A Airbus está lançando o maior avião da história, com capacidade para 853 passageiros. A imprensa em peso deu a notícia, com direito à foto de uma das quatro suítes disponíveis no jumbo, com cama de casal salpicada de pétalas de rosas.

Para completar a divulgação glamourosa, arrumaram como personagem um britânico excêntrico que pagou US$ 100 mil para ser reconhecido como o passageiro número 1, na viagem inaugural de Cingapura a Sidney.

Tudo muito curioso, interessante e … providencial, para que viajantes do mundo inteiro não percebam a incompetência do setor aéreo em resolver os problemas que de fato infernizam suas vidas.

Sim, porque nem eu nem você vamos pernoitar naquela cama de casal da foto. Mas, talvez, daqui a alguns anos, estejamos na fila do check in que vai embarcar… 853 passageiros!

Alguém consegue imaginar que, junto com o superjumbo, algo vai mudar na estrutura dos aeroportos ou na qualidade dos serviços das companhias aéreas? Com que antecedência um passageiro da classe econômica precisará chegar ao aeroporto? Qual o tamanho das filas (check in, polícia federal, embarque) que vai enfrentar?

Mas, claro, se o destino é Paris, releva-se a espera, o desconforto, o cheiro ruim dos banheiros. Pensaremos no glamour de viajar no maior avião do mundo e tentaremos relaxar e gozar, como diria a outra Marta. Além disso, na classe econômica, será oferecido um videogame em três dimensões!

Então, já sabe: nada de se estressar quando o piloto informar que o avião ficará dando voltas em cima da cidade, por causa do tráfego aéreo. Quando o A380 aterrissar, tenha paciência para esperar que umas 800 pessoas desembarquem na sua frente. Não esqueça que eles ainda serão acomodados em ônibus (quantos?), para então começar a peregrinação do desembarque propriamente dito, incluindo a megafila da imigração.

Ah, você perdeu a conexão depois de tantos atrasos e teme ficar sem a mala? Humm, que azar, né? Mas, não querendo ser chata, olhe bem a expressão dos funcionários diante do seu desespero: isso acontece o tempo todo! E, sinto informar, a crise não é só no Brasil…

A verdade é que a tecnologia da aviação estacionou há décadas. Continuamos levando o mesmo tempo para atravessar o Atlântico – em poltronas cada vez mais apertadas, para dar conta da explosão da demanda por viagens longas.

Enquanto as comunicações ganhavam a velocidade da internet e os trens passavam a deslizar como balas, nos acostumamos ao desconforto das viagens aéreas. Às companhias, diante dos poucos avanços no setor, restou o caminho da massificação, e do nivelamento por baixo dos serviços prestados.

Mas quem ama viajar, como eu, vai fazer o quê? Bem, pelo menos vamos reclamar, ou mostrar que não somos tão bobos.

Na próxima divulgação, menos pétalas de rosas, por favor.