Novembro 2007

Arquivo Mensal

É de pequenino que…

Publicado por Marta em 30 Nov 2007 | sob: Femininas

Sempre que as mulheres reclamam do quanto os homens são imprestáveis em casa, folgados e machistas em relação às tarefas domésticas, fico pensando que foi uma mulher quem os educou assim.

Não tenho filho homem para dizer como isso funciona na prática, mas imagino que as amigas que os têm estejam atentas ao assunto.

De qualquer forma, fica o espanto de como isso perdura: homens que jogam a roupa suja no chão, deixam a toalha molhada na cama, esperam que alguém lhes sirva a comida e ainda reclamam se alguma coisa está fora do lugar!

Vi um filme na semana passada em que os homens eram exatamente assim – e parecia um documentário. Em “A casa de Alice”, a pobre protagonista teve três filhos homens, que em algum momento deixaram de ser crianças fofas para se tornarem homens imprestáveis, com idades entre 17 e 21 anos.

Os garotos têm no pai o pior exemplo possível, é verdade. Mas nos detalhes da rotina doméstica – pano de fundo para o drama da mulher quarentona e sem perspectivas na vida – vamos descobrindo o real motivo para aquela situação.

A avó resignada e amorosa trata os quatro marmanjos como se fossem bebês, fazendo-lhes o prato e ignorando suas reclamações levianas. Cumpre quase confortável o seu papel de servir os homens e manter a frágil harmonia familiar.

Mulheres que educam filhos e netos para serem homens imprestáveis estão por toda a parte, independentemente de classe social. Fiquei estarrecida na primeira vez em que percebi não se tratar de um fenômeno comum apenas aos “filhinhos de papai” das classes mais abastadas.

Tive uma empregada que tratava seu filho mais velho como um rei. As filhas não tinham moleza, mas para atender aos caprichos do rapaz era capaz de fazer faxina extra, trabalhar noite e dia. Chegava a bater as pestanas quando falava dele, e sempre justificava seu mau desempenho escolar.

Em um jornal onde trabalhei também havia uma secretária assim, mulher forte e inteligente, que andava de trem e economizava cada tostão para pagar a prestação do carro do filho desempregado. Quando o automóvel espatifou-se em um poste, sequer ficou revoltada.

Certamente fazia o seu prato à mesa. Talvez tenha até sentido algum orgulho quando o seu “homenzinho” reclamou a primeira vez da comida, com voz grossa.

Que diabos acontece com as mulheres, que se emanciparam mas continuaram incapazes de formular um novo modelo masculino para seus filhos? E não me venham falar que o exemplo masculino se reproduz sozinho, porque todas sabemos que meninos são criados por mulheres – mães, avós, babás, professoras.

Deve haver explicações psicanalíticas, claro. Mas tenho esperanças de que estejamos apenas numa fase de transição. Quem sabe minha filha não precise reclamar da roupa suja no chão…

Em tempo: casar com homem que já morou sozinho ajuda!

O maravilhoso mundo das marcas

Publicado por Marta em 28 Nov 2007 | sob: Comportamento

Ela precisava de um tênis novo para o colégio. Toda criança, aliás, vive precisando de um. Nos últimos tempos, já tinha detonado um das Superpoderosas e outro das Princesas. Antes, foi um da Minie ou do Piu-Piu, não estou bem certa.

Mas aí veio a surpresa: “Mãe, não quero tênis de personagem”, comunicou. “Tem certeza?”, perguntei, adorando e contabilizando a economia de alguns reais.

Ela tinha. Ultimamente, deu para discriminar as brincadeiras “de bebê” e reclamar quando falo algo no diminutivo. “Não é a BARRIGUINHA que está doendo, mãe; é a barriga.”

Ok, maravilha, livrei-me da ditadura das grifes infantis disfarçadas de personagens lúdicos e tradicionais dos contos de fadas.

Lembro que comecei a desconfiar que os tais personagens licenciados eram uma suave introdução dos miniconsumidores no universo das marcas por causa da Barbie. Enquanto minha filha amava a Ariel, da Pequena Sereia, tudo parecia fazer sentido. Mas quando ela pediu uma mochila da Barbie…

“Barbie é boneca”, corrigi, para depois descobrir que era o guarda-chuva de dezenas de produtos licenciados. Pois é, tinham inventado uma personagem para vender a marca. Uma personagem um tanto fajuta, mas sustentada por DVDs anuais com referências literárias, balé e música clássica.

Não tenho dúvidas sobre o quem vem a seguir. Ela percebeu que as meninas maiores, que quer imitar, não usam tênis de personagem. Quanto tempo vai demorar para descobrir que calçam Nike, Reebok ou outra marca bem posicionada para atrair o público “tween” (fusão de teen e between, usada para designar a faixa etária entre crianças e adolescentes)?

Melhor eu aproveitar a economia de agora, pois não sei quanto isso vai durar…

Pelo menos agora, quando ela pedir uma grife menos “lúdica”, talvez fique mais fácil introduzir um discurso contra o consumismo etc e tal.

Anticlímax

Publicado por Marta em 28 Nov 2007 | sob: Cotidiano

Não sei não, mas essa história de TV digital está me lembrando o bug do milênio…

Nada vai acontecer tão cedo, muito menos de sopetão. Mas já que o assunto está na pauta do dia (adivinha quem o colocou lá), todo muito quer lucrar o seu quinhão.

Ah, para quem já se contagiou: não fique frustrado não. A TV digital já existe, na internet!

Vale a pena sair do armário?

Publicado por Marta em 27 Nov 2007 | sob: Comportamento

Digamos que você tenha um segredo. Um esqueleto no armário. Não necessariamente algo vergonhoso, mas que certamente não seria bem compreendido pela maioria das pessoas.

Em algum momento, para se proteger, você preferiu guardar aquilo para si, ou para alguns poucos confidentes. Algo na sua família, no seu passado, uma crença, uma preferência.

O assunto é recorrente em relação ao homossexualismo. Todos conhecem alguém que prefere não assumir publicamente a sua orientação sexual (é o termo politicamente correto, não?). E outros tantos que atestam ser mais felizes depois de ter saído do armário.

Ultimamente, por conta do livro “Deus, um delírio”, de Richard Dawkins, a discussão chegou ao ateísmo. O autor defende que os ateus não só saiam do armário como desfraldem a sua bandeira, em função dos males causados por muitas religiões.

E o ateu que tem uma certa inveja dos crentes, como eu, o que faz? Recomendo que fique bem quietinho.

Para início de conversa, tenho minhas dúvidas sobre a utilidade de se sair por aí, em qualquer roda, revelando-se gay ou ateu. Ninguém é contra gays ou ateus, da mesma forma que não existe racismo no Brasil. Ou seja…

Podemos também reconhecer que há, sim, preconceitos. Terríveis, arraigados, que deveriam ser combatidos, desmascarados. E você, que tem o seu segredo bem guardado, teria a obrigação de lutar para derrubá-los.

Será?

Na adolescência, faz todo sentido defender posições sobre assuntos controvertidos. Os jovens hoje em dia também gostam de revelar segredos de família, que em outros tempos seriam sussurrados. Faz o maior sucesso. Quem viu o filme “Meu tio matou um cara” (excelente, do Jorge Furtado) sabe do que estou falando.

Só que, na maturidade, esse desgaste às vezes parece um tanto desnecessário.

O problema, basicamente, é que não existe a opção de apenas sair do armário. Dependendo do assunto, é preciso sair e empunhar a tal bandeira, transformar a vida numa causa – quando, na realidade, aquele pode ser apenas um dos muitos aspectos da sua individualidade. Simplesmente não tem a dimensão que os outros vão atribuir, quando você decidir lhes revelar.

Mas cada um sabe o tamanho do segredo – ou da bandeira – que consegue carregar…

O custo da exposição, para muitos, parece valer a pena. Especialmente se a idéia é escrever um livro, como Dawkins, e ganhar muito dinheiro com ele.

Sutilezas à mesa

Publicado por Marta em 23 Nov 2007 | sob: Comportamento

Era um pai que não costumava sair muito com o filho. Talvez separado. O fato é que estavam os dois, mais um cachorrinho, na sorveteria, pedindo uma casquinha. O menino, uns 6 anos, era daqueles hiperativos. Ou seja, normal.

Foi então que o pai resolveu ensinar o filho a tomar corretamente um sorvete de casquinha. “Você vai lambendo em volta e empurra a bola do sorvete para dentro da casquinha, com a língua.”

Confesso que, nessa hora, me virei para entender a técnica. O garoto parecia não ver muita utilidade naquilo, mas estava disposto a agradar o pai. Agora sim, tive certeza de que não moravam juntos.

O menino esqueceu o diagnóstico de DDA (distúrbio de déficit de atenção, para quem anda afastado do mundo infantil) e conseguiu cumprir relativamente bem a tarefa. “Isso mesmo, filhão”, ganhou em troca.

Na hora, me lembrei que lá em casa aconteceu ao contrário. De tanto observar minha filha deixando o melhor pedaço para o fim – chamado por ela de “o grande final” – me flagrei usando a mesma técnica outro dia.

Claro que, até chegar neste estágio, segurei um bocado a minha onda para respeitar o seu jeito de comer. Como assim o feijão não pode “sujar” o arroz no mesmo prato??? Contava até dez e colocava o feijão separado.

Respeitar as peculiaridades do ato de comer do outro é praticamente uma prova de amor.

A propósito da tese, tem uma cena bem bonitinha em um filme que passa sempre na TV, com Barbra Streisand e Jeff Bridges. Ele, o bonitão egoísta, para provar que de fato ama a feiosa sensível, jura admirar sua manias esquisitas, como a de juntar meticulosamente os alimentos em uma garfada perfeita.

Está apaixonado, claro. O mesmo comportamento, depois de 20 anos de um casamento tedioso, poderia parecer até repulsivo a um cônjuge irritado…

Moral da história: respeitadas as regras básicas de etiqueta à mesa, o melhor é deixar cada um se saciar do jeito que mais lhe comprouver.

Esses coleguinhas…

Publicado por Marta em 22 Nov 2007 | sob: Jornalismo

Uns anos atrás escrevi um artigo para o Comunique-se, site de comunicação e jornalismo, sobre os efeitos do enfraquecimento das redações, enquanto as assessorias de imprensa se fortaleciam. Não sei como, mas um assessor conseguiu achar, naquele texto, uma grave ofensa ao trabalho das assessorias.

O que se seguiu foi uma baixaria sem fim nos comentários. Alguém, que eu não conheço, tentou me defender, retrucar que ele não havia entendido o artigo. O sujeito ficou ainda mais ensandecido.

Acompanhei tudo perplexa, e completamente arrependida daquela minha primeira incursão na internet. Mas aprendi uma lição: todo cuidado é pouco quando se trata da relação entre jornalistas e assessores.

Por isso, depois que escrevi o post abaixo, fiquei pensando: alguém pode ficar ofendido por eu ter citado um assessor incompetente? Achariam que é uma generalização?

Hummm, todo cuidado é pouco… Além disso, tenho uma penca de amigos em assessoria – a maioria, na verdade, já que depois dos 40 poucos agüentam ficar em redação.

Por isso, agora vou falar mal dos jornalistas. Sim, aquelas figuras odiosas e sem coração, capazes de tudo por um furo – chegaram até a matar a Lady Diana!

Brincadeirinha…

Mas de fato existem boas histórias de maus jornalistas. Hoje, na coluna Gente Boa, do Globo, tem uma: no lançamento do livro do Nelson Motta, uma repórter encontra Marília Pera na fila dos autógrafos e dispara: há quanto tempo conhece o autor? Ela responde: “Fui casada com ele, temos duas filhas…”

Mas quem espinafrou mesmo a categoria recentemente foi a ginasta Jade Barbosa. Ela contou ser perseguida há anos por repórteres que cochicham em seu ouvido, quando sobe ao pódio: “Você pensou em ganhar essa medalha para a sua mãe?”

A mãe de Jade, que tem 16 anos, morreu quando ela tinha 11. “Eles sempre tentam me fazer chorar”, desabafou a menina.

Em mesa de bar, os jornalistas sempre têm histórias terríveis de coleguinhas, algumas bem mais próximas. Quem quiser saber de alguma, é só puxar a cadeira.

Tem alguém aí?

Publicado por Marta em 21 Nov 2007 | sob: Comportamento

Não sei se a culpa é do Prozac ou da disseminação da cultura do telemarketing. O fato é que tenho me deparado ultimamente com pessoas que simplesmente não interagem. Elas repetem uma mesma frase, com algum gerúndio embutido, e não contra-argumentam.

Já vivi uma história assim com uma vendedora. Na segunda-feira, quase fui à loucura com uma assessora de imprensa. Relatei calmamente o meu périplo até aquele momento, fui sugerindo alternativas como tentarmos outra fonte ou uma entrevista por email.

Como ela continuava muda, experimentei: “Então, o que você acha disso tudo?” Ela respondeu, em tom monocórdio: “Continuamos tentando agendar a sua entrevista”. Só faltava ter completado: “Sua ligação é muito importante para nós.”

Respirei fundo. “Hellooooo!” Toc, toc, toc. “Tem alguém aí?” Não falei, mas foi o que pensei.

Será que estas pessoas são escolhidas para desempenhar suas funções justamente por serem capazes de ter “reações” assim? É uma hipótese…

Estamos na era do “empurre com a barriga”, “sobreviva ao seu dia” e, principalmente, “o importante é não perder a pose”.

No universo corporativo, então, nem se fala. Como a lição primeira é “jamais fale o que está pensando”, as pessoas vão desaprendendo a pensar, para não correr riscos.

Que coisa.

A tal da interatividade

Publicado por Marta em 19 Nov 2007 | sob: Comportamento

Nunca fui muito “tecnológica” e resolvi me aventurar em um blog com o único intuito de entreter os amigos, em troca de aprender sobre o assunto. Pois chegou a hora de dividir um pouco este aprendizado.

Pelo mesmo motivo que os livros de auto-ajuda não adiantam patavina, descobri que a tal da interatividade na web só faz sentido para quem mete a mão na massa. Ou seja, precisa vivenciar, para entender de verdade.

Pode parecer óbvio, mas não era para mim. Sempre que ouvia falar da tal da web 2.0, de conteúdo compartilhado, interatividade etc, tinha uma ponta de dúvida sobre os interesses que moveriam as pessoas a se doar tanto, “a troco de nada”.

Sabe aquela história de que não existe almoço grátis? Pois é, sempre fez muito sentido para mim.

Com a experiência no Espuminha, porém, comecei a perceber o quanto pessoas motivadas, cutucadas, que tenham um espaço para se expressar livremente, supreendem até a si próprias, de tão capazes e originais.

Poderia estar falando de mim mesma, impelida e adorando escrever aqui diariamente, mas estou me referindo aos comentaristas do blog.

Os comentários do post abaixo, “Dia de chuva”, estão maravilhosos. Graças a uma catucada, digo, divulgação do blog, eles ficaram, em conjunto, muito mais interessantes que o post. Já tinha acontecido várias vezes.

Para mim, isto é descoberta em estado bruto – percebo que ainda vai me gerar entendimentos sobre muita coisa que está mudando no mundo.

A web, devidamente experimentada, vai criando nos internautas aquela certeza de que o troco – ou seria a troca – acaba vindo, de uma forma ou de outra. A postura passa a ser de desprendimento, quase como aquela bondade pura na qual nem acreditávamos mais.

Calma, não vou começar a verter lágrimas e dizer que iniciamos uma “corrente do bem”. Claro que nem todos na internet são bonzinhos e deve haver uma penca de interesses e manipulações por aí.

Mas a interatividade finalmente está fazendo algum sentido para a desconfiada-mor aqui. E isso não é pouca coisa.

Dia de chuva

Publicado por Marta em 12 Nov 2007 | sob: Cotidiano

Que outra profissão você gostaria de ter? Não vale pensar naquela cogitada nos tempos do vestibular. Tente soltar a imaginação, sem preconceitos.

Hoje, quando cheguei ao prédio do meu escritório, estressada pelo trabalho e pelo trânsito caótico de um típico dia de chuva, imaginei-me em outra profissão: professora de música para bebês.

Sério. No terceiro andar do meu prédio, alguém (quem será o felizardo?) “ensina” música para bebês fofos, que enfileiram seus carrinhos no corredor. Subi no elevador com um deles, lindo numa capinha mínima de chuva. A babá informou: “Ele adora as aulas de música.”

Fiquei imaginando a “aula”, provavelmente com instrumentos de, digamos, percussão. Que alegres os bebês devem ficar. Depois, quando começam a ficar chatinhos, choramingar, pronto! Acabou a aula! E lá vem outro bebê fofo.

É verdade que não sei tocar um instrumento, nem ouvido muito musical tenho. Mas isso são detalhes, que já teria resolvido com uma boa formação.

Ok, eu estava viajando na maionese. Já fiz coisas assim antes.

Lembro que uma vez, apurando uma matéria pra lá de delicada, vi um senhor pilotando um cortador de grama, no imenso jardim da empresa onde eu estava. Morri de inveja; queria trocar de lugar com ele, na hora.

Nada como idealizar a vida, e a profissão, alheia, não é mesmo? Ainda mais assim, em um dia triste, de chuva.

Qualidade de vida dentro do carro???

Publicado por Marta em 09 Nov 2007 | sob: Rio

Os moradores do Cosme Velho, simpático bairro do Rio, viveram por alguns dias um dilema de muita gente nas grandes cidades: é melhor morar perto (do trabalho, do centro etc) em um lugar tumultuado ou distante, em um local tranqüilo, com mais espaço e natureza?

Tudo porque o acesso ao Túnel Rebouças fechou, e, por alguns dias, o Cosme Velho viveu os momentos bucólicos do passado. Nostalgias à parte, parece que, depois de alguns dias enfrentando o trânsito caótico de Laranjeiras para chegar em casa, os moradores já preferiam os inconvenientes de ser um bairro de passagem.

No Rio, de vez em quando, alguém conhecido se muda para a Barra da Tijuca, “em busca de qualidade de vida”. Em São Paulo, são os condomínios ou bairros novos, distaaaaantes, que atraem o sonho de muita gente de na hora de mudar de casa.

Sinceramente, não entendo como alguém pode ter mais qualidade de vida levando três horas por dia no trânsito. Não tem barulhinho de grilo à noite que desestresse quem dirigiu o dia inteiro, e ainda perdeu horas de seu escasso tempo com isso…

Saia pela porta da frente

Publicado por Marta em 07 Nov 2007 | sob: Femininas, Diversão e arte

O filme “papo-relação” do momento é “O passado”, de Hector Babenco. As mulheres são insuportavelmente dominadoras e neuróticas. O homem-vítima, vivido pelo gracinha Gael Garcia Bernal, é um sujeito de personalidade fraca, que suporta calado todo tipo de devaneio feminino.

Como sempre acontece nos amores caracterizados pela dobradinha dominador-dominado, de longe os relacionamentos parecem inverossímeis. Como alguém se submeteria - e estimularia - aquela situação? Mas acontece, sim, de forma assustadora.

Não estamos falando de uma característica feminina ou masculina, mas humana. Mulheres também se submetem ao jugo masculino - no passado (!), então, com bastante freqüência.

Em outro filme, que gostei mais, a situação inversa é exposta com o mesmo tom caricatural (perfeito para contar histórias assim), mas com um toque de delicadeza.

Em “Garçonete” logo simpatizamos com a personagem título e tentamos compreender a sua submissão, atribuindo-a à ameaça física ou financeira imposta pelo marido neurótico. No final, fica claro que não existe dominador sem alguém disposto a ser dominado. Quando se encontra uma motivação, basta sair pela porta da frente.

No caso da garçonete, a força vem de um bebê, que ela pensa odiar. O filme é especialmente tocante para mulheres-mães. Só elas já sentiram aquela energia sobre-humana, que surge do nada, nos momentos críticos da maternidade.

Para quem gostou de “Pequena Miss Sunshine” ou de “O fabuloso destino de Amélie Poulin”, o filme é imperdível.

Boa sessão de cinema.

Vivendo para trabalhar

Publicado por Marta em 05 Nov 2007 | sob: Comportamento

O mundo do trabalho, hoje, divide-se em dois: o das pessoas absolutamente sobrecarregadas e o das outras. As sobrecarregadas são facílimas de se identificar, e estão por todo lado: elas não dão conta de todas as tarefas, sofrem, se enrolam, falham, esquecem das coisas. As outras também são ocupadas, mas têm tempo para se lembrar das coisas.

Vamos às coisas esquecidas (ou não): o aniversário do amigo, o dentista antes da dor de dente, os sites favoritos na internet, o compromisso não marcado na agenda, a orientação para a empregada, as fotos que precisam ser impressas, os livros empilhados na cabeceira.

Quem transita pelos dois mundos do trabalho, como eu, logo percebe o absurdo de se levar a vida tão sobrecarregado, 365 dias por ano. É como se as pessoas adiassem a vida para as férias, ou para o dia em que mudarão de emprego.

Elas têm compensações, claro. São produtivas, ganham algum dinheiro, têm seu mérito reconhecido por todos, sentem-se integrantes de um mundo dinâmico que parece ser o único existente – quem está fora dele simplesmente não conta.

Outro ganho, daqueles para ser descoberto no divã, é que se tem desculpa para todo tipo de problema na vida pessoal (amores mal-sucedidos, filhos problemáticos, obesidade etc).

A pessoa que trabalha enlouquecidamente tem uma convicção: ela não tem outra alternativa.

Esta é a cultura americana de trabalho – e não a européia. Foi a que se impôs no Brasil. Seus resultados são questionáveis e existem estudos mostrando que os ganhos de eficiência e produtividade são limitados.

Mas há controvérsias. Todos nós conhecemos uma empresa que tritura seus funcionários e vai de vento em popa.

Para quem vive, literalmente, sobrecarregado, aí vai um modesto conselho: faça disso apenas uma etapa. Existem, sim, alternativas. A vida fora do mundo enlouquecido do trabalho pode ser igualmente palpitante. Além de muito mais interessante.

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Confesso, o assunto surgiu porque estou enlouquecida. Mas por pouco tempo. Se o blog falhar, saibam que eu vou voltar…