente correto.

Faça o teste: tente argumentar publicamente que há exageros e interesses por trás das defesas do ecologicamente correto, e prontamente olhares o acusarão de querer degradar o meio ambiente e acabar com a camada de ozônio.

Não sei como estão se virando os repórteres na área ambiental, ou o quanto conseguem se manter críticos e lúcidos. Mas o fato é que os indícios de que tem alguma coisa muito errada estão por todos os lados.

Leio numa revista sobre o esforço de Xuxa para tomar banhos mais curtos. Sim, a apresentadora abraçou a causa ecológica e está empenhadíssima em preservar a água do planeta.

Na sala de espera do aeroporto, encontro em outra revista dicas de como as pessoas podem minimizar o impacto ambiental dos aviões, que seria imenso. Entre os conselhos, estão desde “evite viajar” até a sugestão de não dar descarga no banheiro do avião, já que cada uma delas gasta um litro de combustível!

Quer dizer, Xuxa virou exemplo, alguém acha razoável não dar descarga em banheiro de avião e eu é que sou a politicamente incorreta??? Sei não, mas acho que está todo mundo ficando maluco…

27 de Dezembro de 2007

Ameaça de fim de ano

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:14

Antes de viajar, é recomendável planejar o pagamento das contas que serão recebidas - ou vencidas - no período de ausência. Evita-se, assim, não só as odiosas multas como a imposição de pagá-las apenas no banco tal (com fila bem grande) depois do vencimento.

Pois desta vez, por conta do calendário, não fui surpreendida por nenhum atraso de conta na minha volta de viagem. Estava feliz da vida quando abri uma cartinha indecente da Editora Abril, que dizia qualquer coisa como:

“Você foi premiada com o serviço Renova Fácil da Abril. A sua assinatura da revista Exame só vence em março, mas resolvemos oferecer a você, nossa cliente hipermegaespecial, a renovação automática em dezembro. Temos o número do seu cartão de crédito e iremos usá-lo, sem a sua autorização, no dia 23 de dezembro, caso você não ligue desesperada, antes disso, para cancelar esta imperdível oportunidade (para nós, claro, que precisamos atingir nossas metas de vendas de 2007).”

O prazo para reagir à ameaça já tinha passado. Senti o sangue subir à cabeça. O pior é que o horário de atendimento do 0800, gentilmente disponibilizado para se “cancelar” a oferta, havia terminado. Tive que dormir enfurecida, planejando todas as vinganças possíveis.

No dia seguinte, uma operadora de telemarketing bem treinada, ou já acostumada em atender assinantes indignados, cancelou tudo e tentou me acalmar com um “desconto especial”. Jurei que não renovo mais a revista. Nunca mais. E guardei a cartinha da editora, prova do crime, sem desistir da vingança.

24 de Dezembro de 2007

Post de Natal

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 08:37

Os funcionários da lanchonete, na beira da estrada, trabalham de gorro vermelho. Na TV, mais uma matéria sobre solidariedade, com crianças pobres abrindo presentes de frente para a câmera.

Sempre gostei mais do Ano Novo. Tinha uma certa dificuldade de captar o tal espírito natalino. Afinal, o que mesmo acontecia entre o momento em que se desejava “Feliz Natal” aos outros e a hora em que se perguntava “E aí, como foi de Natal”?

Mistério. Parecia ser algo relacionado aos potinhos de passas e nozes que ninguém comia, e ficavam ali, enfeitando as mesas com toalhas vermelhas.

Depois de ter filho, o Natal fica mais bacana. Há o brilho nos olhos das crianças, a fantástica lenda do Papai Noel, o nosso espanto em perceber como elas conseguem acreditar em algo tão esquisito.

Com as crianças, e a maturidade, fui percebendo o pretexto para se reunir a família. Depois, quando se pode promover as próprias festas de Natal, sempre é possível adaptar partes do ritual - manter as rabanadas, por exemplo, mas abolir as detestáveis frutas secas.

Então é isso. Aproveite as comidas que realmente lhe agradam, beba um pouco para entrar no clima e curtas as crianças que estiverem por perto. Feliz Natal!

20 de Dezembro de 2007

O livro ou o filme?

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 16:53

Sempre que assisto um filme realizado a partir de um livro, a decepção é inevitável. Talvez a palavra correta não seja decepção: o sentimento é próximo ao de se sentir contrariado. Peralá, não foi essa a história que eu “vi” na minha cabeça!

Quando lemos o livro depois de ver filme, ocorre outro fenômeno: somos perseguidos pela imagem dos atores, que encarnam emplacavelmente os personagens que seriam criados por nossa mente.

Agora, estou vivendo uma situação, digamos, intermediária. Acabei de ler “Meu nome não é Johnny”, de Guilherme Fiúza, numa edição repleta de fotos do filme que estréia nos próximos dias, com o ator Selton Mello no papel principal.

O detalhe é que eu já tinha visto o trailer no cinema. Ou seja, fiquei imaginando os trejeitos de Selton a cada cena, digo, capítulo. Isso apesar de haver fotos do verdadeiro João Guilherme Estrella no livro!

Mesmo assim, construí o meu filme mentalmente e, com certeza, será bem diferente do que verei nas telas na semana que vem. Como me sentirei com a experiência?

Para escritores e roteiristas, a confusão não é muito diferente. Já engrenando o segundo livro da bagagem (há tempo para ler livros em resorts!), um de crônicas do Rubem Fonseca, descubro que a questão literatura X cinema também o intriga.

Certa vez, ele foi procurado pelo cineasta David Neves, que tinha “encontrado” uma atriz igualzinha à Lúcia McCartney, do livro de Fonseca. Apresentado à atriz (sorry, esqueci seu nome), ele percebeu que o cineasta estava convicto de a personagem ser loura, de olhos azuis, lábios finos - enfim, um tipo europeu.

“Então, ela não é igualzinha?”, perguntou. Só que Rubem Fonseca em momento algum da história descreve sua personagem principal - e também não esclarece, na crônica, como ela seria originalmente.

Lendo nas entrelinhas (será que isso existe no cinema?), fiquei com a impressão de que o escritor ficou um tanto contrariado com a Lúcia européia…

19 de Dezembro de 2007

Férias com caipirinha e barriguinha

Arquivado sob: Femininas, Viagens — Marta @ 18:17

Tem gente que odeia resort. Acha sem charme, um tanto americanizado (apesar de o famoso Club Med ser francês), padronizado.

Pode ser isso tudo, mas para quem tem criança e quer um pouco de mordomia, nada melhor do que um hotelão com bons serviços, uma programação pronta e muito papo para o ar.

Hoje, no meu hotelão na Bahia, estive reparando numa vantagem extra. Como resort é sempre cheio de gringos, de todas as nacionalidades, e famílias brasileiras de todos os cantos, não há a ditadura do corpo na piscina.

Ao contrário do Rio, e mais especificamente de Ipanema, as mulheres têm corpos normais para as suas idades. E não parecem constrangidas com suas celulites e barriguinhas, enquanto tomam caipirinhas e cuidam dos filhos.

Nada como se sentir normal, com direito a diversão, sem culpa por não ter o corpo malhado por anos na academia. A carioca sofre com essa auto cobrança; basta levantar o assunto em uma rodinha feminina para constatar.

Mas quando saímos um pouco do microuniverso de Zona Sul, Rio de Janeiro, Brasil, percebemos que a mulherada em outras culturas parece ser mais feliz. Pelo menos nesse aspecto.

13 de Dezembro de 2007

Adeus programa velho, feliz programa novo

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 10:43

Você já programou direitinho o seu Natal? E o seu réveillon? Vai fazer tudo igual ou tudo diferente?

Já reparei que existem dois tipos de pessoa. Há os que adoram a tradição no fim de ano: a mesma ceia, na casa do mesmo parente e com os mesmos convidados, seguida pelo mesmo programa-roubada do último Ano Novo (ou o do mesmo roteiro para fugir das roubadas da temporada).

Existem também os que querem variar, fugir dos compromissos familiares natalinos, e descobrir “o lugar” para passar o réveillon - onde a felicidade estará garantida, irretocável, como em anúncio de cartão de crédito.

Desanda-se a estudar pacote de hotel (para ficar indignado com os preços), perguntar aos amigos o que vão fazer (para descobrir que ninguém tem certeza de nada) e negociar a programação com o cônjuge/namorado, para convencer o outro do que nem se tem certeza.

Entre o estresse da novidade e o tédio do conhecido, só há uma outra opção: deixar que os outros decidam por você – como direito a poder reclamar depois.

Eu prefiro arriscar. Claro que procuro identificar – e evitar – alguns micos básicos, como os dias de filas no aeroporto e o congestionamento para a Região dos Lagos. Mas reconheço também já ter cometido programações obviamente micadas, enebriada pela visão de alguns dias no paraíso-que-acabará-com-todo-o-estresse-do-ano.

Desta vez, enquanto todos estiverem enlouquecidos comprando presentes e procurando vaga nos shoppings, na semana que vem, estarei na Bahia. Na noite de Natal, quando começar o vaivém noturno para dar conta das “passadinhas” nas ceias familiares, estarei em Búzios.

Antes que o balneário fique insuportável, pego a estrada no contra-fluxo, e volto para o Rio. Fogos em Copacabana? Nem pensar. Vou para a Lagoa.

Pode dar errado? Sem dúvida. Aí tenho um bom motivo para mudar tudo no ano que vem.

11 de Dezembro de 2007

Policial à antiga

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 10:46

A fabulosa Helen Mirren, que estrelou “A rainha”, tem reduzido minhas noites de sono às segundas-feiras. Ontem novamente não consegui desgrudar de “Prime suspect”, série policial britânica dos anos 90 que o Telecine está reprisando.

Interrogatórios enfumaçados pelas baforadas dos policiais, computadores de tela preta e letras verdes e o ambiente machista da trama nos fazem lembrar que os tempos eram outros. Nada a ver com as séries americanas que bombam hoje na TV a cabo, com policiais charmosas, duronas e impecáveis, recém saídas do cabeleireiro.

O curioso é que os personagens antigos, apesar de fumarem loucamente e dispensarem recursos tecnológicos nas investigações, parecem muito mais reais que os dos seriados de hoje.

A detetive sem botox retoca o batom no banheiro, toma fôlego e engole o nervosismo, antes de enfrentar a platéia masculina que a aguarda em uma reunião. Depois de um dia exaustivo, chega em casa atrasada e não consegue fazer o jantar pedido pelo namorado, que a acusa de deixá-lo em segundo plano.

Perto disso, as tentativas de se humanizar os personagens dos seriados atuais parecem patéticas. Com seus diálogos inteligentes e inverossímeis, as novas séries policiais fingem abordar “problemas pessoais” ou “questões psicológicas” de seus heróis, quando na verdade o que está em evidência é a agilidade do roteiro ou o aparato de novidades tecnológicas.

Claro que estas séries também têm seus atrativos, são muito bem realizadas e pontuadas por viradas surpreendentes. Mas, em matéria de personagens, os que fumavam e tinham marcas de expressão na testa parecem infinitamente mais interessantes do que os engomadinhos atuais…

6 de Dezembro de 2007

Blog no POP

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 15:48

Se não teve foto na web, então não teve festa. A frase é de uma adolescente e foi citada por Juliana Jabor, antropóloga que deu um curso sobre “blogs e narrativas de si” no POP (Pólo de Pensamento Contemporâneo, um lugar bem mais simpático do que a Casa do Saber).

Professora e alunos compartilharam naquele espaço, meio perplexos, a confusão que existe hoje entre mundo real e virtual. Já proliferam livros e teses sobre blogs e os impactos das novas tecnologias - e dá vontade de devorar todos.

Mesmo sem tê-los lido (ainda), euzinha, que só assisti duas aulas, sinto que minhas impressões precisam ficar registradas aqui, para não se perderem (ou seria para existirem?).

Então vamos lá. Acho que a necessidade de registrar e exibir para os outros a própria felicidade sempre existiu. Com a internet e sua mobilidade, isso ficou tão ágil que a validação deste “real”, por meio de registros, se tornou obrigatória.

As experiências e os conhecimentos PRECISAM ser compartilhados para terem sentido.

É bacana que seja assim. Não é fácil para mim, que sempre prezei a discrição, reconhecer que instantâneos da vida podem ser editados e exibidos por aí. Mas a verdade é que este é um processo transformador da realidade, está mudando hábitos e pessoas, e por isso é muuuuuito interessante.

Seria fácil criticar aqui o exibicionismo dos adolescentes, dizer que não tenho paciência para reality shows e ignorar que estamos diante de um fenômeno definitivamente novo – que só por isso vale a pena aceitar sem preconceitos.

Em relação ao meu blog, o curso me deixou embatucada. Seria o Espuminha “endo” ou “ex” orientado? Sim, porque aprendi que, a grosso modo, os blogs são identificados como confessionais ou voltados para fora, como os especializados.

Ao mesmo tempo, surpreendi-me com as comparações entre blogs e diários. Quem costuma escrever sabe que sempre pensamos em quem vai ler. Às vezes nos flagramos querendo agradar, ou passar uma imagem nossa, para alguém em especial – e isso é um problema no jornalismo, quando o repórter pensa na fonte ou no editor, em vez do leitor.

Mas quer dizer que as pessoas não fazem mais diários íntimos e realmente secretos, imaginando que só serão lidos depois de sua morte? Que pena. É uma experiência muito rica. E completamente diferente de escrever um blog, posso assegurar do alto de uma pilha de caderninhos bem escondidos no armário. Ih, acho que estou confessional hoje…

5 de Dezembro de 2007

Encarando o shopping

Arquivado sob: Comportamento — Marta @ 08:56

- Como é o seu nome?

Às vezes penso em responder um nome bem escalafobético, para me divertir um pouco. O nome é a senha para poder entrar na cabine e experimentar a roupa. Há uma grande chance de, pouco depois, a vendedora perguntar novamente pelo nome (já esqueceu; imagine quantos ouve ao longo de um dia de dezembro) ou, pasmem, inventar um apelido.

Como não é fácil dar apelido ao meu nome, só soube do hábito pela minha colega de inglês Fernanda.

- E aí, Fê? A roupa ficou boa?

Claro que ela ainda nem acabou de se vestir e fica ainda mais irritada pela falsa intimidade. A difundida técnica de vendas, pelo menos no caso de Fernanda, sai pela culatra. “Odeio fazer compras”, desabafou na última aula.

Eu até que me divirto. Mas aí, quando já estou saindo serelepe com minha sacola…

- Você não quer fazer um cadastro com a gente? É rapidinho.

É isso aí, pessoal. Feliz boas compras de Natal!

3 de Dezembro de 2007

Contagem regressiva para o verão

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:54

O vento encanado ainda ronda a zona sul. Ainda não é verão, vale lembrar. Antecipar a estação, assim como o Natal, pode ter utilidade para o comércio, mas não funciona muito na prática. Por conta das instabilidades primaveris, convém carregar um casaquinho, um guarda-chuva.

Mas a moda das vitrines, faz um mês, prega vestidinhos coloridos, soltos e… beeeem frescos. Então as meninas de Ipanema fingem não estar com frio, para exibir os modelitos recém comprados.

É fácil identificar também as vendedoras de butique, andando pelas ruas com as roupas mais estampadas, e um pouco extravagantes para quem ainda não se acostumou aos novos modismos. Shorts bem curtos e vestidos que parecem camisolinhas são desfilados com algum constrangimento.

Para quem não sabe, as roupas costumam ser emprestadas pelas lojas às vendedoras, antes de voltarem às prateleiras, devidamente passadas. Usar roupa alheia não deixa ninguém confortável, ainda mais quando se está com frio…

Mas o verão vem mesmo - não é enganação. Logo as meninas estarão à vontade, com seus bronzeados. Nós estaremos torrando na rua, buscando as sombras, e achando a nova moda o máximo.

Há os que odeiam e os que adoram o verão. Ninguém fica indiferente a ele. Admito que estou no time dos que curtem o clima de festa no ar, a disposição para ser feliz. Até os inconvenientes, depois, viram piada. Ou quem sabe posts…

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