O trabalho de não fazer nada
Publicado por Marta em 08 Out 2007 | sob: Femininas, Jornalismo
Educar um filho é uma experiência rica e interessante – mas não é para distraídos nem preguiçosos. Adorei a frase, da psicoterapeuta Lidia Aratangy, que assisti ontem no programa da Marília Gabriela, no GNT.
Inteligente e articulada, a entrevistada (e não a entrevistadora, por mais que esta quisesse transparecer as mesmas qualidades) tocou em um ponto extremamente sensível para mim: a dificuldade de ver o filho sofrer e se frustrar.
Uma mãe atenta, quando o filho tosse a noite inteira, descabela-se no dia seguinte para vê-lo curado; leva ao pediatra, faz até simpatia. Agora, o que fazer se aquele serzinho amado, tão despreparado para as relações humanas quanto para a tosse, chega da escola relatando que foi rejeitado pelos amigos?
Até onde uma mãe deve ir, para ajudar o fiho? Deve correr para marcar uma reunião com a professora? E que tal sugerir que ele leve um brinquedo novo para a escola, para atrair a amizade dos amiguinhos interesseiros?
Provavelmente a resposta certa é: deixe o seu filho se virar sozinho. Como você fez com os talheres ou o cadarço do tênis.
Só que não vale ter chegado a esta “solução” por preguiça ou distração. Educar não é para preguiçosos nem distraídos, lembra Lídia, com pertinência. Educar dá trabalho. Ou seja, tem que ter sofrido com o sofrimento do filho, perdido tempo com esse e outros problemas que de fato exigiam ação e, finalmente, se segurado para não fazer nada a respeito da sua frustração.
Irrita-me profundamente quando a mãe relapsa, desligada ou autocentrada torna-se exemplo por ter criado um filho independente e autônomo. Ela é considerada o contraponto da mãe superprotetora, que estraga a criança.
Nada mais injusto. A distraída, ou preguiçosa, pode até ter acertado (sem querer) em alguns pontos, mas em quantos outros o filho precisou de uma mãe sintonizada, para orientá-lo, e não encontrou ninguém? Que abismo existe hoje entre os dois?
Prefiro correr o risco de ser superprotetora (me policiando para não ser) e continuar compreendendo (quase) tudo o que se passa na cabecinha da minha filha…
***
Sobre Marília Gabriela, depois do programa fiquei pensando por que cargas d’água todo jornalista de TV, com o tempo, fica competindo com o entrevistado no quesito atenção. Mas aí me lembrei do Roberto D’Ávila (por onde andará?), um dos poucos jornalistas da telinha sinceramente mais interessado em seu entrevistado do que na própria performance.
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“Irrita-me profundamente quando a mãe relapsa, desligada ou autocentrada torna-se exemplo por ter criado um filho independente e autônomo.”
Martinha, nunca vi um caso desses. Mães autocentradas geralmente têm filhos carentes e dependentes.
O Roberto dÁvila tem o programa na TVE, o Conexão Roberto d’Ávila, nos finais de semana, basta ir ao site, não sei o dia. Continua inteligente e educado, deixando o entrevistado falar. Pena que ele, por causa do brizolismo, tenha as portas fechadas na Globo/GNT. Agora, sobre criar pessoas independentes ou não, acho que vale a pena errar tentando acertar, não é tudo para o bem do filho? Não vejo problemas, só quem não gosta do seu filho é que não se incomoda com o que ele está sentindo e vivendo. Eu não tenho filhos mas percebo isso claramente nos filhos dos outros. O perigo é fazer todas as vontades e criar aqueles eternos adolescentes que só olham para o próprio umbigo e não conseguem se tornar adultos nunca. E a mãe de classe média não é a única a “estragar” os filhos. A faxineira da minha irmã se mata de trabalhar e quando chega em casa tem que providenciar tudo para as filhas. Ela se espantou em ver como eu sabia cozinhar e me virar, vejam só… Ela me contou que se chegar em casa, depois de um dia duro de trabalho e de uma viagem daquelas, e não fizer a comida, todo mundo morre de fome. Detalhe: as filhas _ gêmeas _ têm 19 anos. Para pensar…
Cris vc voltou!!!! Senti tanto sua falta. Pq sumiu?? Não faz mais isso, apesar de não nos conhecermos pessoalmente sua opinião é mto importante para mim.
E se eu não estou confundindo as “Crises”, estive forungando lá no Blogtalk, já vou adiantar que adorei tbm, só não tive coragem de comentar.
Bom sem querer ser chata, mas já sendo, eu conheço uma mãe autocentrada, não sei se ela chega a ser relapsa, acho que relapsa é forte demais, que criou filhos autônomos e independentes, pelo menos um deles - a minha.
Só que ela não fica se vangloriando que foi graças a ela, muito pelo contrário, ela admite que somos sobreviventes.
Pode ser, Cris, mas conheço adultos que sobreviveram a mães egoístas e se tornaram bem resolvidos. Acho que rola um instinto de sobrevivência… Conheço também crianças que parecem independentes, mas são agressivas e, talvez, carentes de afeto.
Essa Lidia Aratangy tem uma capacidade de nos deixar sem argumento. Não vi a entrevista, mas assisti uma palestra dela recentemente e me surpreendi com as colocações tão pertinentes dela. E pelo que vi lá e vejo em casa, realmente, criar filhos não é para preguiçosos mesmo. Ainda mais quando eles começam a se aproximar da adolescência. Aí sim as necessidades se intensificam. Que saudade da tosse durante a noite, amiga. Era mais fácil de resolver. Mesmo não sendo uma mãe relapsa, muito menos superprotetora, eu sofro com as rejeições, solidão, e todos os problemas que antes eu só pensava como resolveria na minha própria vida. Mas ai me lembro deles começando a andar e vejo que é preciso tomar uns tombos para ficar de pé. Enfim, nada que nossos pais não soubessem. Aliás, o que mais sinto falta é de poder conversar contigo sobre isso, minha grande colega de baia.
Gente, eu não acredito nas coisas que escrevo nesse blog. Conto coisas aqui, que não conto mais em nenhum outro lugar, só no terapeuta.
Essa foi dolorida, mas a Marta acertou em cheio, o chapéu serviu direitinho.
Egoísta é realmente o termo, eu não quis usá-lo antes para definir minha mãe para não ser cruel, mas é isso mesmo.
Meus filhos eu criei da seguinte forma: fiz tudo ao contrário do que ela fez. Fiz todas as concessões possíveis, tentei dar todo amor e atenção que pude. Dei limites tbm. E assim mesmo eu sei que errei. A gente erra. Ninguém é perfeito. Não existe criação perfeita, relação perfeita. Mesmo tentando acertar ouço de vez em qdo cobranças das coisas que não fiz. De coisas que nunca passaram pela minha cabeça fazer, pq simplesmente eu não sou advinha, ninguém é. Das vezes que deixei um sozinho pra ficar com o outro, e isso inclui o marido (que não deixa de ser outro filho na vida da gente). Portanto meninas não se cobrem, que por mais que vcs façam, cobranças virão.
Experiência de quem tem filhos de 26 e 22 anos. E olha que meus filhos são super independentes (profissionalmente) e sabem o que querem.
Marta,
Cada vez que paro para ler o Blog, penso pq não o faço com mais freqüência. Não tenho certeza se sou (super)protetora ou relapsa - será que consigo o meio termo? -, também me embanano na hora de dar gorjeta e nunca consigo entender bem as cores da moda….que sempre me parecem as mesmas com outro nome criativo (assim como os programas de melhorias de processos, dos brinquedos, dos tratamentos capilares…..
Mas essa mensage, era mesmo para desejar Feliz Aniversário. Não esqueci nem lembrei tarde, só não tenho como acessar a internet em casa (exclusão digital parcial ou doméstica, eu diria).
Beijos,
Márcia
Marta, Anna Lúcia, queridas!
voltamos a nos encontrar….agora longe das baias da redação…com as crianças paridas, crescendo - a gente também crescendo e aprendendo.
Fico emocionada com o reencontro, em saber que vocês estão por perto, também se perguntando sobre as coisas, tentando entender.
Muitos beijos e saudades.
ps. Não conhecia a psicoterapeuta, mas gostei do que ela disse. Vou anotar no meu caderninho!
Márcia, obrigada! Venha mais no blog, porque vc sempre me dá uma idéia para um novo post!
Andréa, que ótimo retomar o contato! Tenho muuuuuitas saudades dos nossos bons tempos de Gazeta. Vamos nos encontrar!
Beijos e beijos!
Acho que como mãe o maior desafio é dizer “não” - e explicar o porquê. Especialmente quando dizer o sim é tão mais simples.
Tento, entre outras coisas, fazer com que não se tornem consumistas extremados, transformando o ato de viver numa armadilha que se resume em comprar para se gratificar, pagar contas, trabalhar mais para comprar e se gratificar etc.
Quanto a acompanhar o desenvolvimento dos pimpolhos (os meus estão com 14 e 17), eu e Tião já fomos acusados de obsessivos por parentes (relapsos, autocentrados e preguiçosos) bem próximos porque somos cuidadosos com nossos filhos.
É difícil mesmo, não tem jeito. Mas é bom demais!
Marta,
não conheço essa terapeuta nem vi a entrevista, mas realmente ela está certa. A questão é: até onde devemos intervir? Acertar na mão é MUITO difícil, principalmente porque mesmo não sendo uma mãe superprotetora - acho que não sou por falta de tempo, porque se pudesse, seria - dá uma baita raiva de qualquer pessoa (seja uma criança, um adulto, um qualquer coisa) que faça nossos filhos sofrerem.
Estou desenvolvendo uma raiva (por enquanto sob controle) do melhor amiguinho do meu filho na escola. Ao observá-los juntos, percebo que o tal menino (quase um ano mais velho que o meu filho) provoca brigas deliberadamente com a intenção de “maltratar” o meu filho. Não pode, né?
Mas o que fazer? Intervir na brincadeira sem que seja solicitada? Não faço. Só entro na “história” quando vejo que correm perigo de sair no tapa ou de cair, ou coisa parecida. Mas fico de ouvido e olhos bem abertos o tempo todo que estou por perto e não deixo mais o meu filho ir brincar na casa do dito. Agora, o dito vem aqui. Só vai à casa do tal amiguinho quando tem outros meninos junto, caso contrário, arrumo uma desculpa e não deixo mesmo.
Em tempo, Marta: ainda sobre as reuniões de pais e mestres nas escolas… Fui á última do Vítor e vi, pela primeira vez, a professora dar dois contras diretos em um pai - que é um verdadeiro “pai candinha” e um mãe.
O tal pai reclamava que o filho só comia besteiras (batata frita e pastel) e a outra, que a filha era muito infatilizada. Por acaso, o tal pai e o pai do melhor amigo do Vítor na escola. As respostas da “tia”.
1) Como é que ele vai comer coisas saudáveis se você dá as porcarias?
2) Você trata sua filha como um bebê. Logo, quer que ela se comporte como?
Os dois ficaram com cara de tacho!
Ponto que quero destacar: jornalista-entrevistador que resolve virar personagem e, em lugar de inquirir, provocar, passa a fazer parte da matéria, “enriquecendo-a” com suas opiniões, gracinhas, trejeitos etc. Cansei de ver isso na cobertura das Fashion Weeks da vida, por exemplo. Eta coisa ruim que a TV anda impingindo à profissão. ..
CZ