4 de Fevereiro de 2010

Ansiosa sim e daí?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:31

Ser ansioso é ser responsável e consciente. E ser responsável e consciente é algo bacana, para os outros, para a sociedade.

Ufa, já estou até menos ansiosa com essa notícia!

E vou parar de ficar ansiosa porque a minha filha é ansiosa e desse jeito ela não vai ser feliz, pois a felicidade exigiria um permanente estado zen. “Bobagem”, diria o psicólogo Jerome Kagan. “A ansiedade só será problema para quem acha que é um problema. Conheço indivíduos altamente ansiosos que não interpretam sua condição como problema. Entendem que a vida é assim mesmo e estão satisfeitos.”

Como todos sabem, eu não leio “Veja”, mas dona Candoca sim. E foi ela quem me mostrou a entrevista de Jerome Kagan nas páginas amarelas da revista. A matéria, na verdade, aborda de forma abrangente um de meus assuntos preferidos, psicologia infantil, e é um espetáculo de destruição de mitos.

O mais curioso é que o psicólogo faz isso com argumentos simples, nada técnicos, que beiram o bom senso. Viva o bom senso. E viva a ansiedade do bem.

1 de Fevereiro de 2010

Avatar e Invictus no fim de semana

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 15:21

Imagine-se completamente envolvido em uma narrativa de ficção. Pode ser um livro ou um filme, daqueles que te ganham desde o começo, como leitor ou espectador. Há aquela deliciosa mistura de identificação (com os personagens, com a situação) e estranhamento (o que vai acontecer?). A história é tão bem contada (por causa do ritmo rápido; ou pelo contrário, por se deter em detalhes enternecedores), que você esqueceu-se de si próprio, nem percebe imagens ou palavras como intermediárias. Seguir a narrativa é puro deleite até que…

Até que o narrador resolve “aparecer” e explicar melhor o que está contando. Um flashback desnecessário, um personagem explicando o que você já tinha entendido e pronto. Fim da magia. Cortaram o seu barato, o seu tesão. No melhor da festa, alguém desligou o som. Afinal há os vizinhos – aqueles a quem cabe uma trama mais explicadinha, uma fórmula já testada, uma repetiçãozinha que torne tudo mais, digamos, palatável. Você estava no estado da arte, da emoção, e de repente tem que se contentar com algum entretenimento. Volta a lembrar-se de si próprio e percebe que, pensando melhor, aquele ator não está tão bem assim no papel ou que o autor poderia ter caprichado mais nos diálogos.

É nessa hora, da mais pura decepção, que me dá vontade de não ler mais o best seller do momento, nem ver o filme candidato ao Oscar. Mas eles são tão bem feitinhos, não é mesmo?

29 de Janeiro de 2010

O verdadeiro motivo para implicar com “Amor sem escalas”

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 14:18

Adorei o filme “Amor sem escalas”, que tem o mesmo tipo de sacadas rápidas e inteligentes dos filmes anteriores do diretor Jason Reitman (”Juno” e “Obrigado por fumar”). Mas não estava entendendo as críticas negativas, com implicâncias bobas, até ler a crônica de Luis Fernando Veríssimo de quarta-feira. Aí vai ela:

“O verdadeiro George Clooney

Longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do George Clooney o que está em jogo é a autoestima da nossa espécie, os homens que não são George Clooney. Todas as nossas qualidades e todos os nossos atributos, físicos e intelectuais, desaparecem na comparação com o George Clooney. As mulheres não escondem sua adoração pelo George Clooney. O próprio George Clooney nada faz para diminuir a idolatria e nos dar uma chance. Fica cada vez mais adorável, cada vez mais George Clooney. E se aproxima da perfeição. É bonito. É charmoso. É rico. É bom ator. Faz bons filmes. Está envolvido com as melhores causas. E que dentes! Não temos defesa contra esse massacre. Só nos resta a calúnia.

Os dentes são falsos. Ali onde elas veem pomos da face irresistíveis e um queixo decidido, há, obviamente, botox. Ele tem pernas finas e desvio no septo. É solteiro, portanto, claro, gay. Tem casa num dos lagos italianos, o que já é suspeito, e dizem que anda pelos seus chãos de mármore depois do banho de espuma vestindo um longo caftã bordado e sendo borrifado com perfumes florais pelo seu amante filipino Tongo, enquanto seu amante italiano, Rocco, prepara a salada de rúcula completamente nu. George Clooney bate na mãe todas as quintas-feiras. É extremamente burro. Só leu um livro até hoje e não lembra se foi O Pequeno Príncipe ou O Grande Gatsby. Nos filmes em que faz personagens mais reflexivos, contratam um dublê para as cenas dele pensando. Foi ele que propôs a demolição da Torre Eiffel porque já era mais que evidente que não encontrariam petróleo no local. E sua sovinice é lendária. Levou nadadeiras quando visitou Veneza, para não gastar com táxi.

É notório, em Hollywood, o mau hálito do George Clooney. Quando ele fala em algum evento público, as primeiras três fileiras do auditório sempre ficam vazias. Atrizes obrigadas a trabalhar com ele têm direito a um adicional por insalubridade, em dobro se houver cenas de beijo. Outra coisa: a asa. Não adiantam as imersões em espuma na sua banheira em forma de cisne, nem os perfumes florais borrifados, o cheiro persiste. Sabem que George Clooney e suas exilas se aproximam a metros de distância, e muita gente aproveita o aviso para fugir.

Além de tudo, tem seborreia e é Republicano.”

27 de Janeiro de 2010

Gostar de obra?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:07

Sempre desconfiei de quem afirma gostar de obra. Como assim alguém gosta de obra? Com exceção de engenheiros, arquitetos e pedreiros, vamos combinar que uma pessoa não pode amar fazer uma obra, assim como só dentistas devem ficar entusiasmados com tratamentos de canal.

Para minha infelicidade, um novo vizinho do prédio, ainda de feições desconhecidas, é um desses excêntricos que declaram por aí – socialmente, em festas, como se fosse normal! – que adora uma obra. Veja bem, essas pessoas não curtem o resultado, a casa nova, modernizada, para exibir aos amigos. Elas juram que gostam mesmo é de ver tudo demolido, canos furados por engano, descobrir colunas que não constavam na planta, ver sacos de entulho saindo pela garagem.

Para eles, reforma boa é aquela que destrói apartamentos inteiros (com vizinhos enlouquecidos por todos os lados). À noite, sonham com tijolos, argamassa e latas de tinta. Ficam tão desolados quando finalmente as paredes se erguem que mandam derrubar tudo de novo, para recolocá-las em outro lugar. E eu embaixo…

21 de Janeiro de 2010

Clarice até março

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 17:19

claricebeth 1 2 - claricebeth 1 2

O esforço valeu a pena, e ontem consegui finalmente ver a peça “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, estrelada pela atriz Beth Goulart. A boa notícia é que o espetáculo, que ameaçava ficar novamente em curtíssima temporada, estará em cartaz no Teatro Sesi do Rio até março.

A minha história com Clarice é curiosa. Descobri e amei a escritora na adolescência. Depois de, digamos, adulta, suficientemente desintoxicada de seu texto (que impregna a alma e explica a devoção de seus fãs), passei a acreditar que aquela tinha sido apenas uma fase adolescente e mulherzinha. Cheguei a considerar pertinente uma crítica que ouvira sobre Clarice ser um pouco repetitiva.

No ano passado, com a volta dela à mídia, retomei seus contos, encantada. Ah, como pode ser nocivo se afastar de Clarice. A coletânea “Clarice na cabeceira”, por sinal, tornou-se o meu título de fim de ano preferido para presentear amigos, desejando assim que eles a mantenham por perto. Os contos são apresentados por fãs célebres, que aparentemente tiveram liberdade para escolhê-los.

Dois deles estão na peça, e a interpretação de Beth Goulart, espantosamente parecida com a escritora em cena, acaba por revelar novas nuances no texto. O resultado final - cenário, iluminação etc - é lindo de morrer, imperdível para fãs de Clarice Lispector.

18 de Janeiro de 2010

Lula, o filme sem boca a boca de urna

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:57

No final, nem eu vi o filme sobre o Lula… Explicações sobre o fiasco estão no Globo de ontem (clipado aqui) e algumas delas passam ao largo da questão política. Achei interessante especialmente a visão do diretor da Filme B, Paulo Sérgio Almeida:

- Nenhum filme sobre o Flamengo fez o público que se esperava, assim como filmes sobre Zico, Pelé ou a Seleção. Não se transfere o público dos estádios para os cinemas com igual proporção. Com a política, a lógica é igual.

Claro que se o filme fosse espetacular, e a estratégia de lançamento tivesse funcionado, o boca a boca teria nos impulsionado às salas de cinema, mesmo nas férias, mesmo não gostando (mais) do PT. Mas não foi o que aconteceu.

Um comentarista lá do Digestivo diz que sou ruim de previsões, com toda a razão. Por falar nisso, sabe qual é meu palpite para o Oscar? Brincadeirinha…

13 de Janeiro de 2010

Verão do yog-alguma-coisa

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:43

Se no ano passado tivemos o verão do cone (leia-se temaki), este é o verão do sorvete de iogurte.

Sim, sei que não chega a ser novidade, e que o modismo é até importado. Mas, da minha modesta visão de quem observa as férias dos outros enquanto trabalha, nada bomba mais na zona sul carioca do que as tais sorveterias yog-alguma-coisa.

De vez em quando entro na fila (impossível uma sorveteria sem fila, com um calor de 40 graus) e presto a atenção nos idiomas. Nunca fui tão abordada por gringos (ou vendedores desesperados por uma tradução) querendo informações em inglês. E olha que o câmbio nem está favorável para eles.

Sei que isso vai parecer meio arrogante, mas às vezes me aborreço, quando vejo os meus lugares preferidos invadidos pelos turistas, fila para todo lado. Fico com saudades da baixa temporada, quando sou bem atendida e meu café preferido parece só meu. Será que vem daí o mau humor dos parisienses?

E lá vou eu, comparando o Rio com Paris, depois de ter feito isso com Nova York no post abaixo… Mas não deve ser por acaso. Acabo de ler no jornal que em 2016 teremos um nível de pobreza no Brasil abaixo dos 4%, mesmo índice dos países ricos, se tudo correr como o previsto.

Difícil conter o otimismo, o espírito ufanista. Mas o fato é que os indicadores da economia batem com o que vemos nas ruas. E eu que imaginava que o futuro do país do futuro nunca chegaria. Viva o verão do sorvete de iogurte.

9 de Janeiro de 2010

Manhattan emergente

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:03

Se é verdade que, no novo jogo de forças global, chegou a vez do Brasil, em contraposição à derrocada americana, a zona sul do Rio é a nova Manhattan. No verão do aquecimento - da economia e do clima -, Ipanema tornou-se um lugar efervescente. E caro.

Ouvem-se todas as línguas, na praia, no comércio, nos restaurantes. O comércio, por sinal, mal dá conta das vendas. Havaianas fazem a festa dos turistas. Os preços sobem, com a demanda. O metro quadrado no Leblon continua em alta, inacreditavelmente. Crise, que crise.

Mas não espere de uma Manhattan emergente o mesmo charme compacto de sua matriz americana. A diversidade interessante convive com calçadas mal acabadas, camelôs que fogem do rapa, lojas feias ao lado das descoladas, lixo nas ruas, pedintes, medo de assalto.

Quem sabe não está nas contradições o novo charme emergente, que fez de Lula um inesperado líder global? O mundo dos ricos ruiu, algo precisava ficar no lugar, e surgimos nós, com nossas favelas e caipirinhas.

4 de Janeiro de 2010

A tsunami de Angra

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 09:50

O apresentador da TV insiste, atônito:

- Mas não deveriam ter feito uma obra de contenção na encosta?

O especialista bem que gostaria de atender à súplica do jornalista, dar a resposta pela qual anseiam os espectadores, dizer que sim, a culpa é das autoridades competentes, mas simplesmente não pode. A tal obra seria inviável, ninguém pensaria em fazê-la, não havia desmatamentos na região, as explicações apenas envolviam os movimentos da natureza. Indomável, como a tsunami.

Gastamos a vida em busca de um sentido. Na falta dele, um culpado. O governo, a especulação imobiliária, os destruidores da natureza, alguém que poderia ter evitado a tragédia, porque elas sempre deveriam ser evitáveis, e não gratuitas. Alguém tem que pagar por elas, tão caras, nem que seja moralmente.

Se não foi um vírus, transmitido por alguém a quem se pode tudo atribuir, que tenha sido erro médico. Que o câncer tenha sido fabricado pelo rancor da própria vítima, ela também culpada. Ou quem sabe a explicação resida na carga genética, e também aí teremos um raciocínio para nos aplacar, na falta da fé religiosa. Foi deus quem quis já não satisfaz a maioria.

Tudo, menos o acaso. Menos dizer que a morte faz parte da vida. Isso sim, é insuportável, insuficiente para anestesiar a dor.

Que os parentes das vítimas (de que algoz?) de Angra consigam conviver com ela, a dor.

31 de Dezembro de 2009

Previsões

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 16:31

Nada é mais previsível do que o Natal. Sabemos exatamente qual será o cardápio da ceia, que o assado estará cheiroso, mas um pouco seco; que vamos encontrar aquele parente chato, mas pelo menos dará pra falar mal dele depois; que falta de assunto se resolve com um vinho gelado, ou cerveja mesmo; que alguém nos oferecerá panetone, mas já que é para enfiar o pé na jaca, melhor optar pela rabanada; que no fim do dia teremos a sensação de dever cumprido e pança cheia, típica da data, e então será hora de pensar no réveillon.

Você bem que tentou antecipar as compras de Natal, mas faltou tempo ― sabe como é o mês de dezembro… Nos telejornais, imagens de shoppings lotados mostraram o sufoco que você passou, meia hora para conseguir uma vaga, fila até nas escadas rolantes e mesas compartilhadas com estranhos na praça de alimentação, enquanto o esforço para ser criativo e econômico nas lembrancinhas ia por água abaixo. Quando as liquidações começaram, no dia 26 de dezembro, tudo pela metade do preço, você jurou que no ano que vem fará diferente, pretende sumir do mapa natalino e reaparecer depois ― com alguns óleos relaxantes, do spa onde se refugiou, para eventuais trocas de presentes tardias.

Pensando melhor, você não é mais um adolescente rebelde, e nesta época do ano convém admitir que, vá lá, família não é tão ruim assim. Então lembrará que as crianças se divertiram, que o parente chato, no fundo, bem lá no fundo, até que é gente boa, e o problema agora é decidir o que fazer com os presentes inúteis que ganhou e jurou ter gostado. Pode tentar trocar na loja, aproveitar para comprar uma roupa branca para o ano novo e para isso precisará… encarar o shopping! Pois é, nem mudou o ano e está fazendo tudo o que mais odeia, de novo.

Ok, você reconhece a recaída, mas jura que em 2010 será diferente. Para garantir, faz (ou atualiza?) a sua lista de resoluções. A vida passa rápido, é preciso ser feliz já, focar no que vale a pena, e essas mensagens de Natal que odiou responder acabaram deixando-o meio meloso. Seria 2010 o ano de sua guinada? Pensar de forma mágica ajuda, por isso você vai entremear a sua lista de obrigações chatas, que não serão cumpridas (perder três quilos, poupar 20% do salário), com iniciativas mais exóticas (conhecer um país, tocar um instrumento). Afinal, fazer essas listas é como jogar na Mega-Sena; a única serventia é poder sonhar um pouco.

Confesso que, entre as listas obrigatórias de fim de ano, tive dificuldades com a sugerida pelo Especial do Digestivo, com “melhores de 2009″, já que meu retrovisor anda um tanto embaçado. Como a bola de cristal está tinindo, vamos às minhas previsões para o ano novo, outra lista deliciosa de fazer:

Em 2010, meia dúzia de celebridades vai dar mancada no Twitter e ficará um pouco mais célebre por causa disso.

Em 2010, famoso deixará definitivamente de ser adjetivo para ser considerado um substantivo.

Em 2010, a audiência da Globo terá novo recorde negativo, e ainda assim todo mundo à sua volta saberá o nome do protagonista da novela das oito, e achará pedante você fingir que não sabe.

Em 2010, a morte do livro será decretada 57 vezes por especialistas em mídias digitais.

Em 2010, o cinema alternativo vai tentar ser mais comercial, mas sem fazer concessões à arte, e o cinema comercial com pinta de alternativo vai ganhar o Oscar.

Em 2010, você vai assistir ao filme sobre a vida de Lula.

Em 2010, uma nova rede social vai substituir o Facebook, invadido pelos pobres do Orkut.

Em 2010, a política vai tomar conta da sua caixa postal, você vai acabar se envolvendo no assunto apesar de tudo o que disse antes, e defenderá o candidato menos ruim na mesa do bar.

Em 2010, comentários sobre o tempo deixarão de ser (falta de) assunto de elevador para ganhar ares de papo-cabeça-ambientalista-engajado.

No final de 2010, quando os críticos forem fazer as listas de melhores da década, algum espírito de porco lembrará que elas foram feitas um ano antes.

***

Já que a coluna acabou versando sobre os inevitáveis lugares-comuns de fim de ano, não poderia deixar de citar ― e recomendar ― um livro no qual estou viciada: O Pai dos burros ― Dicionário de lugares-comuns e frases feitas, de Humberto Werneck. Para quem escreve, é uma diversão tê-lo ao lado do computador. Ao menor sinal de clichê brotando no texto, pego correndo o “dicionário” e fico eufórica ao constatar que, sim, ele está lá, devidamente catalogado.

O maior prazer, porém, não é evitar clichês e perceber a qualidade que o texto ganha sem esses penduricalhos. É poder empregá-los mesmo assim, consciente de sua função de “proteger-nos da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência. Se respondêssemos todo o tempo a essa exigência, logo estaríamos exaustos” (Hannah Arendt, em A vida do espírito, citada no prefácio).

Já pensou como o Natal seria (mais) exaustivo sem o “Feliz Natal”? Pois então, sem pedir perdão pelo lugar-comum, um feliz Natal e um próspero ano novo para você.

***

Em tempo: encontrei nesta coluna pelo menos quatro “antipérolas” citadas por Werneck em seu livro. São elas: “enfiar o pé na jaca”, “dever cumprido”, “sumir do mapa” e “por água abaixo”. Quem sabe você descobre outras.

(coluna publicada no Digestivo Cultural em 25/12/2009)

26 de Dezembro de 2009

A indústria do que não tem preço

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:10

Sabe o sonho de ter uma pousada? A maioria já acalentou: ser dono do próprio negócio, viver longe do estresse da cidade, ter uma espécie de casa ampliada, aconchegante, para receber os amigos e fazer outros (os hóspedes, que serão sempre simpáticos). Algo assim não tem preço, não é mesmo?

Se o voo solo assusta, há outra alternativa para poder finalmente dar uma banana para o chefe e ser dono do próprio nariz. É só pegar as economias e investir numa franquia, negócio já formatado e sem riscos, pelo menos é o que dizem por aí.

Mas se você não se julga um sonhador, nem empreendedor nato, talvez tenha outra espécie de plano: passar em um concurso público e ter um salário garantido para o resto da vida, sem medo do amanhã. Verdade que passar na prova é difícil, mas estabilidade não tem preço…

Esses são apenas alguns sonhos na esfera do trabalho. Enquanto pensamos neles, nos contentamos com os pequenos, que cabem na inevitável gastança de fim de ano. Por exemplo, a sua filha, sua princesinha, fazendo parte de um grande espetáculo de dança, depois de um ano inteiro de aulas numa escola de prestígio. Ela, linda em seu figurino; perfeita em sua coreografia.

É justo no momento em que você se sente dentro de uma campanha da Mastercard que vem a facada. Sim, tem preço. Depois de pagar um absurdo pelo figurino, outro tanto pelo aluguel do teatro, sem falar na sapatilha – uma pechincha perto disso tudo, mas o fato é que você ainda teve que bater perna e gastar por fora –, alguém lhe oferece um DVD com todos os momentos “não tem preço” gravados - com qualidade profissional, claro.

Você acabou de comprar um buquê de flores providencialmente à venda na porta do teatro (se as outras meninas vão ganhar, como a sua princesinha vai ficar sem?), e aí finalmente percebe: foi fisgado pela indústria do não tem preço.

A rigor, ninguém o enganou, e capitalismo eficiente é isso aí. O crescimento do mercado de serviços e produtos infantis só comprova a culpa crescente dos pais que trabalham muito, sem falar na possibilidade de realização por meio do sucesso dos filhos. Quanto vale o sorriso do seu filho diante do brinquedo tão sonhado, desembrulhado embaixo da árvore de Natal? Ah, não tem preço, você aprendeu com a campanha publicitária.

É verdade que a criança tem vários brinquedos parecidos e vai se desinteressar do novo rapidamente, como aconteceu com os anteriores. Mas… e o sorriso? E o Natal? Só um insensível acharia que algo assim tem preço. Um insensível ou alguém com um bom senso de oportunidade, para filmar o tal espetáculo da escola de balé e cobrar R$ 90 pelo DVD.

“É meio tabelado, paguei a mesma coisa pela apresentação da minha filha”, tentou me conformar uma amiga. Eu me rendi, mas depois fiquei pensando nas outras indústrias, que exploram (no bom sentido) sonhos menos realizáveis, como aquelas relacionados ao trabalho que mencionei lá no começo.

Recentemente descobri uma bela estrutura montada para, digamos, ajudar uma pessoa a se tornar um escritor. Como no caso dos que almejam passar em concursos públicos, alguns poucos podem, de fato, chegar lá. A arrasadora maioria, porém, vai apenas injetar dinheiro na indústria que se formou em torno do sonho.

Mas é complicado julgar os que “exploram” e alimentam o sonho alheio, mesmo sabendo quando ele é absolutamente inalcançável. Será que o professor do curso “Como se tornar dono de uma pousada” deveria alertar os alunos sem a menor chance de sucesso na empreitada? Quem negocia uma franquia deveria confessar que a maioria dos franqueados se esfalfa de tanto trabalhar em troca de uma remuneração menor que o antigo salário?

Muitas vezes, paga-se para sonhar, para dar um sentido à vida, para ter o status de quem está ambicionando algo grandioso.

21 de Dezembro de 2009

Viva a Cacau Show

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 13:51

A Conferência de Copenhague fracassou, então na próxima deviam fazer na Cacau Show, que é mais popular e o chocolate também é ótimo. Essa eu li hoje na coluna Gente Boa, do Globo, e dei umas boas risadas, porque estava com raivinha.

Na sexta-feira tinha ido tomar um café na Kopenhagen, como fiz sistematicamente ao longo de 2009, e… a mocinha não quis me servir. “Perto do Natal a gente só vende café se estiver vazio”. Havia duas pessoas comprando caixas de chocolates, enquanto a máquina de expresso permanecia ligada sem ser ativada.

Fiquei tão desconcertada que não reagi. Imagina você pedir um copo dágua e a pessoa responder: hoje não. Recusar-se a servir um cafezinho, porque dá para faturar mais vendendo bombom, é uma grosseria semelhante, fiquei pensando depois. Era o fim da picada.

Fiquei pensando depois porque sou do tipo que nunca tem a resposta na ponta da língua, e fica remoendo o que devia ter dito na hora. Abatida, rumei para o Armazém do Café (com alguma convicção de que lá seria bem atendida, apesar do tumulto natalino) e na volta fui obrigada a passar novamente pelo quiosque da Kopenhagen, para subir a escada rolante que dá acesso ao escritório.

Olhei de soslaio e percebi que serviam café - pelo visto, os chocolates carésimos não estavam vendendo tanto assim. A mocinha do caixa me viu e explicou: agora estamos servindo. Desfiz o beicinho e finalmente as palavras - já postas na ponta da língua - saíram: era o fim da picada.

15 de Dezembro de 2009

Flores de plástico não morrem

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 15:14

Eu precisava comprar flores. Queria chegar com um lindo buquê de rosas vermelhas na mão, e pensei que não seria problema conseguir um na efervescência comercial de Ipanema. Foi aí que descobri que as floriculturas estão em extinção.

Não, eu não sabia. Elas foram substituídas pela venda de flores nas esquinas, em vasos plantados, ou por quiosques chiques com orquídeas nos shopping centers. A velha e boa floricultura, na qual escolhíamos os botões de rosa com conhecimento de causa – prever quais deles desabrochariam era uma arte -, deixou de ser um bom negócio faz tempo.

Flores são perecíveis, os pontos comerciais de Ipanema são uma fortuna e a especialização não vale a pena, me explica o vendedor da única floricultura que resiste em Ipanema (depois de muito bater perna, descobri uma, na Rua Farme de Amoedo).

Às floriculturas, o mesmo destino dos açougues. Onde foram parar os açougues?

10 de Dezembro de 2009

Tuvalu e nós

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 16:16

As chances de sabermos da existência de Tuvalu eram mínimas. Digamos que você tivesse uma oportunidade de ir à Austrália. Teria que ficar lá tempo o suficiente para alguém sugerir: por que não dá um pulo no arquipélago de Tuvalu? Ok, mas ninguém faz turismo naquelas ilhas, onde só existe um hotel chinfrim, apesar da paisagem paradisíaca igual a milhares de outras ilhas na região. Então a sugestão viria por conta do seu interesse por… história!

Isso, você é um historiador, atrás de um novo ponto de vista sobre os conflitos no Pacífico durante a Segunda Guerra, depois do ataque à base militar de Pearl Harbor. Sim, Tuvalu, pertinho do Havaí, foi um estratégico campo de batalha em 1943, e os japoneses chegaram a atacar nove vezes o arquipélago ocupado por americanos.

Mas essa história já foi contada, e, convenhamos, os custos de uma viagem assim não são cobertos por um interesse acadêmico. Mais factível seria o seu interesse econômico pelo país, que produz… bem, Tuvalu não produz nada. Alguns barcos de pesca, um cultivo rudimentar de cocos, e nada mais. No entanto, você é representante de um poderoso grupo de comunicações, que desde o crescimento da internet ficou intrigado com o domínio dado de mão beijada à pequena nação perdida no oceano.

Os endereços da internet em Tuvalu podem usar a terminação “.tv”, embora os poucos sites locais, iniciativa de alguns dos 12 mil habitantes, sejam escritos em tuvaluano. Que desperdício, comentou um marketeiro em uma reunião, e lá foi você, com a pastinha debaixo do braço, negociar com o primeiro-ministro de Tuvalu. Pensou em levar uns espelhinhos, mas achou melhor chegar com uns US$ 50 milhões, o que foi suficiente para fechar o acordo de cessão do domínio por dez anos, e dobrar o PIB do estado tuvaluense na década.

Talvez esta fosse sua única chance de descobrir a existência de Tuvalu. No entanto, desde ontem, eu, você e o mundo fomos apresentados ao minúsculo arquipélago (26 quilômetros quadrados!) que será o primeiro a sumir do mapa por causa do aquecimento global. Quem tem vertigem de altura não corre riscos em Tuvalu: o seu “cume” fica a 5 metros de altitude. Coube ao destino dar fama à nação às vésperas de sua extinção. Caberá ao mundo, na Conferência de Copenhague, mudar a triste sina de Tuvalu – agora, tão próximo de nós.

9 de Dezembro de 2009

Má educação

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 17:44

Pode ser o mês de dezembro, a desculpa da pressa, mas o fato é que os mal educados parecem ter se multiplicado nos últimos dias. A observação rolou numa rodinha, onde houve unanimidade a respeito do assunto. Uma das pessoas, que precisou usar muletas, contou ter passado sufoco nas ruas do Leblon: era atropelada pelos passantes. “Só faltava me darem uma rasteira por eu estar atrapalhando a passagem.”

No trânsito, nas filas e nas lojas, parece que todos estão crescendo nos cascos, com o pavio curto, como se a farinha fosse pouca, meu pirão primeiro. As expressões do tempo da vovó me ocorrem agora, provavelmente, porque lembro dos tempos de menina, quando aprendi a respeitar os mais velhos, ceder a vez, ser gentil com quem está me servindo - enfim, essas coisas em desuso.

Tudo bem que o tempo é curto em dezembro, que as chuvas atrapalham horrores a vida da gente, mas e quanto ao espírito natalino? Aquela simpatia toda vale só para o dia do amigo oculto/secreto? Olha que eu gosto de Natal, mas já estou pensando em pular direto para janeiro.

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