Vítimas da moda
Finalmente. A moda de inverno está cabendo no nosso corpitcho. A calça legging voltou! E, melhor do que com os camisetões, ela veio com vestidinhos soltinhos. Agora nós poderemos ser como as tops da passarela, chiquérrimas. Nada aperta, nem salta. O truque para ficar na moda é o seguinte: vista sua calça legging (preta, por favor), coloque por cima seu vestidinho (pode ser até estampado, quem diria) e um saltinho (não precisa mais ser tênis). O vestido não pode prender no quadril ou na barriga. Na hora de se olhar no espelho, não se esqueça de prender a respiração e fazer uma cara afetada. Para viver plenamente o seu momento Gisele, quando cruzar na rua com outra gorda “disfarçada” e perceber que, andando, a malha fina do vestido marca bunda, quadril e barriga, pense forte, como em um mantra: “Isso não acontece comigo, isso não acontece comigo…”
Escola
Avó, mãe e filha de 8 anos. Que eram avó e mãe, e não irmãs, confesso que demorei para concluir. Mas eram. Sentaram-se no café, impecáveis. Quer dizer, avó e mãe impecáveis. Mechas retocadas, escova de no máximo dois dias, look parecido com o das vitrines das lojas próximas. Bolsas de… huummm…. mais de mil reais. Mas a menina, nessas alturas, ameaçava tirar o bolero, que completava uma produção absolutamente fashion e desconfortável. Um bolero-colete desnecessário, sem manga, que cismava de escorregar enquanto ela comia o pão de queijo. “Não tira”, falava entre os dentes a avó, sorrindo, enquanto a mãe tentava recompor a menina. Para distraí-la, a mãe puxa assunto: “E aí, minha filha, me conta qual menino é o seu namorado na escola.”
Arco-íris monocromático
“Você quer uma ajuda?” Resposta-padrão, para afastar a vendedora: “Obrigada, só estou olhando.” Antes de desistir, ela tenta: “Olha, se você gostou dessa, também tem na cor merlot.” Não consegui segurar o riso. Merlot? É verdade que o velho e bom roxo, desde os tempos da vovó, tinha se tornado vinho, no guarda-roupa. Mas, sabe como é, a moda se renova. Lembro de ter entrado numa loja, uns bons tempos atrás, e a vendedora ter me corrigido, quando apontei para a peça vinho. “Ah, a blusa uva.” Anos depois, fui novamente censurada: a cor era bordô. Quando finalmente o roxo vai virar cabernet sauvignon, o meu vinho preferido? Ok, a tecnologia das cores evoluiu horrores e os tons hoje são infinitos. O bege… bem, quem hoje sabe exatamente o que é o bege? Mas, vamos combinar, as cores não variam tanto assim numa arara de roupas. Então, se pergunto pelo vermelho, por que a “tradução” para cereja, se nenhuma outra cor na loja chega perto do único tom obviamente vermelho da loja???
Perna curta
Curiosas, as duas campanhas que coincidem na TV. Numa delas, a atriz Suzana Vieira promete dar o dinheiro de volta, caso a consumidora não consiga fazer… bem, o intestino funcionar, depois de cinco dias tomando o iogurte Activia, da Danone. Em outra, da poderosa Unilever, compromisso semelhante é feito pela marca Dove, com um hidratante que bronzeia a pele, depois de alguns dias seguidos de aplicação. A vida deve estar difícil para os poucos produtos de consumo que de fato cumprem o que prometem. Como convencer a consumidora, escaldada, de que, dessa vez, o benefício é real? Toda mulher cai nessa, usando o xampu que promete cabelos lisos ou o iogurte que irá deixá-la com o corpo igual da atriz da TV – apenas para citar outros produtos das duas empresas. É a velha história do mentiroso. No dia em que é verdade, ninguém acredita.
No salão
Na clínica-salão de beleza, um casarão chique de Ipanema, a cena parece durar horas, mas foram apenas alguns minutos de um fim de tarde de sábado. As duas peruas são obrigadas a sentar no mesmo sofá de espera, cruzam as pernas e lá estão eles: chinelinhos idênticos e brilhantes, os pezinhos manicurados impacientes, balançando sem parar.
Em frente a outro salão, este no Leblon, a menina de 5 anos avisa, preocupada, quando passa pela calçada: “Não vai nesse cabeleireiro não, mãe. Senão você vai sair daí toda descabelada”, e aponta as fotos dos “cortes desestruturados” colados no vidro.
Feminices
Não agüento mais os lamentos das mulheres contra a ditadura da magreza e da juventude. Por que ninguém reconhece a fonte de prazer e realização que o tal culto à beleza proporciona hoje a mulheres maduras? Será que antes dos creminhos e das academias, as mulheres com mais de 30 anos eram mais felizes e conformadas com a sua condição de “senhoras”, enquanto pentelhavam os filhos e suspiravam com as novelas?
Já ouvi mulheres dizerem que, diante de tanta pressão, preferiam usar burcas. Profissionais brilhantes, na hora do estresse, juram que seu sonho de consumo é um emprego público, bem burocrático e chato. Que mania a nossa, de não valorizar o que temos. Modelito da moda, inteligência aguçada, humor lapidado pela tragicomédia da tripla jornada. Sinceramente: na próxima encarnação você realmente gostaria de nascer homem, planta, muçulmana ou burocrata? Responda depois de receber um elogio “daqueles”, tipo cantada na rua ou uma amiga reparando na sua bolsa nova!