8 de Março de 2010

Próxima parada

Arquivado sob: Cotidiano, Viagens — Marta @ 16:28

“A senhora já está no Rio”, me informa com um meio sorriso o atendente do check-in. Pela expressão simpática e condescendente, percebo o quanto é comum um passageiro chegar ao balcão da companhia aérea trocando o destino da ida com a volta. Será o estresse? A vontade de voltar? Sim, porque estamos falando aqui de quem viaja a trabalho, a cabeça nos afazeres, o corpo buscando pequenas compensações - a bordo, nos rituais de embarque e desembarque. A estes passageiros, o funcionário reserva seu sorriso mais cúmplice: estamos no mesmo barco, no mesmo avião, em atitude glamurosa mas revelando a cada gesto cansado a nossa humanidade.

Lembro-me da época de crise no setor aéreo, os atrasos constantes mandando para as cucuias os resquícios de glamour do passado. O fato é que mesmo assim, apesar do finger que não funciona e mantém os passageiros presos no avião por dez minutos, apesar da comida gordurosa e do taxista mal encarado, apesar da fila no banheiro, mesmo assim adoro estar em um aeroporto. Partindo, chegando, esperando.

Talvez tenha gostado do filme “Amor sem escalas” – que não ganhou nem um oscarzinho ontem – só por causa da cena inicial, em que George Clooney revela toda a sua intimidade com os esdrúxulos rituais das viagens de avião (especialmente nos Estados Unidos…). E é assim, dentro de um filme, que me sinto com a personagem que me aborda na sala de embarque. Trata-se de uma senhora com alguma idade, visivelmente deslocada, e me prontifico a ajudá-la quando me estende o cartão com o número do voo.

Se o portão de embarque ainda pode ser alterado? Sim, com certeza, respondo, já que o seu voo só partirá dali a três horas e meia. A senhora deveria se distrair um pouco, porque tão cedo o número não aparecerá no painel, é o que lhe digo, e ela parece compreender. Mas mantém-se ereta na cadeira, olhando o nada, aparentemente conformada. Quem se distrai sou eu, colocando os e-mails em dia, até perceber que a tal senhora está abordando outra pessoa, com a mesma pergunta. O portão de embarque ainda pode mudar?

Sempre pode. Podemos embarcar em muitos portões, e cada um deles nos levará a um destino diferente, todos eles fora da nossa rotina. Aquela senhora resistia – odeia sair da rotina. Quer a previsibilidade. Não vou fazer gênero e dizer que não gosto da rotina, logo eu que como sempre a mesma coisa no café da manhã. É o momento do dia em que sou mais resistente, e mesmo em um hotel distante tento achar uma opção parecida de desjejum.

Mas é só o começo do meu dia. No decorrer dele, uma luta interna se travará: a busca do familiar versus o anseio pela novidade, pelo acontecimento que mudará tudo o que planejei durante anos. Numa viagem – especialmente a de lazer, para um lugar desconhecido – sei que serei arrancada das minhas certezas emboloradas. Se o hábito é a morte em vida (experimentar é viver), finalmente entendo o meu comichão por planejar (um pouco) a próxima viagem. Qual será o portão de embarque? Não sei. Graças a deus.

1 de Março de 2010

O ano começou

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:14

Cena 1: O sujeito sabe (alguma coisa de) alemão e passa o filme todo repetindo as frases que compreende. Eu, que achava que nada podia ser mais desagradável do que alguém falando no cinema, descubro: há sim, alguém falando em alemão no cinema.

Cena 2: Em uma rua relativamente movimentada de Ipanema, o carro à sua frente resolve parar em fila dupla. Detalhe: já tem um outro veículo estacionado, também em fila dupla, exatamente do outro lado. Impossível prosseguir.

Nessas horas, custo a acreditar na situação. As pessoas fazem coisas assim, imagino, por não perceberem que existe alguém ao lado, atrás, em volta, convivendo com elas no mesmo planeta Terra. E quando a gente buzina ou fala “psiu” é estressado…

É, já estou quebrando minha primeira resolução de ano novo: não consigo ser zen, pelo menos no Rio de Janeiro.

19 de Fevereiro de 2010

Carnaval X cinema; nostalgia X tecnologia

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:49

Se até os amigos paulistas estavam gazeteando a tarde da quarta-feira de cinzas, não seria eu, a carioca com marchinhas na ponta da língua, que iria trabalhar. Afinal, foram quatro dias intensos, driblando blocos, rendendo-se a alguma folia e participando das intensas discussões sobre o xixi enquanto resíduo carnavalesco. Concluí: era dia de descansar no escurinho do cinema.

Mas a intenção logo esbarrou nas evidências de que o carnaval não havia acabado. No caminho para o Instituto Moreira Salles, na Gávea, resquícios de confusão do “Me beija que eu sou cineasta”. Insistimos, subimos a Marquês de São Vicente, mas o carnaval cismava em perdurar: o portão do centro cultural estava fechado. “Só reabre amanhã”, me informou o porteiro, ignorando meu protesto pelo tijolinho equivocado no jornal.

Quem sabe “A fita branca” não estava passando também nos cinemas do Shopping da Gávea, ali pertinho? Corremos, afinal a promessa era levar as crianças à praia de noitinha, fechando o carnaval (que mania de querer acabar com ele). Em cartaz, porém, o único filme que ainda não tínhamos visto era “Nine”. Musical, argh, mas pelo menos com Daniel Day Lewis.

Depois de quase duas horas de projeção, no momento em que eu já admitia ter valido a pena, se o final não decepcionasse, o projetor pifou. As luzes acenderam. A plateia idosa ficou quietinha, esperando, até a funcionária garantir que não havia jeito. Sabem como é, numa quarta-feira de cinzas é difícil achar alguém para consertar.

Na fila para pegar o dinheiro de volta, tentei lembrar há quanto tempo algo assim não me acontecia. Parecia algo de décadas atrás, numa cidadezinha do interior - se eu já tivesse ido ao cinema no interior, o que nunca fiz.

Nostalgia semelhante havia me invadido dez dias antes, no mesmo complexo de cinemas - bem moderninho -, ao assistir “A princesa e o sapo” com minha filha. O desenho da Disney, à moda antiga, sem efeitos de computador, me parecia ter problemas de projeção. “O som não está baixo?”, sussurrei, mas ninguém parecia estranhar. “Será que sentei muito atrás no cinema?”, pensei, num esforço para compreender a sensação de estar vendo TV na sala de casa.

Só depois fui lembrar que era a minha primeira sessão de cinema após “Avatar”. Não é que a propaganda em torno da tecnologia revolucionária do filme de James Cameron faz sentido?

Pois é, mas o projetor sempre pode pifar em pleno carnaval (me rendi), transportando a plateia de Pandora diretamente a um cinema Paradiso do século passado…

***

Dilema: como saber o final de um filme mediano, sem precisar vê-lo inteiro de novo? Alguém aí viu “Nine”?

12 de Fevereiro de 2010

Cuide de você

Arquivado sob: Jornalismo — Marta @ 14:52

“Prezada Marta,

A idéia da matéria me parece bastante oportuna e as suas perguntas muito bem formuladas. Respondê-las com a seriedade que merecem, contudo, exigiria um tempo de que não disponho no momento e ocuparia um espaço que (o veículo) não pode ceder. Assim, lamento não atendê-la nesta oportunidade, mas desejando sucesso em sua tarefa.”

Já tinha ouvido muitos nãos na minha vida de jornalista, mas confesso que fiquei entretida com a retórica deste. Deve ser porque ando zen, culpa do relaxante muscular. Mesmo assim, tentei lembrar: quando foi que começaram a nos pedir perguntas por e-mail? O que fazer quando, depois de nos curvarmos à exigência, nosso trabalho é desprezado com elogios?

Pensando bem, não parece a carta do namorado da Sophie Calle, que acabou virando arte? Ou as respostas de editoras aos originais de um escritor, que acabaram virando livro? Agora só falta compilar as rejeições sofridas por jornalistas…

9 de Fevereiro de 2010

A vida offline

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 13:32

Começou por acaso. Não consegui configurar o e-mail no computador novo de forma a receber mensagens automaticamente. Deixei para depois, e passei a clicar em “enviar/receber” apenas quando esperava por algo ou me sentia solitária.

Foi assim que descobri a vida offline - não aquela em que se é tolido de qualquer instrumento de conexão, situação realmente sujeita a terríveis crises de abstinência. Refiro-me a poder escrever um texto sem o raciocínio interrompido a cada e-mail/spam. Poder se desligar do mundo lá fora quando convém, e voltar na hora em que brota a vontade, ou a real necessidade, marcada pela lembrança: ih, preciso checar minha caixa postal.

Claro que isso é perigoso no trabalho. É bom para mim, nem tanto para quem me procura. Mas que delícia. Agora estou pensando: devo mesmo me reconfigurar, pessoalmente, para estar tão online assim?

4 de Fevereiro de 2010

Ansiosa sim e daí?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 14:31

Ser ansioso é ser responsável e consciente. E ser responsável e consciente é algo bacana, para os outros, para a sociedade.

Ufa, já estou até menos ansiosa com essa notícia!

E vou parar de ficar ansiosa porque a minha filha é ansiosa e desse jeito ela não vai ser feliz, pois a felicidade exigiria um permanente estado zen. “Bobagem”, diria o psicólogo Jerome Kagan. “A ansiedade só será problema para quem acha que é um problema. Conheço indivíduos altamente ansiosos que não interpretam sua condição como problema. Entendem que a vida é assim mesmo e estão satisfeitos.”

Como todos sabem, eu não leio “Veja”, mas dona Candoca sim. E foi ela quem me mostrou a entrevista de Jerome Kagan nas páginas amarelas da revista. A matéria, na verdade, aborda de forma abrangente um de meus assuntos preferidos, psicologia infantil, e é um espetáculo de destruição de mitos.

O mais curioso é que o psicólogo faz isso com argumentos simples, nada técnicos, que beiram o bom senso. Viva o bom senso. E viva a ansiedade do bem.

1 de Fevereiro de 2010

Avatar e Invictus no fim de semana

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 15:21

Imagine-se completamente envolvido em uma narrativa de ficção. Pode ser um livro ou um filme, daqueles que te ganham desde o começo, como leitor ou espectador. Há aquela deliciosa mistura de identificação (com os personagens, com a situação) e estranhamento (o que vai acontecer?). A história é tão bem contada (por causa do ritmo rápido; ou pelo contrário, por se deter em detalhes enternecedores), que você esqueceu-se de si próprio, nem percebe imagens ou palavras como intermediárias. Seguir a narrativa é puro deleite até que…

Até que o narrador resolve “aparecer” e explicar melhor o que está contando. Um flashback desnecessário, um personagem explicando o que você já tinha entendido e pronto. Fim da magia. Cortaram o seu barato, o seu tesão. No melhor da festa, alguém desligou o som. Afinal há os vizinhos – aqueles a quem cabe uma trama mais explicadinha, uma fórmula já testada, uma repetiçãozinha que torne tudo mais, digamos, palatável. Você estava no estado da arte, da emoção, e de repente tem que se contentar com algum entretenimento. Volta a ter consciência de si próprio, da sua posição na poltrona, e percebe que, pensando melhor, aquele ator não está tão bem assim no papel ou que o autor poderia ter caprichado mais nos diálogos.

É nessa hora, da mais pura decepção, que me dá vontade de não ler mais o best seller do momento, nem ver o filme candidato ao Oscar. Mas eles são tão bem feitinhos, não é mesmo?

29 de Janeiro de 2010

O verdadeiro motivo para implicar com “Amor sem escalas”

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 14:18

Adorei o filme “Amor sem escalas”, que tem o mesmo tipo de sacadas rápidas e inteligentes dos filmes anteriores do diretor Jason Reitman (”Juno” e “Obrigado por fumar”). Mas não estava entendendo as críticas negativas, com implicâncias bobas, até ler a crônica de Luis Fernando Veríssimo de quarta-feira. Aí vai ela:

“O verdadeiro George Clooney

Longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do George Clooney o que está em jogo é a autoestima da nossa espécie, os homens que não são George Clooney. Todas as nossas qualidades e todos os nossos atributos, físicos e intelectuais, desaparecem na comparação com o George Clooney. As mulheres não escondem sua adoração pelo George Clooney. O próprio George Clooney nada faz para diminuir a idolatria e nos dar uma chance. Fica cada vez mais adorável, cada vez mais George Clooney. E se aproxima da perfeição. É bonito. É charmoso. É rico. É bom ator. Faz bons filmes. Está envolvido com as melhores causas. E que dentes! Não temos defesa contra esse massacre. Só nos resta a calúnia.

Os dentes são falsos. Ali onde elas veem pomos da face irresistíveis e um queixo decidido, há, obviamente, botox. Ele tem pernas finas e desvio no septo. É solteiro, portanto, claro, gay. Tem casa num dos lagos italianos, o que já é suspeito, e dizem que anda pelos seus chãos de mármore depois do banho de espuma vestindo um longo caftã bordado e sendo borrifado com perfumes florais pelo seu amante filipino Tongo, enquanto seu amante italiano, Rocco, prepara a salada de rúcula completamente nu. George Clooney bate na mãe todas as quintas-feiras. É extremamente burro. Só leu um livro até hoje e não lembra se foi O Pequeno Príncipe ou O Grande Gatsby. Nos filmes em que faz personagens mais reflexivos, contratam um dublê para as cenas dele pensando. Foi ele que propôs a demolição da Torre Eiffel porque já era mais que evidente que não encontrariam petróleo no local. E sua sovinice é lendária. Levou nadadeiras quando visitou Veneza, para não gastar com táxi.

É notório, em Hollywood, o mau hálito do George Clooney. Quando ele fala em algum evento público, as primeiras três fileiras do auditório sempre ficam vazias. Atrizes obrigadas a trabalhar com ele têm direito a um adicional por insalubridade, em dobro se houver cenas de beijo. Outra coisa: a asa. Não adiantam as imersões em espuma na sua banheira em forma de cisne, nem os perfumes florais borrifados, o cheiro persiste. Sabem que George Clooney e suas exilas se aproximam a metros de distância, e muita gente aproveita o aviso para fugir.

Além de tudo, tem seborreia e é Republicano.”

27 de Janeiro de 2010

Gostar de obra?

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 19:07

Sempre desconfiei de quem afirma gostar de obra. Como assim alguém gosta de obra? Com exceção de engenheiros, arquitetos e pedreiros, vamos combinar que uma pessoa não pode amar fazer uma obra, assim como só dentistas devem ficar entusiasmados com tratamentos de canal.

Para minha infelicidade, um novo vizinho do prédio, ainda de feições desconhecidas, é um desses excêntricos que declaram por aí – socialmente, em festas, como se fosse normal! – que adora uma obra. Veja bem, essas pessoas não curtem o resultado, a casa nova, modernizada, para exibir aos amigos. Elas juram que gostam mesmo é de ver tudo demolido, canos furados por engano, descobrir colunas que não constavam na planta, ver sacos de entulho saindo pela garagem.

Para eles, reforma boa é aquela que destrói apartamentos inteiros (com vizinhos enlouquecidos por todos os lados). À noite, sonham com tijolos, argamassa e latas de tinta. Ficam tão desolados quando finalmente as paredes se erguem que mandam derrubar tudo de novo, para recolocá-las em outro lugar. E eu embaixo…

21 de Janeiro de 2010

Clarice até março

Arquivado sob: Diversão e arte — Marta @ 17:19

claricebeth 1 2 - claricebeth 1 2

O esforço valeu a pena, e ontem consegui finalmente ver a peça “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, estrelada pela atriz Beth Goulart. A boa notícia é que o espetáculo, que ameaçava ficar novamente em curtíssima temporada, estará em cartaz no Teatro Sesi do Rio até março.

A minha história com Clarice é curiosa. Descobri e amei a escritora na adolescência. Depois de, digamos, adulta, suficientemente desintoxicada de seu texto (que impregna a alma e explica a devoção de seus fãs), passei a acreditar que aquela tinha sido apenas uma fase adolescente e mulherzinha. Cheguei a considerar pertinente uma crítica que ouvira sobre Clarice ser um pouco repetitiva.

No ano passado, com a volta dela à mídia, retomei seus contos, encantada. Ah, como pode ser nocivo se afastar de Clarice. A coletânea “Clarice na cabeceira”, por sinal, tornou-se o meu título de fim de ano preferido para presentear amigos, desejando assim que eles a mantenham por perto. Os contos são apresentados por fãs célebres, que aparentemente tiveram liberdade para escolhê-los.

Dois deles estão na peça, e a interpretação de Beth Goulart, espantosamente parecida com a escritora em cena, acaba por revelar novas nuances no texto. O resultado final - cenário, iluminação etc - é lindo de morrer, imperdível para fãs de Clarice Lispector.

18 de Janeiro de 2010

Lula, o filme sem boca a boca de urna

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 11:57

No final, nem eu vi o filme sobre o Lula… Explicações sobre o fiasco estão no Globo de ontem (clipado aqui) e algumas delas passam ao largo da questão política. Achei interessante especialmente a visão do diretor da Filme B, Paulo Sérgio Almeida:

- Nenhum filme sobre o Flamengo fez o público que se esperava, assim como filmes sobre Zico, Pelé ou a Seleção. Não se transfere o público dos estádios para os cinemas com igual proporção. Com a política, a lógica é igual.

Claro que se o filme fosse espetacular, e a estratégia de lançamento tivesse funcionado, o boca a boca teria nos impulsionado às salas de cinema, mesmo nas férias, mesmo não gostando (mais) do PT. Mas não foi o que aconteceu.

Um comentarista lá do Digestivo diz que sou ruim de previsões, com toda a razão. Por falar nisso, sabe qual é meu palpite para o Oscar? Brincadeirinha…

13 de Janeiro de 2010

Verão do yog-alguma-coisa

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 10:43

Se no ano passado tivemos o verão do cone (leia-se temaki), este é o verão do sorvete de iogurte.

Sim, sei que não chega a ser novidade, e que o modismo é até importado. Mas, da minha modesta visão de quem observa as férias dos outros enquanto trabalha, nada bomba mais na zona sul carioca do que as tais sorveterias yog-alguma-coisa.

De vez em quando entro na fila (impossível uma sorveteria sem fila, com um calor de 40 graus) e presto a atenção nos idiomas. Nunca fui tão abordada por gringos (ou vendedores desesperados por uma tradução) querendo informações em inglês. E olha que o câmbio nem está favorável para eles.

Sei que isso vai parecer meio arrogante, mas às vezes me aborreço, quando vejo os meus lugares preferidos invadidos pelos turistas, fila para todo lado. Fico com saudades da baixa temporada, quando sou bem atendida e meu café preferido parece só meu. Será que vem daí o mau humor dos parisienses?

E lá vou eu, comparando o Rio com Paris, depois de ter feito isso com Nova York no post abaixo… Mas não deve ser por acaso. Acabo de ler no jornal que em 2016 teremos um nível de pobreza no Brasil abaixo dos 4%, mesmo índice dos países ricos, se tudo correr como o previsto.

Difícil conter o otimismo, o espírito ufanista. Mas o fato é que os indicadores da economia batem com o que vemos nas ruas. E eu que imaginava que o futuro do país do futuro nunca chegaria. Viva o verão do sorvete de iogurte.

9 de Janeiro de 2010

Manhattan emergente

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 18:03

Se é verdade que, no novo jogo de forças global, chegou a vez do Brasil, em contraposição à derrocada americana, a zona sul do Rio é a nova Manhattan. No verão do aquecimento - da economia e do clima -, Ipanema tornou-se um lugar efervescente. E caro.

Ouvem-se todas as línguas, na praia, no comércio, nos restaurantes. O comércio, por sinal, mal dá conta das vendas. Havaianas fazem a festa dos turistas. Os preços sobem, com a demanda. O metro quadrado no Leblon continua em alta, inacreditavelmente. Crise, que crise.

Mas não espere de uma Manhattan emergente o mesmo charme compacto de sua matriz americana. A diversidade interessante convive com calçadas mal acabadas, camelôs que fogem do rapa, lojas feias ao lado das descoladas, lixo nas ruas, pedintes, medo de assalto.

Quem sabe não está nas contradições o novo charme emergente, que fez de Lula um inesperado líder global? O mundo dos ricos ruiu, algo precisava ficar no lugar, e surgimos nós, com nossas favelas e caipirinhas.

4 de Janeiro de 2010

A tsunami de Angra

Arquivado sob: Cotidiano — Marta @ 09:50

O apresentador da TV insiste, atônito:

- Mas não deveriam ter feito uma obra de contenção na encosta?

O especialista bem que gostaria de atender à súplica do jornalista, dar a resposta pela qual anseiam os espectadores, dizer que sim, a culpa é das autoridades competentes, mas simplesmente não pode. A tal obra seria inviável, ninguém pensaria em fazê-la, não havia desmatamentos na região, as explicações apenas envolviam os movimentos da natureza. Indomável, como a tsunami.

Gastamos a vida em busca de um sentido. Na falta dele, um culpado. O governo, a especulação imobiliária, os destruidores da natureza, alguém que poderia ter evitado a tragédia, porque elas sempre deveriam ser evitáveis, e não gratuitas. Alguém tem que pagar por elas, tão caras, nem que seja moralmente.

Se não foi um vírus, transmitido por alguém a quem se pode tudo atribuir, que tenha sido erro médico. Que o câncer tenha sido fabricado pelo rancor da própria vítima, ela também culpada. Ou quem sabe a explicação resida na carga genética, e também aí teremos um raciocínio para nos aplacar, na falta da fé religiosa. Foi deus quem quis já não satisfaz a maioria.

Tudo, menos o acaso. Menos dizer que a morte faz parte da vida. Isso sim, é insuportável, insuficiente para anestesiar a dor.

Que os parentes das vítimas (de que algoz?) de Angra consigam conviver com ela, a dor.

31 de Dezembro de 2009

Previsões

Arquivado sob: Crônicas — Marta @ 16:31

Nada é mais previsível do que o Natal. Sabemos exatamente qual será o cardápio da ceia, que o assado estará cheiroso, mas um pouco seco; que vamos encontrar aquele parente chato, mas pelo menos dará pra falar mal dele depois; que falta de assunto se resolve com um vinho gelado, ou cerveja mesmo; que alguém nos oferecerá panetone, mas já que é para enfiar o pé na jaca, melhor optar pela rabanada; que no fim do dia teremos a sensação de dever cumprido e pança cheia, típica da data, e então será hora de pensar no réveillon.

Você bem que tentou antecipar as compras de Natal, mas faltou tempo ― sabe como é o mês de dezembro… Nos telejornais, imagens de shoppings lotados mostraram o sufoco que você passou, meia hora para conseguir uma vaga, fila até nas escadas rolantes e mesas compartilhadas com estranhos na praça de alimentação, enquanto o esforço para ser criativo e econômico nas lembrancinhas ia por água abaixo. Quando as liquidações começaram, no dia 26 de dezembro, tudo pela metade do preço, você jurou que no ano que vem fará diferente, pretende sumir do mapa natalino e reaparecer depois ― com alguns óleos relaxantes, do spa onde se refugiou, para eventuais trocas de presentes tardias.

Pensando melhor, você não é mais um adolescente rebelde, e nesta época do ano convém admitir que, vá lá, família não é tão ruim assim. Então lembrará que as crianças se divertiram, que o parente chato, no fundo, bem lá no fundo, até que é gente boa, e o problema agora é decidir o que fazer com os presentes inúteis que ganhou e jurou ter gostado. Pode tentar trocar na loja, aproveitar para comprar uma roupa branca para o ano novo e para isso precisará… encarar o shopping! Pois é, nem mudou o ano e está fazendo tudo o que mais odeia, de novo.

Ok, você reconhece a recaída, mas jura que em 2010 será diferente. Para garantir, faz (ou atualiza?) a sua lista de resoluções. A vida passa rápido, é preciso ser feliz já, focar no que vale a pena, e essas mensagens de Natal que odiou responder acabaram deixando-o meio meloso. Seria 2010 o ano de sua guinada? Pensar de forma mágica ajuda, por isso você vai entremear a sua lista de obrigações chatas, que não serão cumpridas (perder três quilos, poupar 20% do salário), com iniciativas mais exóticas (conhecer um país, tocar um instrumento). Afinal, fazer essas listas é como jogar na Mega-Sena; a única serventia é poder sonhar um pouco.

Confesso que, entre as listas obrigatórias de fim de ano, tive dificuldades com a sugerida pelo Especial do Digestivo, com “melhores de 2009″, já que meu retrovisor anda um tanto embaçado. Como a bola de cristal está tinindo, vamos às minhas previsões para o ano novo, outra lista deliciosa de fazer:

Em 2010, meia dúzia de celebridades vai dar mancada no Twitter e ficará um pouco mais célebre por causa disso.

Em 2010, famoso deixará definitivamente de ser adjetivo para ser considerado um substantivo.

Em 2010, a audiência da Globo terá novo recorde negativo, e ainda assim todo mundo à sua volta saberá o nome do protagonista da novela das oito, e achará pedante você fingir que não sabe.

Em 2010, a morte do livro será decretada 57 vezes por especialistas em mídias digitais.

Em 2010, o cinema alternativo vai tentar ser mais comercial, mas sem fazer concessões à arte, e o cinema comercial com pinta de alternativo vai ganhar o Oscar.

Em 2010, você vai assistir ao filme sobre a vida de Lula.

Em 2010, uma nova rede social vai substituir o Facebook, invadido pelos pobres do Orkut.

Em 2010, a política vai tomar conta da sua caixa postal, você vai acabar se envolvendo no assunto apesar de tudo o que disse antes, e defenderá o candidato menos ruim na mesa do bar.

Em 2010, comentários sobre o tempo deixarão de ser (falta de) assunto de elevador para ganhar ares de papo-cabeça-ambientalista-engajado.

No final de 2010, quando os críticos forem fazer as listas de melhores da década, algum espírito de porco lembrará que elas foram feitas um ano antes.

***

Já que a coluna acabou versando sobre os inevitáveis lugares-comuns de fim de ano, não poderia deixar de citar ― e recomendar ― um livro no qual estou viciada: O Pai dos burros ― Dicionário de lugares-comuns e frases feitas, de Humberto Werneck. Para quem escreve, é uma diversão tê-lo ao lado do computador. Ao menor sinal de clichê brotando no texto, pego correndo o “dicionário” e fico eufórica ao constatar que, sim, ele está lá, devidamente catalogado.

O maior prazer, porém, não é evitar clichês e perceber a qualidade que o texto ganha sem esses penduricalhos. É poder empregá-los mesmo assim, consciente de sua função de “proteger-nos da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos em virtude de sua mera existência. Se respondêssemos todo o tempo a essa exigência, logo estaríamos exaustos” (Hannah Arendt, em A vida do espírito, citada no prefácio).

Já pensou como o Natal seria (mais) exaustivo sem o “Feliz Natal”? Pois então, sem pedir perdão pelo lugar-comum, um feliz Natal e um próspero ano novo para você.

***

Em tempo: encontrei nesta coluna pelo menos quatro “antipérolas” citadas por Werneck em seu livro. São elas: “enfiar o pé na jaca”, “dever cumprido”, “sumir do mapa” e “por água abaixo”. Quem sabe você descobre outras.

(coluna publicada no Digestivo Cultural em 25/12/2009)

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