Na era do rádio

Publicado por Marta em 02 Jul 2009 | sob: Cotidiano

Muita gente está se gabando que soube da morte do Michael Jackson pelo Twitter. Achei curioso porque, naquela noite, cheguei em casa com a novidade fresquinha por causa do… rádio! E olha que eu estava sintonizada, no carro, em uma emissora com programação musical (MPB FM), e não de notícias.

Nunca tive uma relação especial com o rádio, uma mídia para a qual nem cogitei trabalhar. Só dei conta de que sou, sim, uma ouvinte há dez dias, quando algo inédito me aconteceu: fui entrevistada pelo Ibope (aquelas pesquisas que a gente duvida da existência até saber de alguém que participou).

A mocinha começou com umas perguntas bem chatas, e demorei a perceber que o seu foco era o rádio. Lá pelas tantas, depois de me fazer contar banheiros e televisores, perguntou quantos aparelhos de rádio eu tinha em casa. Diante de meu silêncio, ela ajudou: “Pode contar com os radinhos de pilha guardados no armário.” Busquei na memória pelo menos um, no fundo da gaveta, e nada.

Não, eu não ouvia rádio, fui me preparando para responder. Às vezes recebia links de comentários feitos na CBN, e olhe lá. Via-me moderna, diante do computador e desfeita de qualquer radinho de pilha do passado, quando a entrevistadora tomou as rédeas novamente. Graças à técnica de estímulos (listou o nome de todas as emissoras), acabei me lembrando do hábito no carro. Ela queria saber em que horário exato eu sintonizara na véspera. Excepcionalmente, não tinha dirigido durante a “Hora do Blush”, programa que adoro na Rádio Paradiso, mas menti ter ouvido. Falei da CBN via computador e tentei por em alguma resposta a MPB FM.

Já ia desligando o telefone, quando me deu um clique: eu simplesmente ouço rádio o dia inteiro. Como o prédio em que trabalho dispõe de um sistema de som central, acabo ouvindo a JB FM direto, como música ambiente. Fiquei na dúvida se falava (pertence ao Tanure?), mas acabei admitindo. “Muda tudo no questionário!” Pelo visto, sou das antigas, mesmo sem radinho de pilha.

Palavras que explodem no chão

Publicado por Marta em 30 Jun 2009 | sob: Crônicas

O papo on-line corria solto, a partir de um link qualquer sobre “monetização” de blogs. Um participante do grupo, fazendo piada sobre o próprio desempenho como blogueiro empreendedor, revelou ter obtido por meio do AdSense um fabuloso lucro de US$ 0,57, o suficiente para comprar uma carteira de Derby. Um de seus interlocutores, provavelmente não fumante, sentiu a necessidade de uma comparação mais próxima, e lembrou que daria também para adquirir um pacote de estalinhos.

“O que é estalinho?”, perguntou o blogueiro fumante, fazendo desaparecer subitamente o tom jocoso da conversa. Eu, que às vezes me sinto infiltrada no grupo de colaboradores do Digestivo, entre tímida e ocupada demais para participar, percebi a enrascada de quem tinha feito a comparação. Como você, leitor que sabe o que é um estalinho, faria uma descrição rápida e por escrito do que se trata?

No impulso, o não fumante foi explicando: “Ah, é um trem que a gente joga no chão…” Aqui a interrupção é minha. Um mínimo dos vocábulos usados no Rio e em São Paulo eu domino, porque morei nas duas cidades. Em assuntos relacionados ao universo infantil, considero-me quase especialista, já que presenciei a transformação de “bexiga” em “balão”, “escorregador” em “escorrega” e “bolacha” em “biscoito” no ainda parco vocabulário da minha filha, na época da mudança. Estalinho, eu poderia garantir, faz parte de ambos os idiomas, “paulistês” e “carioquês”. Mas nenhum paulista ou carioca se referiria a um artefato do tamanho de uma ervilha como a um “trem”. Pelo visto, os domínios do estalinho eram maiores do que eu imaginava, deviam chegar também a Minas Gerais.

Enquanto eu tentava buscar no cérebro registros de “trens” pequeninos além-Minas, para não rotular precocemente o não fumante de mineiro, um outro participante do grupo colocou mais ruído na conversa. “Acho que estalinho é o mesmo que biriba em São Paulo”, arriscou. Teria saído da festa junina e foi parar no carteado, confundindo as brincadeiras? Ou eu estaria enganada dessa vez? Uma busca rápida no Aurélio confirmaria que o outro nome dado ao biriba é buraco, e não estalinho. Mas acabei fazendo nova descoberta: além do jogo de cartas propriamente dito, biriba é também o nome do morto.

O nome do morto??? Sorte eu não ter entrado na conversa para explicar que biriba pode ser o morto do buraco. Já pensou a confusão, se o jogo só for conhecido assim no Rio? É verdade que o “carioquês” costuma ser bem compreendido em outros estados, provavelmente por conta das novelas da Globo. Mas daí a correr o risco de precisar esclarecer, em poucas palavras, o que é um jogo de buraco ou pacote de estalinho, sem direito a nenhuma mímica… Pois o Aurélio consegue, com pouca concisão. “Biriba: cada um dos montes de cartas que os parceiros que primeiro descartam as suas tomam para continuar o jogo, sem o quê não podem bater. Morto.” Pela primeira vez me dei conta de como deve ser difícil a vida de um dicionarista. Não dava para culpar o provável mineiro por dizer que estalinho era um trem: como é difícil achar as palavras exatas para explicar algo tão simples!

Como ele ia dizendo, estalinho é um trem que a gente joga no chão e, continuou, “…explode, fazendo um estalo. É assim que a gente chama aqui no Amapá.” Outro equívoco desfeito: apesar de recorrer ao “trem”, o não fumante tampouco era mineiro.

Confesso que, nessas alturas, estava deliciada. Sou totalmente fascinada pelos regionalismos que separam e unem o nosso país. Por trás de cada expressão que nos causa estranhamento, está uma riqueza cultural a ser explorada, palavras nada aleatórias que revelam um pouco da história daqueles brasileiros ― tão diferentes, tão parecidos. E a aventura desse encontro dispensa agora longas jornadas de ônibus, passagens caríssimas de avião etc. Está tudo aqui, bem vivo, na internet, em bate-papos de gente que é amiga mas curte os festejos juninos de forma diferente. No final, todo mundo se entende.

O trem, por exemplo, não atrapalhou. A explicação do amapaense foi suficiente para o blogueiro fumante e pouco “monetizado” entender o estalinho. “Saquei. Em Recife é traque de massa e aqui em Brasília eu não me lembro.” Traque de massa. Bárbaro. E eu me achando muito culta com meu limitado vocabulário Rio-São Paulo. No dicionário, finalmente, decifro a charada inteira. Com as festas de São João tão próximas, vale a pena anotar. “Estalo: artefato pirotécnico, assim chamado porque dá um estalo quando arremessado contra um corpo duro.” No Norte, é conhecido também como troque; em Alagoas, traque de chumbo; na Bahia, traque de massa; e no Rio haveria uma segunda denominação, de chumbinho (nunca ouvi falar).

Para quem não se encanta com o assunto, como eu, e acha que os transtornos na comunicação superam a curiosidade de encontrar expressões inusitadas aos nossos ouvidos regionais, vale lembrar que a confusão só vai aumentar. Tudo indica que, com a padronização do português, e seus reflexos em iniciativas editoriais, teremos muito mais contato com expressões lusitanas. Antes de reclamar pela enésima vez da tal unificação, vejamos o lado positivo: com um pouco de paciência, teremos muita diversão pela frente.

(Publicado originalmente no Digestivo Cultural)

Na internet, para sempre

Publicado por Marta em 26 Jun 2009 | sob: Cotidiano

Está todo mundo impressionado com a agilidade que a internet ganhou com o Twitter. O “furo” da morte de Michael Jackson, ontem, foi atribuído a um blog de celebridades americano, e espalhou-se feito rastilho de pólvora, graças aos seguidores da rede social.

Está todo mundo impressionado, menos eu. Eu ando surpresa é com outro aspecto, quase oposto, da internet: a perenidade.

Quando surgiu (para mim), a internet já chegou com a embalagem de “tempo real”, graças às agências de notícias. Uns 15 anos atrás, lembro de ir para coletivas de imprensa com um celular “tijolão” na bolsa, com a incumbência de passar um “flash” para a Agência Globo, enquanto apurava a matéria para o jornal. Talvez por conta disso, e do meu cansaço com a cobertura “hard news”, naqueles primórdios decretei que a internet não era a minha praia: nela, o importante era a velocidade, não a profundidade. Dizia-se que os textos tinham que ser telegráficos (140 toques, como o Twitter?) e ficavam velhos instantes depois de serem lidos na tela.

Quando comecei a blogar, há dois anos, percebi que esse caráter descartável da internet era bem relativo. Daqui a alguns meses ninguém vai querer ler um texto que começa com “a morte do Michael Jackson ontem”, certo? Não tenho mais essa convicção. Comecei a perceber que novos leitores do Espuminha, apesar das referências temporais nas postagens antigas, embalavam na leitura, iam até o fim do blog. Como fazemos com um livro de crônicas.

Depois vieram as redescobertas de textos antigos. Quando o Júlio Daio, editor do Digestivo Cultural, pediu a minha autorização para colocar “Jornalista e empreendedor?” no site, fiquei feliz, mas um pouco dividida. Aquele texto era velho, eu nem sabia se ainda concordava com aquilo! Fui percebendo que o preconceito era meu, acostumada que estava com a inevitabilidade de virar embrulho de peixe no dia seguinte. O resultado de ter (re)lançado o depoimento na rede pode ser visto nos comentários emocionados de pessoas que se identificaram - e ainda se identificam - com o que eu escrevi.

Assim acontece, de tempos em tempos: graças às buscas no Google, um texto antigo ganha admiradores, links, comentários. Fiquei especialmente feliz quando, há poucos dias, o escritor Antônio Torres elogiou essa crônica que eu tinha escrito em janeiro, em que citava uma aula sua. Tudo porque um irmão dele, o blogueiro Tom do Junco, descobriu o texto em suas buscas na internet, e pediu para colocá-lo em seu blog. Com a movimentação de novos leitores, a crônica acabou sendo lida também por Moacyr Scliar, que enviou uma mensagem adorável para a minha última coluna do Digestivo.

A ideia da internet como importante registro histórico é hoje mais empolgante para mim do que sua instantaneidade. Outro dia comprei um livro da poeta Ana Cristina César que reproduz seus escritos exatamente como foram encontrados por sua mãe, em uma pasta cor de rosa. Fiquei imaginando que, um dia, poderemos descobrir na internet poemas soltos de artistas que não foram devidamente reconhecidos em vida, “pastas rosas” no fundo da gaveta de portais literários…

Na internet, quem determina a perenidade de um texto são os leitores - os de hoje e os do futuro.

Eu sou fiscal do Sarney

Publicado por Marta em 23 Jun 2009 | sob: Cotidiano

Sarney 1 - Sarney 1

Quando o Toninho Malvadeza morreu, pensei: só assim nos livramos dessas figuras historicamente detestáveis da política brasileira. Com o inabalável Sarney, temia desfecho semelhante, que precisássemos esperar o homem lá em cima dar a ordem.

Mas não é que o sujeito, no fim (?) de sua carreira de “coronel”, conseguiu se superar, a ponto de seu poder ficar insustentável no Senado? Pois tomara que vá para casa logo, porque já vai tarde.

Do conto do vigário ao “fishing”

Publicado por Marta em 22 Jun 2009 | sob: Cotidiano

Imagine um profissional que, para ser bem sucedido, precisa conhecer os recônditos mais obscuros da alma humana. O lugar onde mora a curiosidade pelo mórbido, a atração pelo grotesco, a perversidade, as fantasias sexuais não assumidas, a ganância e tantos outros impulsos devidamente domesticados pelas regras sociais.

Assim eu suponho que sejam os hackers (ou seria crackers?) especializados na prática de “fishing”. Mesmo que você não tenha sido vítima, com certeza sabe do que estou falando. Trata-se da tentativa de infiltrar um vírus no seu computador (para roubar senhas de banco, por exemplo) a partir de um link falso.

E o que faz alguém ter o impulso de clicar em um link desconhecido, mesmo sabendo das muitas armadilhas da internet? A observação mais atenta das promessas usadas pelo “fishing” pode nos revelar como esses profissionais do mal conseguem driblar a racionalidade humana.

Ontem, por exemplo, recebi um e-mail com o remetente “G1 Notícias”. Como não assino qualquer newsletter do site, identifiquei na hora a sua falsidade. E o que prometia o link? Imagens de corpos dos passageiros do avião da Air France que caiu no oceano Atlântico. Fiquei chocada com a estratégia – mais ainda quando pensei que deveria funcionar.

Acredito que a internet reflete o mundo como ele é: a diferença fica por conta da facilidade de se adentrar no submundo, com apenas um clique. A geração que cresce junto com a internet saberá conviver com essa situação com naturalidade, aprenderá a se preservar e terá consciência de que o clique é uma escolha, importante como outras na vida.

Nós, que temos um cérebro com conexões diferentes, ficamos assustados. Às vezes dá vontade de desligar o computador e sair correndo para a vida “real”. Uma vez quase cliquei em um link falso, que confirmava a compra de uma passagem da Gol. Era sábado, estava despreocupada em casa, e na tela do celular o e-mail parecia autêntico.

Ou seja, vidas real e virtual já se misturaram faz tempo, e só resta a nós (não dotados dessa inteligência natural para lidar com as muitas nuances da internet) mantermos a vigilância. Inclusive no fim de semana.

E lembrar que foi da vida real que saíram muitas das técnicas empregadas pelo “fishing”. O velho conto do vigário, por exemplo, sempre se valeu da tática de despertar a cobiça em sua vítima, a possibilidade de um ganho fácil. Muito mais do que apelar para a sua ingenuidade.

Sem canudo

Publicado por Marta em 18 Jun 2009 | sob: Jornalismo

Assim, de supetão, fui invadida por dois sentimentos quando soube do fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo.

1) Medinho (em relação à imagem da profissão). Será que vão começar a pipocar por aí peruas se intitulando “atriz, modelo e jornalista”? Céus!

2) Alívio. O fantasma do corporativismo pesava demais sobre a profissão. Agora bastará mostrar quem é bom, e constatar se a faculdade é importante (ou não).

***

Para os jovens que “investiram” no diploma e estão chateados (podiam ter feito faculdade de economia, por exemplo, se tinham foco em jornalismo econômico), vou contar uma historinha. Tenho uma amiga que precisa editar, todo mês, reportagens especializadas, escritas por jovens jornalistas que ainda estão se familiarizando com aquele assunto. Ao mesmo tempo, ela também recebe, para a edição, colunas e artigos escritos por profissionais especializados, que não são jornalistas.

Um dia perguntei a ela o que era mais fácil: ensinar jornalistas a escrever sobre um assunto difícil ou ensinar os articulistas especializados a elaborar um texto mais claro e palatável. Ela não hesitou. Era muito mais fácil editar o texto de um jornalista. Sempre. Moral da história: só se torna jornalista de fato quem tem o dom (ou a técnica) de se comunicar.

Que Francine?

Publicado por Marta em 15 Jun 2009 | sob: Cotidiano

Uma enorme fila saía agora há pouco da Letras & Expressões, no Leblon, avançando pela calçada. Alguma agitação é comum na livraria, pequena e badalada, mas eu nunca tinha visto um tumulto daqueles antes. Na certa, era noite de autógrafos de algum artista badalado.

Esperando o sinal fechar para atravessar a rua, observei que a esmagadora maioria da multidão era composta por mulheres. Grupos de mulheres e adolescentes. Minha curiosidade aumentou. Na hora de ultrapassar a fila, aproveitei uma das poucas jovens sozinhas para perguntar quem está dando autógrafos.

- É a Francine - responde a moça. Diante da minha cara de espanto, continua a explicação - Ela está na capa da Playboy, você não sabia?

Não, eu não sabia. Pior, ignorava quem era Francine. Tive dificuldades de me explicar em meio ao burburinho de mulheres excitadas, prestes a obter um autógrafo de Francine. Que Francine?

- Do Big Brother!

Ufa. Não era a nova estrela da novela das oito. Minha ignorância estava perdoada, pelo menos por eu mesma.

E eu pensando que um escritor finalmente tornara-se pop no Brasil…

O último filme sobre o velho e bom jornalismo

Publicado por Marta em 15 Jun 2009 | sob: Diversão e arte, Jornalismo

intrigas - intrigas

Ele é um veterano jornalista cabeludo, sujo e solitário. Ela é uma jovem blogueira bonita, mal paga e inexperiente. Ambos trabalham para a mesma organização, nas versões papel e online, em tempos de transformações e crise no jornalismo americano. Acabam obrigados a compartilhar a investigação de um crime.

Esse é o ponto de partida de “Intrigas de Estado”, um filme com ares de derradeiro no gênero que abrigou clássicos como “Todos os homens do presidente” e “O jornal”. Parece também uma melancólica homenagem ao bom jornalismo, cuja morte iminente é motivo de ironias destiladas por personagens propositadamente carregados dos estereótipos da profissão.

O mocinho da história é encarnado pelo ator Russell Crowe, que despreza a blogueira e o futuro que ela representa. “Ela é barata e faz uma matéria por hora”, “defende” a diretora da redação, vivida pela ótima Helen Mirren. O velho repórter acaba se rendendo à parceria, depois de deixar claro que estarão atrás de fatos - e não de fofoca ou opinião. Quando os conflitos entre a dupla se dissipam, surgem os verdadeiros vilões: o poder econômico e os interesses políticos, que desdenham da imprensa enfraquecida.

Achei simbólica a estreia desse filme na semana em que a imprensa brasileira precisou se unir para conter os métodos de um blog criado pela maior empresa do país. A Petrobras obteve o apoio maciço da blogosfera, que viu na estatal uma aliada contra o poder dos impressos. Menciono esse apoio de forma intuitiva: como tudo que acontece na rede, a onda de manifestações não se tornou institucional, nem gerou um debate mais aprofundado. O blog corporativo foi identificado como o “David” (Petrobras) contra “Golias” (os jornais), o que gerou simpatia, refletida em posts e comentários com simplificações do conflito que se replicaram pela web.

No final da semana, a imprensa posou de vitoriosa, porque a Petrobras voltou atrás na sua intenção de usar o blog para “furar” os jornais – algo tão estapafúrdio que o desfecho não poderia ser outro. No entanto, o fato de o enfrentamento ter acontecido, e de os jornais precisarem expor argumentos em suas páginas, transformando-se em notícia (algo que a mídia abomina), acabou revelando o processo de enfraquecimento do “quarto poder” também no Brasil.

Ou seja, qualquer semelhança com “Intrigas de Estado” não é mera coincidência.

A mula, o padre e o deus menino

Publicado por Marta em 10 Jun 2009 | sob: Crônicas

Ela chega da escola com um arzinho triunfante. Dessa vez, iria conseguir impressionar os adultos. Não seria igual ao dia em que exibiu seus conhecimentos sobre os índios tamoios, nem quando revelou saber o nome dos ossos do esqueleto. O desdém dos pais estava com os minutos contados.

O novo assunto, aprendido naquela tarde, parecia ser daqueles totalmente ignorados por adultos. Não iriam fazer correções nem ficar acrescentando coisas.

- Estou fazendo um trabalho de grupo sobre a mula-sem-cabeça, para o dia do folclore – e foi erguendo as sobrancelhas, orgulhosa. - Sabia que a mula solta fogo pelo nariz? Para ela voltar a ser mulher tem que tirar um ferro que fica bem aqui – e arreganhou as narinas.

Pronto. A mãe era toda ouvidos.

- Então a mula é uma mulher?

- É uma mulher que casou com um padre – explica, didaticamente, tentando também atrair a atenção do pai, no computador.

- Mas padre não pode casar, filha.

- Não? Por quê?

- Sei lá, é como se ele já fosse casado com deus, e tem que cuidar do seu rebanho, essas coisas de igreja.

- Mãe: deus é menino, então não pode casar com padre, que também é menino – afirmou a garota.

A mãe suspirou.

- Olha, às vezes meninos casam com meninos, e meninas com meninas. Não é o mais comum, mas acontece, quando homem gosta de homem e mulher gosta de mulher.

A garota arregalou os olhos. Já ouvira falar daquilo, mas tinha esquecido.

- Mas aí não pode ter filho, né?

- Não. Quer dizer, outro dia li que duas mulheres fizeram uma inseminação… Bem, é complicado ter um filho natural, mas o casal pode adotar…

Como aquilo estava ficando chato, ela rapidamente voltou à aula de folclore:

- Sabia que a mula não consegue enxergar direito, e só vê as unhas e os dentes das pessoas? Então, quando tiver uma mula-sem-cabeça por perto, você precisa fazer assim.

A menina grudou os lábios e cerrou os punhos. A mãe deu uma risada. O pai já olhava de soslaio.

O “outro lado”? Só no dia seguinte

Publicado por Marta em 08 Jun 2009 | sob: Jornalismo

Os blogueiros escolheram o lado errado. Afoitos que andam em criticar a imprensa, e sem muito conhecimento de como se faz jornalismo investigativo, resolveram apoiar a Petrobras, que oficializou uma nova conduta no seu relacionamento com jornalistas: vai responder em um blog corporativo qualquer solicitação da imprensa, antes que a reportagem seja veiculada.

É muita ingenuidade acreditar que isso está relacionado apenas a uma busca de transparência por parte da estatal, alvo de uma CPI no Congresso. Parece ser esse o caso dos blogueiros que correram para defender a estatal, se posicionando contra os jornalistas das redações, que estão indignados.

Quando uma reportagem é exclusiva, fruto de uma investigação, o espaço destinado a ela é muito maior. É o velho e bom furo, daqueles que escreveram a história de muitas democracias. Se a notícia for bombástica, os outros veículos são obrigados a “ir atrás”, como se diz no jargão das redações. Tudo que empresas e governos não querem quando a matéria afeta a sua imagem.

Durante uma investigação, um jornalista (ou blogueiro!) precisa manter em sigilo a sua apuração, até porque ela ainda não foi concluída. Não é de hoje que organizações e pessoas atingidas por denúncias verdadeiras usam artifícios como o “vazamento” para tentar esvaziar o “furo” antes de sua veiculação, e diminuir a sua repercussão.

A novidade é a oficialização dessa estratégia - que, se for mantida, vai azedar uma relação muito mais delicada do que a de jornalistas e blogueiros, que é a entre jornalistas e assessores de imprensa.

Se a moda pega, teremos o fim dos “furos” (e das investigações). Ou, o que é mais provável, uma briga feia. Jornalistas passarão a não ouvir mais o “outro lado”, para garantir que as assessorias não divulguem sua pauta para veículos concorrentes. O direito de resposta será oficializado como uma “suite”, para prejuízo do leitor e da qualidade da reportagem.

Como isso ficará juridicamente? Boa pergunta, já que vivemos hoje um vazio jurídico sobre o assunto. E o que isso tudo tem a ver com a briga entre blogueiros e jornalistas? Rigorosamente nada.

Quem é vivo…

Publicado por Marta em 03 Jun 2009 | sob: Cotidiano

Ontem ganhei da Vivo um celular de mil pratas Ganhei mesmo; não foi uma daquelas promoções com aspas, nem jabá para colocar post em blog…

Tudo porque fui persistente na minha condição de consumidora sensata. Meu celular – na verdade um smartphone – ainda funcionava bem, com um plano antigo e vantajoso. Mas deve ter sido um dos últimos aparelhos vendidos com tecnologia CDMA - uma aposta fracassada da operadora.

Eu sabia que a tecnologia estava acabando no Brasil, mas apostei: não é problema meu. Que pensassem nisso quando me venderam o aparelho. Pois a estratégia deu certo. A Vivo está extinguindo o serviço móvel com CDMA, e não teve outra opção senão me oferecer um smartphone novo, com tecnologia GSM.

Por pouco não comprei outro aparelho no início do ano, para mudar de operadora, irritada com cobranças indevidas na minha conta. Durante três meses seguidos, enfiaram “serviços” no meu plano, como se eu tivesse aceitado ofertas do telemarketing deles. Uma trabalheira para conseguir os estornos.

Aliás, isso virou um inferno: na conta do condomínio do meu escritório também deram para inserir, discretamente, serviços opcionais (seguro e plano jurídico) na fatura. Se você está distraído, paga o valor total sem perceber o ardil.

Ser consumidor de serviços, hoje em dia, é cansativo. É preciso estar vigilante, ser mais esperto do que o prestador ou concessionário. Pelo menos dessa vez, consegui.

Junho com jeito de agosto

Publicado por Marta em 01 Jun 2009 | sob: Cotidiano, Jornalismo

O dia começou sinistro. Logo cedo, uma chuva forte caiu sobre o Rio, apagando qualquer vestígio da incensada luminosidade de maio. Nas bancas, nada de Gazeta Mercantil: o fim do jornal se confirmava. Nos Estados Unidos, outra GM, a dos carros, oficializava a sua derrocada, com pedido de concordata.

Se faltava alguma notícia para provar que junho chegou com ares de agosto, ela apareceu de forma contundente, para nos lembrar da única coisa realmente irreversível na vida. Um avião jazia no mar, com 228 pessoas que haviam embarcado no Rio.

A ideia de que duzentas famílias, naquele instante, experimentavam a pior das sensações humanas fez o dia cinza e sinistro parecer adequado. Não gosto especialmente de pensar na morte, tampouco de fugir desse pensamento, mas em um dia como hoje nos sentimos unidos no luto, por mais que isso pareça um clichê.

De tempos em tempos, por conta de uma tragédia próxima, ou nem tão próxima assim, somos arrastados para uma reflexão sobre a morte. Isso acontece comigo desde o dia em que descobri que não era imortal, 13 anos atrás. Passei a temer os acidentes e a morte, ou pelo menos ter consciência desse temor.

Os próximos dias serão difíceis. Ficaremos obcecados pelo noticiário, vamos tentar pensar em outra coisa, buscaremos os culpados. A vida logo vai nos arrastar para longe dessa reflexão/aceitação, e respiraremos aliviados. Os que perderam parentes, amigos e amores sofrerão mais e por mais tempo.

A estes, não há o que dizer. Sempre achei que a única expressão de condolência, com algum efeito, é abraço apertado. Mas outro dia vi uma expressão de pêsames on line que pode chegar perto. Um amigo teclou ao outro: putz, que merda. Então, na falta de outra, fiquemos com essa. Putz, que merda.

***

Trabalhei na Gazeta Mercantil apenas quatro anos, bem menos do que no Globo, por exemplo, onde foram nove. Mas muita gente me identifica como “gazeteana”. De fato, vivi ali os meus melhores anos de jornalismo, em vários sentidos. A “morte” da Gazeta mexeu muito comigo, mas tudo que eu pudesse falar sobre ela está neste texto perfeito do jornalista Thales Guaracy.

Catedral

Publicado por Marta em 29 Mai 2009 | sob: Comportamento, Viagens

Entrei na catedral, belíssima, pensando numa forma de guardar aquele momento na lembrança. A máquina fotográfica na bolsa, eu sabia, seria completamente inútil. Já havia tentado, em outra ocasiões, registrar detalhes, ângulos diferentes, mas o clique apenas se somava a outros tantos, digitalizados. Outras fotos de igreja. Nada que traduzisse, mesmo que remotamente, o ambiente silencioso e escuro, refúgio perfeito para meus sentimentos exaustos.

Se ao menos houvesse um concerto de órgão, como aconteceu em uma igreja de luzes amarelas que jamais se apagará de minha memória. Ou aquele casamento estranho (húngaro!), cuja celebração ecoava no templo grande demais para o número de convidados, com mulheres sentadas em seus vestidos espalhafatosos e homens enfileirados no altar.

Mas aquela catedral, em Santiago, seria apenas mais uma, mesmo linda e me deixando de olhos marejados. Minha memória me trairia, apegada a curiosidades mundanas, e não a sentimentos profundos.

Em uma última tentativa, fixei-me em uma mulher de cabelos compridos e rosto largo, que chorava baixinho em frente à imagem de Santa Teresa, na lateral da nau. De longe, fiquei observando-a, disfarçando a minha condição de turista. Mas percebi que também ela não seria suficiente. Não lembraria delas, catedral e mulher, daqui a dez anos, quando estiver contando a alguém que, sim, já fui a Santiago, e gostei muito - ou não tanto assim.

Já resignada com a lembrança perdida para sempre, flagrei-me pensando nos motivos que levavam aquela mulher às lágrimas. Talvez a morte de alguém querido, a vontade de ir embora também, depois de uma vida curta e cheia de tragédias. Ou, nada disso, ela enfrentava sua primeira adversidade, depois de uma vida de paparicos, e não sabia o que fazer com um sentimento de amor contrariado.

Foi então que descobri, de repente, que a catedral chilena não me escapuliria tão fácil assim. Em alguma daquelas gavetas secretas da memória, ela ficaria guardada, junto com a mulher sofrida, se fazendo de esquecida numa mente ocupada demais e repleta de preocupações. Mas um dia, diante do computador, ela estaria numa história, entrelaçada com outras lembranças, igualmente reservadas por emoções inconfessáveis. Inconfessáveis para mim. Mas não para a mulher de cabelos compridos e rosto largo, que finalmente contará tudo o que sentia.

Sonhos de liberdade

Publicado por Marta em 26 Mai 2009 | sob: Cotidiano

Com 20 e poucos anos, o meu sonho de liberdade era ter um carro. Poder ir e vir, na hora que quisesse, sem me preocupar com carona, horário de ônibus etc. Comecei a economizar aos 17 anos para comprar o tal carrinho, um Chevette Hatch tão simbólico que sua lembrança até hoje me enche de emoção. Anos depois, vendi o carro para um amigo que o bateu em seguida. Lembro-me de ter ligado para ele furiosa: como tinha feito aquilo com o “meu” Chevette?

Pois a conquista da liberdade pode ganhar muitos formatos, e nesta semana ela se materializou para mim em um netbook, de 1,1 quilo, quase imperceptível dentro da bolsa. Ontem eu me sentia como uma garota gazeteando aula, atrás de redes wireless para poder conectá-lo e trabalhar fora do escritório. Agora, vou poder ir e vir (na internet), na hora que quiser, sem as limitações da tela do smartphone. Meu Acer AspireOne é meu novo Chevette Hatch!

Claro que as limitações logo aparecerão (uma vez enguicei em frente ao Maracanã, na hora do rush) e conquistas assim têm um custo (R$ 1.200, no shopping de informática da Barra), mas agora é hora de curtir. Essa sensação de vento no rosto é muito boa.

Sem noção?

Publicado por Marta em 21 Mai 2009 | sob: Femininas, Cotidiano

O ministro das Comunicações, Helio Costa, aconselha a juventude a deixar de “ficar pendurada na internet” para ver mais televisão e ouvir rádio. A escritora Maria Mariana afirma que pegar no chão a cueca suja do marido é um “aprendizado de paciência e dedicação”. O que Helio e Maria Mariana têm em comum? Ambos estão bitolados em seus mundinhos, mas mesmo assim acreditam que suas opiniões são relevantes. Que bom que temos a internet, para meter o pau neles.

O cargo de um e o passado profissional da outra, teoricamente, os habilitariam a falar sobre os seus temas sem deixar escapar tanta bobagem. Mas o problema acontece quando as pessoas são acometidas de um egocentrismo que as impede de olhar em volta, e ter a humildade de reconhecer que suas experiências pessoais ou impressões superficiais não são relevantes – pelo menos enquanto forem só isso: pensamentos toscos que não passaram por qualquer tipo de elaboração.

Consigo imaginar Maria Mariana exercitando a paciência necessária para manter qualquer casamento, lá do jeito dela, ainda mais com quatro (lindos) filhos a tiracolo. Ou o ministro legitimamente irritado com algum jovem próximo que passa o dia vendo baixarias na internet. Ambos podiam ter ficado quietos. O caso do ministro, claro, é mais grave: ele tinha obrigação de conhecer o assunto, antes de generalizar a internet como algo nocivo aos adolescentes (em contraposição à … televisão!).

Mas acho que a escritora, tão antenada na adolescência, também virou uma “sem-noção” – algo um tanto natural, depois de nove anos sem trabalhar, cuidando de filhos… Para chegar a uma conclusão, leia a polêmica entrevista que saiu na Época, e também a versão dela, dos fatos e da edição da matéria.

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