Maio 2007

Arquivo Mensal

Filme que eleva a alma

Publicado por Marta em 31 Mai 2007 | sob: Diversão e arte

Traumatizada com “Baixio das bestas”, andei fugindo de filme baixo astral. Nessa de ler antes a sinopse para evitar depressões desnecessárias, acabei demorando para ver um filme ótimo. Chama-se “Olhe para os dois lados”. Como o filme parecia ser sobre morte, fui adiando. Que ironia, porque o filme é uma contundente celebração à vida.

Sabe aquele sentimento que surge quando nos deparamos com uma morte nem tão próxima que nos desequilibre nem tão distante que nos pareça banal? Percebemos que os nossos grandes problemas são bobagens e que a delícia da vida está nos pequenos momentos. Pena que, exceto para budistas e outros privilegiados, esse estágio elevado dura pouco.

Ao contrário do que possa parecer, o filme não precisa apelar para nos colocar nesse lugar. A vida é colocada em perspectiva, a partir da constatação da inevitabilidade da morte, por personagens comuns, que de especial têm o talento de traduzir sentimentos em imagens - ele é um fotógrafo bem sucedido; ela, uma artista plástica fracassada. No lugar do blablablá filosófico sobre a vida, o filme nos inunda com torrentes de imagens, rápidas e súbitas como pensamentos.

É quase o contrário de “Baixio das bestas”, que usa a beleza plástica das imagens para dizer que a vida é uma merda, incluindo todos os seres humanos do planeta. Como diz Ferreira Gullar no documentário “Vinícius”, a vida é uma invenção; a gente pode inventá-la para o bem ou para o mal. Cláudio Assis, o diretor do filme brasileiro, definitivamente inventou a dele para o mal.

Dependendo da sua opção/invenção, escolha o seu filme. Particularmente, acho que “Baixio das bestas” não merece o sacrifício de ser visto. “Olhe para os dois lados” (Look both ways) ainda está em cartaz, apesar dos homens-aranhas e piratas do caribe terem invadido os cinemas. É um filme australiano, sem atores famosos, e de uma diretora desconhecida. Mas é bom guardar seu nome, Sarah Watt, e aguardar o que vem por aí.

Nós e eles

Publicado por Marta em 28 Mai 2007 | sob: Cotidiano

Depois de uma hora de espera no consultório da ginecologista, as três decidem que já são íntimas e começam a contar as histórias de suas vidas. A mais falante - duas faculdades e dezenas de viagens sugeridas “an passant” para a que vai casar - comenta o absurdo da aprovação automática na rede de ensino pública: “Os nossos filhos estudando como loucos e esses aí nem vão precisar, porque ainda por cima têm cotas para entrar na faculdade.” E eu preocupada com o futuro da filha da minha empregada…

Políticos mimados

Publicado por Marta em 24 Mai 2007 | sob: Jornalismo

A palavra é … mimo. Que pena ter parado no noticiário politico-policial, porque é uma palavra fofa. O Aurélio diz que mimo é coisa delicada, fina, que se oferece para alguém. Ou uma delicadeza, gentileza. Na política, parece ser sinônimo para o velho jabá - um assunto sempre difícil para jornalista. Mas vamos lá.

Já devolvi jabás contrangedores. Mas também ficaria constrangida em devolver jabás inocentes. Não peço convites ou favores para assessores de imprensa, mas prefiro não julgar quem faz. Na verdade, pedi sim, uma vez, no início da carreira, e o trauma foi tão grande que passei a fugir da situação. Era um show imperdível, a fila para comprar ingresso dava voltas no quarteirão. Eu falava sempre com o assessor do artista e resolvi pedir os tais ingressos. Tempos depois, ele tentou me “cobrar” o favor. Foi baixaria mesmo. O pior é que esse assessor (na época a gente falava divulgador) agora é figurinha conhecida. Por essa, e para evitar outras, adoro o conforto de pagar tudo com meu dinheirinho, embora muito jornalista considere os jabás uma espécie de salário indireto (pago pelo outro lado…)

Voltando ao noticiário, é engraçado ver os políticos admitirem com naturalidade que recebem presentes de empreiteiras. Imagina, se vão ser comprados por uma gravata! Agora, quando o mimo vem em cash…

No meu tempo…

Publicado por Marta em 23 Mai 2007 | sob: Rio, Comportamento

Tive a felicidade de herdar da minha mãe a falta de nostalgia. Essa história de ficar idealizando o passado é de doer. Outro dia li um comentário no Bluebus, a propósito da campanha publicitária de um automóvel, de alguém lamentando que as famílias hoje precisassem ter um DVD no carro para distrair as crianças nas viagens longas. Ah, no tempo dela as viagens de carro serviam para a confraternização familiar, adultos e crianças compartilhavam jogos educativos e eram muito mais felizes.

Não sei se porque certa vez contei 38 “Tá chegando?” da minha filha numa viagem até Angra, mas desconfio que a missivista tenha memória seletiva – como a maioria dos nostálgicos. Outro dia alguém se lamuriava de que o Leblon não era mais o mesmo. Claro que não! Saíram os pontos finais dos ônibus, chegaram os cafés charmosos e a Dias Ferreira, de mão invertida e sem ônibus, tornou-se um oásis no Rio de Janeiro. Tá bom, o Gordon deu lugar ao McDonald’s, mas nada é perfeito, não é mesmo? As mesmas pessoas que reclamavam dos banheiros fétidos dos botequins do bairro agora sentem saudades dos autênticos pé-sujos de antigamente.

Que fenômeno psicológico será esse, que faz as pessoas só recordarem as coisas boas do passado e reclamarem de tudo no presente? Ô povo mal-humorado…

Primeiras do blog

Publicado por Marta em 22 Mai 2007 | sob: Comportamento

Vítimas da moda

Finalmente. A moda de inverno está cabendo no nosso corpitcho. A calça legging voltou! E, melhor do que com os camisetões, ela veio com vestidinhos soltinhos. Agora nós poderemos ser como as tops da passarela, chiquérrimas. Nada aperta, nem salta. O truque para ficar na moda é o seguinte: vista sua calça legging (preta, por favor), coloque por cima seu vestidinho (pode ser até estampado, quem diria) e um saltinho (não precisa mais ser tênis). O vestido não pode prender no quadril ou na barriga. Na hora de se olhar no espelho, não se esqueça de prender a respiração e fazer uma cara afetada. Para viver plenamente o seu momento Gisele, quando cruzar na rua com outra gorda “disfarçada” e perceber que, andando, a malha fina do vestido marca bunda, quadril e barriga, pense forte, como em um mantra: “Isso não acontece comigo, isso não acontece comigo…”

Escola

Avó, mãe e filha de 8 anos. Que eram avó e mãe, e não irmãs, confesso que demorei para concluir. Mas eram. Sentaram-se no café, impecáveis. Quer dizer, avó e mãe impecáveis. Mechas retocadas, escova de no máximo dois dias, look parecido com o das vitrines das lojas próximas. Bolsas de… huummm…. mais de mil reais. Mas a menina, nessas alturas, ameaçava tirar o bolero, que completava uma produção absolutamente fashion e desconfortável. Um bolero-colete desnecessário, sem manga, que cismava de escorregar enquanto ela comia o pão de queijo. “Não tira”, falava entre os dentes a avó, sorrindo, enquanto a mãe tentava recompor a menina. Para distraí-la, a mãe puxa assunto: “E aí, minha filha, me conta qual menino é o seu namorado na escola.”

Arco-íris monocromático

“Você quer uma ajuda?” Resposta-padrão, para afastar a vendedora: “Obrigada, só estou olhando.” Antes de desistir, ela tenta: “Olha, se você gostou dessa, também tem na cor merlot.” Não consegui segurar o riso. Merlot? É verdade que o velho e bom roxo, desde os tempos da vovó, tinha se tornado vinho, no guarda-roupa. Mas, sabe como é, a moda se renova. Lembro de ter entrado numa loja, uns bons tempos atrás, e a vendedora ter me corrigido, quando apontei para a peça vinho. “Ah, a blusa uva.” Anos depois, fui novamente censurada: a cor era bordô. Quando finalmente o roxo vai virar cabernet sauvignon, o meu vinho preferido? Ok, a tecnologia das cores evoluiu horrores e os tons hoje são infinitos. O bege… bem, quem hoje sabe exatamente o que é o bege? Mas, vamos combinar, as cores não variam tanto assim numa arara de roupas. Então, se pergunto pelo vermelho, por que a “tradução” para cereja, se nenhuma outra cor na loja chega perto do único tom obviamente vermelho da loja???

Perna curta

Curiosas, as duas campanhas que coincidem na TV. Numa delas, a atriz Suzana Vieira promete dar o dinheiro de volta, caso a consumidora não consiga fazer… bem, o intestino funcionar, depois de cinco dias tomando o iogurte Activia, da Danone. Em outra, da poderosa Unilever, compromisso semelhante é feito pela marca Dove, com um hidratante que bronzeia a pele, depois de alguns dias seguidos de aplicação. A vida deve estar difícil para os poucos produtos de consumo que de fato cumprem o que prometem. Como convencer a consumidora, escaldada, de que, dessa vez, o benefício é real? Toda mulher cai nessa, usando o xampu que promete cabelos lisos ou o iogurte que irá deixá-la com o corpo igual da atriz da TV – apenas para citar outros produtos das duas empresas. É a velha história do mentiroso. No dia em que é verdade, ninguém acredita.

No salão

Na clínica-salão de beleza, um casarão chique de Ipanema, a cena parece durar horas, mas foram apenas alguns minutos de um fim de tarde de sábado. As duas peruas são obrigadas a sentar no mesmo sofá de espera, cruzam as pernas e lá estão eles: chinelinhos idênticos e brilhantes, os pezinhos manicurados impacientes, balançando sem parar.

Em frente a outro salão, este no Leblon, a menina de 5 anos avisa, preocupada, quando passa pela calçada: “Não vai nesse cabeleireiro não, mãe. Senão você vai sair daí toda descabelada”, e aponta as fotos dos “cortes desestruturados” colados no vidro.

Feminices

Não agüento mais os lamentos das mulheres contra a ditadura da magreza e da juventude. Por que ninguém reconhece a fonte de prazer e realização que o tal culto à beleza proporciona hoje a mulheres maduras? Será que antes dos creminhos e das academias, as mulheres com mais de 30 anos eram mais felizes e conformadas com a sua condição de “senhoras”, enquanto pentelhavam os filhos e suspiravam com as novelas?

Já ouvi mulheres dizerem que, diante de tanta pressão, preferiam usar burcas. Profissionais brilhantes, na hora do estresse, juram que seu sonho de consumo é um emprego público, bem burocrático e chato. Que mania a nossa, de não valorizar o que temos. Modelito da moda, inteligência aguçada, humor lapidado pela tragicomédia da tripla jornada. Sinceramente: na próxima encarnação você realmente gostaria de nascer homem, planta, muçulmana ou burocrata? Responda depois de receber um elogio “daqueles”, tipo cantada na rua ou uma amiga reparando na sua bolsa nova!