Perto da tragédia
Nunca fui medrosa ou impressionada, e achava que acidente era algo terrível que só acontecia aos outros. Tudo isso mudou na época do acidente da TAM de 1996, muito semelhante ao que ocorreu ontem em São Paulo.
Por pouco o Zé não embarcou naquela ponte-aérea, acompanhando o colega de Ambev que acabou sendo uma das 99 vítimas. Como acontece em sucursal nessas ocasiões, todos os repórteres do Globo trabalharam intensamente na cobertura, inclusive eu. Mas acho que fui poupada, porque tinha passado maus bocados exatamente duas semanas antes, no Salão do Automóvel.
Era uma coletiva de imprensa, dessas que as empresas marcam durante as feiras de negócios para vender seu peixe. Os jornalistas estavam sentados, distribuídos em mesas espalhadas pelo estande da Volkswagen, esperando o início da coletiva, quando o chão faltou. Literalmente. Na hora em que escrevo isso fico toda arrepiada, porque me lembro exatamente da sensação.
O chão caía, tudo em volta despencava junto, inclusive as mesas com tampos de vidro, e não havia onde segurar. Nada fazia sentido. A luz se apagou junto com o estrondo, as pessoas gritavam e eu só conseguia sentir que estava vivendo uma tragédia. Daquelas que aconteciam com os outros.
Quando os destroços pareciam ter se acomodado, um coro de “calma!”, liderado por vozes masculinas, tomou conta do ambiente, iluminado por faíscas. Alguém me ajudou a tirar uma câmera de TV de cima do meu pescoço e eu só conseguia pensar em achar a minha bolsa. Por que cargas d’água alguém que achava que ia morrer procura uma bolsa?
A calma extrema das pessoas que evitaram uma situação de pânico, a minha preocupação com a bolsa e com o celular (um tijolão emprestado da agência) e o fato de ninguém ter morrido naquele acidente são partes dessa história que até hoje não entendo direito.
Como sempre acontece depois dos acidentes, fomos tomados pelo sentimento de revolta e pela busca de culpados. Estava cheia de hematomas, mas fiquei ali, passando flashes indignados, enquanto o Miguel Jorge - atual ministro do Desenvolvimento e então diretor da Volks - tentava minimizar o ocorrido e culpar a empresa terceirizada que montou o estande.
Muita gente se machucou feio e minha camisa estava cheia de sangue que não era meu. Mas por sorte não havia ninguém no primeiro piso, embaixo do chão que cedeu, então o acidente logo foi esquecido.
Por quase todos, mas não por mim. Quando o avião da TAM caiu, duas semanas depois, eu andava sobressaltada. Tremia com qualquer barulho forte e até hoje não suporto o ruído que essas divisórias de escritório fazem, quando são chacoalhadas.
A primeira vez que tive medo de avião na minha vida foi numa ponte-aérea pouco depois do acidente da TAM. Contei no relógio os segundos após a decolagem, tentando reproduzir o tempo que os passageiros tiveram antes de a aeronave se espatifar. Imaginei-os percebendo que estavam vivendo uma tragédia.
Pensei no amigo do Zé que morrera, deixando filhos, e em como o destino nos livrara da tragédia. Concluí que morrer de doença, devagar, talvez fosse melhor do que morrer rápido em um acidente, tomada pelo pânico e pela ânsia de sobreviver. Eu tinha me tornado uma pessoa impressionada e impressionável, de uma forma que nunca imaginei ser.
Com o passar dos anos recuperei meu otimismo prevalecente. Mas deixei de ser aquela pessoa despreocupada de antes. Descobri que ia morrer um dia, que a morte pode ser bem idiota e que às vezes acontece em tragédias de grande escala - como tsunamis, atentados terroristas e acidentes aéreos.
Nos resta torcer para estar longe delas e nos solidarizar com quem sofre por seus mortos queridos.
Nossa, Martinha, vc escreve bem demais!
Comentário de Cris — 30 de Julho de 2007 @ 23:13
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