Hoje foi meu dia de sorte. Peguei a antepenúltima senha para tirar passaporte, na enorme fila que tem se formado diariamente na frente da Polícia Federal, na Praça Mauá. Bem, foi mais ou menos sorte. Rolou uma dose de jeitinho.
Eu tinha acabado de chegar na fila, depois de um bravo esforço para madrugar, quando o policial apareceu contando o número de pessoas. “As senhas acabam aqui”, decretou, apontando um sujeito cinco lugares à minha frente. Eu ficaria de fora. Mas houve um burburinho, as mulheres fizeram beicinho. “Puxa, quebra o nosso galho”, sugeriu uma delas, em tom pedinte. Nisso, eu já era a penúltima da fila. “Está bem”, disse o policial. “Como é o seu nome?”, perguntou para a nova lanterninha. “Rosana”, respondeu a menina de uns 20 e poucos anos. “A fila vai até a Rosana”, estabeleceu.
Mas nesse instante chegava Janice. Cabelos longos, olhos grandes, também ameaçou fazer beicinho. “Está bem, vou arrumar senha até a Janice”, cedeu novamente. “Mas não deixem mais ninguém ficar na fila. Avisem que as senhas acabaram.” Respiramos os sete aliviados e nos entreolhamos, cúmplices.
Daí para frente, o que se passou foi muito curioso. Cada pessoa que chegava na fila era logo dissuadida a partir. “Acabaram as senhas”, avisava um de nós. Rostos desolados, partiam com suas pastinhas cheias de documentos. Até que uma menina resolveu ficar. “Não é possível”, afirmou. “Deve ter um jeitinho para entrar só mais um.” Confiante, começou a contar sobre o engarrafamento que pegara e a tentativa frustrada na semana anterior. Devia ser boa de beicinho.
Mas ninguém ficou à vontade para conversar com ela. O silêncio foi quebrado por Rosana: “Acho difícil você conseguir, porque o policial parecia bem durão”, mentiu.
Qual seria o limite do jeitinho, numa fila da Polícia Federal? Todos pensaram, mas ninguém comentou. Não sei se por influência do “papo-viagem” em volta, fiquei imaginando a fila para passaporte na Alemanha, em qual seria a reação de um policial se alguém pedisse para “quebrar o galho”.
Mas o limite, afinal, apareceu. Na figura de uma policial - esta sim, durona -, que acabou com as esperanças de novos retardatários que começavam a se aglomerar. E a fila acabou mesmo em Janice, que, horas depois, parecia amiga de infância de Rosana - algo no mínimo improvável na Alemanha.