- Minha sobrinha acha normal beijar três meninos na mesma festa. O “bulling” agora é praticado na internet: jovens colocam fotos e informações falsas em redes sociais para prejudicar os colegas. São crianças mal-educadas, que não falam “bom dia” no elevador. Cresceram sem pais por perto; eles estavam ocupados demais para educar seus filhos. Não existe moral entre as novas gerações, nem ética. Eles simplesmente não se importam com os outros.
Eu fiquei ouvindo aquilo tudo estarrecida. Como o discurso, na realidade, foi emendado – e referendado – por várias pessoas na roda, parecia difícil discordar. E todos concordavam: colocar um filho no mundo de hoje é desanimador.
Foi então que percebi que a maioria do grupo – com exceção de uma mãe com os filhos já adultos – não tinha filhos, apesar de já terem idade mais que suficiente para isso.
Estavam falando de um ponto de visto distanciado e crítico. Sabe quando a gente está tentando conversar no restaurante mas deu o azar de sentar ao lado de uma mesa com dois ou três pestinhas? Dificilmente vai reparar que o menorzinho é uma graça, e considerar que criança nesta idade é difícil mesmo. Vai-se apenas odiar crianças, em geral.
Pois eu tentei discordar – a proximidade com o tema costuma me fazer reparar nas gracinhas do caçula ao lado. Diante da descoberta de que ninguém ali tinha a experiência recente da maternidade ou da paternidade, tentei em vão chamar a atenção para a minha posição privilegiada. Mas só depois, na mesa do bar, consegui que ouvissem meus argumentos:
- Não vejo essa maldade toda nas crianças ou nos adolescentes de hoje. Nada que não houvesse em gerações anteriores; e posso lembrar de coleguinhas terríveis na minha escola, filhinhos de papai inconseqüentes e até delinqüentes, que praticavam o tal “bulling” antes que ele fosse diagnosticado socialmente.
Ufa, tinha conseguido chamar a atenção. Como é difícil ser interessante falando ‘bem’ dos outros.
- Só quem tem filho sabe como, na essência, uma criança quer agradar. Os pais, os adultos. As crianças fazem maldadezinhas, testam os limites, querem aprender as regras do mundo, ter certeza de que o errado é sempre considerado errado. Estão em processo de construção.
E embalei:
- Podem não falar “bom dia” e esquecer do “obrigado” por falta de pai e mãe por perto, porque isso é algo que se aprende com um adulto chato ao lado, lembrando as “palavrinhas mágicas”. Não vou dizer que estão certos, mas talvez essa eventual distração, a correria e o individualismo, seja apenas reflexo dos novos tempos.
- Talvez, em outras situações, esses jovens não se esqueçam do “valeu”, como quando são ajudados na mesma internet onde também ocorre o “bulling”. Como os jovens hoje são solidários e participativos, se valendo da tecnologia! Talvez a moral não tenha acabado, só mudado. E beijar vários meninos na mesma festa tenha algum novo sentido, que eu, como velha geração, ainda não consegui captar.
- Se ensino a minha filha a não esquecer o “bom dia”, ela também me ensina muitos dos valores das novas gerações. Foi ela quem me ensinou, depois de uma bronca, a não escovar os dentes com a torneira aberta. Esse valor, de preservar o meio ambiente, é um valor novo, e genuíno, das novas gerações.
- E vamos ter filhos, pessoal!